terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Passo



Eu luto por amor.
Depois eu luto de amor.



Gerônimo era um menino normal.  Morava numa cidade normal, com uma família normal, comia uma comida normal, tinha amigos normais e vivia uma vida normal. Um dia sua mãe pediu pra que ele fosse comprar algo, numa loja azul, que ficava num vilarejo perto de uma colônia de pescadores, meio longe de onde ele morava. Gerônimo era novinho, mas na cidade do interior que ele morava, as crianças começavam a andar sozinha cedo, e na maioria das vezes descalças. Não era uma cidade pobre nem rica, era uma cidade do interior, com casas humildes porém decentes e e dignas, e um povo trabalhador e responsável, porém preguiçoso, que gostava de  passar o dia de folga deitado na rede fumando cigarro de palha e ouvindo as cigarras a cantar.

Gerônimo seguiu seu caminho. Como sua mãe havia mandado foi na direção do vilarejo. O caminho era alternado por terra batida, um pouco desértico no meio, e ia se tornando grama e pasto seco misturado com algumas árvores floridas e outras de menor porte. O dia estava ensolarado porém não estava quente. Era um dia ambíguo, como a vida. Gerônimo levava consigo uma bolsa leve, de pano bege, onde guardaria os produtos; como tudo na vida.

Gerônimo à partir de determinado momento adentrou uma trilha de terra que cortava um imenso pasto de grama recém colhida. Andou por mais ou menos uns dois quilômetros, quando de repente deu de cara com uma imensa árvore, do tamanho de um caminhão, e neste ponto a trilha se dividia em duas: uma para cada lado. Gerônimo não podia seguir em frente, pois a enorme árvore não permitia. Ao mesmo tempo a árvore impedia qualquer visão do meio; havia portanto apenas dois caminhos a serem trilhados, e Gerônimo teria que escolher a direita ou a esquerda.

Gerônimo não conhecia bem a direção, então naquele momento escolheu seguir pela direita. Naquele exato momento uma estrela colidiu com outra, um gato em algum lugar do mundo miou, uma criança nasceu nas mãos de uma parteira, e um cometa raspou incólume a Terra, encoberto pela luz do Sol e livre da ignorância das pessoas.




Gerônimo, sem saber, havia tomado a maior decisão de sua vida. A primeira de todas, o seu rumo, gerado pela necessidade peremptória da decisão a que lado tomar, e tudo isso orquestrado e sob gestão exclusiva do Acaso. Gerônimo deu o passo, mas não teve culpa de tê-lo dado.

Sua vida daí em diante partiu. Tanto do sentido de quem vai à frente, como do sentido outro, de se aquebrantar em partes. Pois muitas vezes ir em frente não significa ir certo. E todas as vezes, não ir significa o impossível, e o impossível não há. Apenas para aqueles que sonham. Porém até os que sonham dão seus passos no imaginário, sem perceber que o Todo se movimenta apesar de sonhos, e que a corrente de movimento está fadada a nunca parar; independente da vontade dos cantadores, dos escritores, dos músicos, e dos atores, todos, sem exceção dão o grande passo, mesmo sem dar.

Não se pode dizer que não houve felicidades na vida de Gerônimo, porém seria melhor descrevê-las como alegrias fáceis, fogos-fátuos, arroubos momentâneos e pouco duradouros, porém valiosos algumas vezes. Não foi fácil. Seu pai morreu, sua mãe fugiu, seus professores o esmagavam. O ensino recolhia de sua cabeça tudo de bom que um dia seus pais o haviam doutrinado. Foi massacrado pelos amigos, foi negado nas piores peladas de futebol, assim como foi-lhe negado o direito de se comunicar com facilidade, seu pensamento foi cerceado, e seu futuro foi declarado passado.

Gerônimo terminou a adolescência sem saber quem era, quem havia sido, e o que poderia vir a ser. Com algumas alegrias e algumas ajudas atingiu alguma faculdade e tirou notas boas e notas ruins. Mas nada disso importava, pois suas decisões acabavam dando sempre erradas, e sempre que se via em situação de escolha, Gerônimo sofria o mal dos males. Não namorou (apenas uma vez com uma meretriz), não se casou, e nem teve filhos. Não se educou como devia, e seu lazer se restringia a assistir as peladas dos outros.

Aos quarenta anos Gerônimo deu sorte e conseguiu um bom emprego, graças a um bom vizinho que o ajudou. Mas perdeu o emprego, perdeu a casinha que seus pais o haviam deixado, perdeu a linha e ganhou bebida. Bebida sempre se ganha em algum lugar; é o consolo dos fracos. Porém, até para a bebida precisa se gastar, e chegou um momento em que Gerônimo virou mendigo para poder beber. Quem não viveu o que Gerônimo viveu, não sabe que para muitos, Deus atende pelo nome de Cachaça.

Aos cinquenta anos foi entregue aos cuidados do governo, e teve a mesma sensação de ter voltado à infância e à sua temida trupe escolar que o massacrara. Foi colocado na função de limpar os restos e dejetos dos outros. Trabalhou, se esforçou ao máximo, como se aquilo fosse um cargo no Itamaraty. Conheceu uma menina numa época em que não existiam vitaminas em seu corpo. Não era um homem feio, porém maltratado. pelos outros, por Deus, pela cachaça talvez? Que importa? Talvez por si mesmo. Mesmo!

A vida foi se sucedendo e Gerônimo perdeu o trabalho, perdeu o dinheirinho pouco, perdeu, a trouxa de roupa, perdeu o lençol de estopa, perdeu a cabeça, perdeu os sonhos de criança, perdeu o cabelo, perdeu os amigos, perdeu os conhecidos, perdeu os inimigos, perdeu a paisagem, perdeu os óculos, perdeu a luz, perdeu a linha, perdeu dois dedos, perdeu mais vitaminas, perdeu o amor...............................................................................................................................................................................................................................................................e viu que havia perdido o tempo.

Um dia, uma quinta-feira sem número certo, Gerônimo se encontrava deitado em seu leito de morte num hospital público da cidadezinha onde nasceu. Seus olhos paralizados na direção do teto evitavam olhar a cruz que havia na parede do quarto. Não havia soro, nem aparelhos de respiração, nem tampouco remédios. Uma  mariposa circulava atônita a lampadazinha amarela que quase se despencava no chãozinho de ladrilhos quebradiços e da cor de terra. Do seu lado sentava-se com cuidado um velho padre, que rezava a extrema unção. Não havia mais ninguém no recinto.

Subitamente não havia mais padre no recinto, e os olhos de Gerônimo viajaram pela sua vida, e enxergaram coisas que havia feito e se arrependido. Coisas que não o levaram a lugar algum. Porém, tudo leva a algum lugar e Gerônimo teve esta percepção. Olhou para sua pernas, para seus pés encardidos e simplesmente pensou. Pensou, e lembrou de sua mãe fugitiva, e do seu pai morto pela enchada, e lembrou sua vontade de jogar pelada, e lembrou das pequenas e fúteis alegrias do amor, e lembrou de todos os seus fins trágicos e pensou-os menores do que o que estaria por vir, quem sabe...(?) Porém, não pelo seu desejo próprio, Gerônimo sabia que devia viver, mas, além, mais além disso, sabia que poderia ter vivido. E imprecou contra a vida miserável que foi se sucedendo progressivamente em sua história, e xingou a Cachaça amarga, mas apesar disso sabia e pensava e se esforçava para lembrar alguma coisa importante, algo que justificasse tanta injustiça, e que pudesse, no momento derradeiro, livrá-lo da culpa de ter sido um sujeito sem sorte durante a caminhada. "Caminhada???" O pensamento saiu rouco de sua já não existente voz. Então Gerônimo voltou a olhar seu pé dilacerado pelas caminhadas, e lembrou-se de quando sua mãe, ainda viva e sadia, o havia mandado caminhar até o vilarejo dos pescadores, e lembrou do quê, por tanto tempo, havia esquecido de comprar - pão especial para uma humilde celebração. Gerônimo se lembrou da árvore e do caminho que se separava em dois, um para cada lado. E lembrou ter aleatoriamente escolhido um dos lados. E um gemido rouco saiu de sua garganta já definhando. "Porque escolhi aquele caminho, meu Deus?" E a dúvida plena, que talvez seja a maior de todas no universo se abateu sobre o quase defunto Gerônimo: o que teria acontecido se eu fosse pelo outro caminho... "Teria sido melhor....?"

Foi naquele momento em que a porta se abriu e entrou um menino, uma criança linda, de 10 anos de idade, cabelos escuros e lisos, olhar ingênuo e puro. Chegou-se a ele, e bem ao seu lado, em pé, parou. Esta era a criança que Gerônimo foi um dia.

Gerônimo então pegou em sua mão e lamentou. A criança, sem nem sorrir nem entristecer, segurou em sua mão e disse: "Gerônimo, você desejaria ter outra chance? Desejaria descobrir se o outro caminho talvez pudesse ser um caminho melhor?"

Gerônimo não conseguia mais nem balbuciar palavras, nem sons, diante da emoção da vida e da morte, ambas presentes no recinto à espera de uma reação. E foi pelos olhos de Gerônimo, pelo brilho de seus olhos, e pelo sorriso brotado em sua face, que a resposta foi compreendida pela criança que ele, um dia, havia sido, e que se encontrava em pé, bem ao seu lado, como que uma miragem boa e verdadeira.


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"Gerônimo, vai comprar pão bom na vila perto dos pescadores, menino! Que hoje vamos fazer uma celebraçãozinha aqui! Vai logo, menino, não demora!"

E assim viu-se Gerônimo, de novo seguindo o caminho que o levaria à grande Árvore e ao seu Acaso. Um pouco de caminhada e logo estava ele ali, de novo, como se nada houvesse acontecido. E no momento da dúvida eterna, algo lembrou a Gerônimo que desta vez ele precisava, deveria!, seguir pelo outro lado. E assim ele fez.

Ao pisar em direção ao outro lado, Gerônimo andou dois metros e  logo tropeçou numa pedra pontuda que havia no caminho. Caiu no chão, ralou o joelho um pouco, se levantou, limpou o ferimento com as mãos, sacudiu a poeira, sorriu, e tocou em frente sua nova vida.


Um comentário:

FLOR DO LÁCIO disse...

Quantos Gerônimos fazem este país e este mundo de Meu Deus! Parabéns pelo texto. Marcio Campos