terça-feira, 15 de maio de 2012

Guarda-chuvas mortais, e a redenção das camisetas.

O problema do Rio de Janeiro quando chove não é a chuva. O problema são os guarda-chuvas. Deveria haver uma lei quanto  ao uso do guarda-chuva. Por exemplo: a coisa que mais me irrita são as pessoas que saem na rua de guarda-chuva, mas que só andam debaixo das marquises. Ora... se o sujeito já está portando um guarda-chuva para quê ele precisa da marquise? (!!!) A marquise deveria ser prioridade daqueles que não estão de guarda-chuva na mão. É insuportável a gente tentar se proteger da chuva andando por baixo das marquises, e ainda ter que enfrentar o trânsito de pessoas, que com um medo patológico de água, não se bastam apenas com um guarda-chuva; precisam da marquise também.

Mas pior mesmo são os velhos de copacabana. Nada contra os idosos, sei que um dia eu serei um deles. Mas espero que quando este dia chegar eu possua pelo menos alguns neurônios sobreviventes no meu cérebro. Pois que os velhos de copacabana parecem não ter feito bom uso de seus cérebros durante suas vidas. Porque eles andam nas ruas como barcos no meio de tempestades. Por exemplo, de novo: se você se encontra descendo a rua Santa Clara, pelo lado esquerdo, mais próximo dos prédios, e avista um idoso vindo na direção contrária, só que do lado direito, mais próximo ao meio-fio, tenha certeza de que ele traçará uma diagonal, na sua direção. 


São como imãs carentes precisando tocar em você. Ou talvez exista algum corolário da lei da gravidade, ainda não descoberto pela física, que explique a atração que um velho do outro lado sente por você. Há, sem dúvida uma força de atração maior que eles. Talvez a busca da juventude num breve contato "street-social". Ou talvez eles só queiram mesmo atingi-lo com os seus guarda chuvas, enormes, cheios de pontas, na tentativa, quem sabe, de se vingar de sua idade.

Um guarda-chuva, antes de ser uma proteção contra a água que despenca do céu, é uma arma perigosa. Possui geralmente umas seis pontas de metal, com o potencial de arrancar olhos em milésimos de segundos. Meus olhos já se safaram inúmeras vezes. E em todas as vezes sinto que fui atingido ou de propósito por alguma dona de noventa anos, ou por alguma doente patológica, dotada da síndrome do pânico de água da chuva. Agora, pergunto-me eu: será que esse pessoal também tem medo de tomar banho? Será que lavam o corpo a seco, utilizando o velho processo das lavanderias? Porque, pelo que eu sei, pelo menos do meu chuveiro sai água e não vapor, ou qualquer outra coisa.

Então pense comigo: se as pessoas não tem medo de tomar banho em casa, porque é que com apenas algumas gotinhas surgindo no céu de copacabana, de repente a cidade se vê tomada por um enxame de guarda-chuvas pontudos dilacerantes. Ou será que eu possuo algum campo magnético que atrai gente estapafúrdia, paniquentos de chuva. Fosse esta cidade a Inglaterra acho que todos se jogariam pela janela com medo de água pura.

Não consigo contar as vezes em que levei toco na cabeça, olhos quase vazados, braços arranhados, fora o trânsito de pessoas que simplesmente me impediam de andar. E tudo por causa de uns pinguinhos benéficos de H2O.



Enfim, no final da noite, já chegando à portaria do meu prédio, sou abordado por um homem, provavelmente nos seus 50 anos de idade, mendigo, pois dormia na rua, mas não parecia. Parecia apenas uma pessoa perdida, sem saber para onde sua vida foi, e por isso vagava. Me perguntou se eu teria um cobertor velho para dar-lhe, pois não aguentava mais de frio. E eu vi nos seus olhos a sinceridade dos que realmente não tem saída, e apenas desespero. Eu lhe disse que não tinha, e era verdade. Aqui em casa não temos cobertores de sobra. 

Me deu uma pena, e a caminho do corredor que leva para a minha porta fiquei pensando, que a coisa pior que pode acontecer com alguém, além da fome e da doença, é sentir frio. Um frio sem solução, numa madrugada úmida de inverno. Solitária madrugada dos que só olham para si mesmos. Neste mundo de hoje em dia  ninguém olha para os lados, e o frio também é algo solitário. Triste destino o de tremer a pele sem ter a solução de um simples trapo para se cobrir.

Voltei. Chamei o homem, que se ia pela escuridão da rua, e ofereci a ele camisetas velhas, que não me merecem mais. Pelo menos iam aquecer a noite dele. Juntei umas dez e doei. E no olhar deste homem vi a necessidade latente e descoberta. E um pequeno sorriso de agradecimento, um "Deus lhe ajude", e um aperto de mão verdadeiro.

Poucas vezes me senti tão bem. Dar é receber. E isso é redenção.



2 comentários:

Anônimo disse...

Vc é a alma mais linda que já conheci na Vida. Já me aqueceu para além das camisetas, agasalhos imateriais destes que não se encontram em lojas, e certamente foram tantos que vc aqueceu que nem saberá quem fui um dia. Sorte e paz para vc, querido. Tua arte aquece.

pulaumalinhaparagrafo disse...

Está cientificamente comprovado que os índices de machucados nos olhos aumentam consideravelmente na época de chuvas!