terça-feira, 14 de junho de 2011

O outro

O que é o outro? O outro é um incomodo. Um estorvo às nossas vidas individualistas. Nós só sentimos compaixão pelas feridas às quais nos identificamos. Para isso precisamos da própria ferida. É a única maneira de sentir o que o outro sente, e desta forma conseguir estabelecer um laço com o outro.

Isso que acabei de escrever não é novidade. Não é invenção minha, nem filosofia original. Os compêndios de psicanálise são cheios disso, embora eu não os leia. No momento não consigo me relacionar com esses livros - outros.

O engraçado é que nos países mais desenvolvidos, de povos extremamente individualistas, existe uma preocupação maior com o bem estar do próximo. Mas sem me iludir. Essa atitude serve basicamente para que se mantenha, ou se construa uma sociedade forte. Onde a voz do povo não é a voz de Deus, e sim do governo, que se não obedece sempre, se encolhe de medo.

Aqui no Brasil, um país conhecido por sua gentileza, seu bom humor saudável, sua abertura carinhosa, seus braços abertos de flamenguista, a coisa é bem diferente.

Aqui o povo sofre mais junto, mas unido em favelas violentas e fétidas, porém se pudesse se matar se matariam juntos tambem - uns aos outros.

O senso de comunidade é hipócrita e falso. As pessoas se odeiam de uma maneira portuguesa, quase que remetendo a Eça de Queiroz e seus livros.

O brasileiro não é um forte. O brasileiro é um grosso.

Hoje fiquei chocado com um adolescente que vi crescer. Menino de família muito muito humilde, que de repente adoeceu sem saber o porquê e o como. Especula-se uma leucemia, uma AIDS até... Mas uma coisa está bem certa: morrerá em dois dias caso nada seja feito.

O menino obviamente não tem dinheiro para os exames que são caros. Sua mãe é mãe solteira e desamparada e ignorante analfabeta - humilde e pobre. Plano de saúde nem pensar. Foi repelido de uma fila do SUS depois de horas de espera em jejum. Porquê? Alegaram que para ser atendido teria que marcar uma consulta por telefone. O telefone vive congestionado. E aí, merda de Brasil???

Restam as pessoas que se prestam a ajudar. Algumas sem a menor obrigação, mas com muita compaixão. Pois o que move o homem é a sua necessidade e o seu medo, seja do futuro ou do passado. Seus resquícios têm que doer para que ele olhe para o lado e veja alguém. E veja amor. Pois até o amor é feito de tecidos remendados.

Fôssemos robôs seríamos mais justos e humanos até. Sendo humanos, somos mais robôs.

(Agradeço sempre àqueles que conservaram meus fusíveis, trocaram meus parafusos e me azeitaram os olhos de metal.)

Um comentário:

Cláudia Bistrichi disse...

Numa país chamado EUA de 1° mundo nem ao menos existe SUS, isso que é individualismo, eu já vi não um mas vários documentários da realidade das pessoas pobres e doentes dos EUA e bom o final não é feliz, aqui no Brasil nos povo temos o SUS que é de “todos”, e sabe por que ele vai mal por que nos não o usamos deixamos esse sistema para os mais “humildes”, acho que foi aqui que eu li uma historia de 2 centavos e tal, a idéia era cobrar seus direitos, é verdade muito inteligente mas sabe qual a diferença desse personagem para os demais, é que quem cobra seus direitos a risca é mesmo que tem a consciência de seus direitos e que provavelmente na sua infância foi ensinado a isso ao contrario dos demais, a organização do SUS é ruim fato, e quem é o vilão? o governo que desvia verba, ou nos cidadãos que “sabemos” de nossos direitos e cruzamos nossos braços, afinal para que né, agente tem plano de saúde mesmo.

Mas como o tema é solidariedade o que ocorre é que nos baseamos no ego para fazer essa medida de ajudar as pessoas com obrigação. Quando conseguimos sair disso e entramos na freqüência do amor incondicional, sentimos que algo sutil e muito precioso acontece. A energia simplesmente flui, e não importa mais se damos ou se recebemos, essa noção se dissolve no amor.