terça-feira, 21 de junho de 2011

A Execução

Meu nome é Z. Sou um matador. Não sou um pistoleiro. Não mato por reles 300 reais, não estou no "sindicato" das favelas, nem sigo a tabela de preços. Eu cobro por importância. O sujeito é o preço. Não tenho esconderijo. Sou mais amanteigado que a CIA e a Scotland Yard juntas. Ninguém me pega, quem pega sou eu.

Um escritor doidão, não me lembro bem seu nome, Castanheda ou algo assim, escreveu uma vez, num livro para maconheiros, que a morte está sempre a um braço de distância. Neste caso um corredor minúsculo de um hotelzinho sujo, um pardieiro cheio de meretrizes e bebedos, me ajudou muito.

O corredor não tinha mais do que meio metro de largura, o que significava que a morte estava onde mais gosta de estar. A vítima só poderia fugir correndo para trás ou para a frente. Para trás havia um mictório, para a frente havia a mim. Portanto não haveria escapatória.

Usei uma arma forte, porém leve. Calibre grosso mas com silenciador. Pra quê acordar as putas, não é? Porém tenho certeza de que todo mundo acordou, mas ninguém teve a coragem de abrir porta alguma. O pardieiro pareceu uma igreja, com seu piso de mármore falsificado em quadrados pretos e brancos, e o cheiro de vaselina e mijo no ar.



Depois do trabalho bem feito desci às escadas de granito de cozinha vagabunda calmamente: sabia que ninguém poderia me pegar. Não há policial, não há justiça, nem mão que consiga me tocar. Eu sou feito da lama que escorre, eu sou como um vento de mudança, eu sou o Tempo.

O porteiro me olhou de soslaio e continuou a ler seu gibi de merda. Sentado dentro de uma cabine protegida por vidros à prova de bala, e de cultura. Dava apenas para ouvir o seu maravilhoso funk de morro tocando no rádio de pilha. Cagou pra mim, e eu pra ele. Saí sorrindo.



Parei num boteco que há do outro lado da esquina desta rua localizada no triste bairro do flamengo. Bairro de merda que ainda conserva um toque aristocrático há muito perdido no odor das famílias que perambulam pelas farmácias, comprando desodorantes pros seus sovacos tristes. Ninguém mais pensa em nada nesse mundo, a não ser não feder mal. Houve uma época em que as pessoas fediam mais, ou tinham o mesmo cheiro, e era uma época mais rica culturalmente, mas isso acabou.

Botei a arma no coldre e pedi uma bebida de guaraná falsificado. Não bebo álcool. O álcool faz mal pro corpo. Eu me preocupo com minha saúde. Porém prefiro as falsificações. São elas que me sustentam. Meus serviços são sempre voltados a dizimar o legítimo. Paguei e saí. Não gosto que me olhem muito. Não posso dar mole se não as coisas mudam. Preciso estar sempre em suspenção, preciso ser a sombra que sou, apenas entro nos lugares, executo meu serviço e pronto. Assim ninguém percebe e fica tudo parecendo que está na mesma.



Hoje me dei bem. Há tempos estou à caça deste indivíduo. É um dos últimos da raça, e estava tentando comer a filha do Patrão. Representava uma ameaça séria ao sistema. Tava quase chegando lá. Ia se dar bem, ia acabar ressuscitando os grandes bordéis de antigamente, ia acabar trazendo o "clima" de novo à tona. Isso não pode acontecer. O Patrão sabe bem o que faz, e me paga bem. Existem outros que eu ainda preciso apagar, mas isso é com calma. Não posso ser pego. Ninguém há de perceber o conceito do complô.


No caminho me lembrei de ter esquecido meu isqueiro suíço no bar do Hotel de merda. Voltei. Eu uso luvas, mas uma pista é sempre uma pista, mesmo sem as digitais. Quando cheguei lá o porteiro, me reconhecendo, me olhou com cara de nojo, como se eu fosse um incompetente. Que porra é essa? Não gosto que me olhem assim. Sou o único que pode executar o serviço até o fim. Esquecer um isqueiro é natural, caralho!

Subi até o corredor do terceiro andar onde a vítima estava. Pasmem! A vítima não estava mais lá, e não havia indícios de polícia, nem de bebedos nem de urubus, portanto pensei: que porra é essa?

Todas as portas continuavam fechadas, com seus bebedos fodendo ou sendo fodidos, sei lá. Mas percebi perto do mictório uma porta semi-aberta. Uma puta saiu rebolando lá de dentro e me deu uma olhada cor de verde. Entrei....

Não acreditei no que vi. O "presunto" se encontrava sentado na cama e fumava um cigarro. E ria. Olhou pra mim de um jeito grato e disse: "Não adianta, otário. Você nunca vai acabar com a arte. A arte é eterna e impossível de ser apagada. Pode me encher de buracos que eu não morro. Mas senta aí, vem ouvir um violão, que esse calor me deu até vontade de fumar. E olha que eu nem fumo, hein!"





                                                        


6 comentários:

ceci disse...

Caraaaaa..... que Thriller !Estou ainda percorrendo o corredor minusculo onde mora a "amiga da onça".
Que "arteiro" que vc . é!

Omar disse...

Mto bom Alan e Claudia!!! da um curta!

Omar disse...

Mto bom Alan e Claudia! Da um curta!

Cláudia Bistrichi disse...

Na verdade Mr.Z sofre de síndrome do vampirismo
Notem que ele prefere ser matador do que pistoleiro e completa dizendo que ele não tem esconderijo logo se adapta em qualquer lugar tal qual um vampiro.
A parte que ele se refere “ usei uma arma leve porém forte” nos dá indícios que poderia ser um punhal uma arma leve porém fatal para humanos.
Veja que quando ele diz não “bebo álcool” lógico bebe sangue.
E aqui pronto ele revela tudo “Há tempos estou à caça deste indivíduo.”
Brincadeirinha... agora falando serio a mensagem que a história quer nos passar ta muito boa!!!
E a pintura também fico muito legal em época de halloween que rola essas paradas e em filme de terror também se vê bastante.

Ana Lígia disse...

adorei!

claudia cristina tonelli disse...

Hmmm...mais vivo que nunca, sempre! Sua arte pulsa... ;) (eu sei...)