sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Jardim das Borboletas

Espero conseguir transmitir em poucas palavras o que senti ao me apresentar, no último sarau Criar, acompanhado de uma menininha de nove aninhos. Na verdade preciso me corrigir. Fui eu que a a companhei ao violão, num solo vocal de sua parte, tão singelo e tenro, tão cheiro de talco e ao mesmo tempo de uma pretensa maturidade, que comoveu como nunca dantes visto por mim a todos que ali estavam.

Vou chamar este "relato" de O Jardim de Borboletas, porque acho que a melhor definição do que aconteceu entre mim e a menininha foi justamente o que senti: catando borboletas num parque de sonhos, lúdico e mágico, onde o mundo nos assistia, mas nós não assistíamos a nada, apenas tentávamos "colher" borboletas azuis, amarelas, prateadas da cor dos flashes que nos vivenciavam e passavam despercebidos tamanho era nossa concentração no sonho, na nossa troca entre nós dois, e a borboleta mais bonita.

Lá estávamos nós galgando uma trilha puxada por mim. A menina trilhando o inimaginável por ela, e que vivi tanto nas minhas andanças pelo mundo. Nessa floresta díspare e muitas vezes amedontradora, a menininha segurava a minha mão. E confesso que nunca na minha vida fui pai antes daquele dia. Eu que nunca nem fui e nem sou pai (pelo que sei até agora...).

A menininha foi ousada sim. Corajosa e rígida. Digo rígida porque lembro da primeira vez em que eu mesmo subi num palco e minhas pernas tremiam tanto que eu achava que iam desfalecer. Me senti tão sozinho, tão julgado, tão vulnerável que é impossível descrever. Tive dois momentos de iniciação. Um concedido por músicos simpáticos que tocavam música folk num barzinho underground de New Orleans e me concederam seus 15 minutos de descanso. Nessa noite toquei para duas mesas de no máximo 10 pessoas e tremi. Minha segunda iniciação foi durante a escola de música em Los Angeles, numa aula-show, com palco de verdade, luz, som bom, show mesmo!, voz e violão, uma pá de gente assistindo (todos músicos, plateia dificílima...) e dois professores julgando a performance no fim. Nesse dia tremi na base. Esqueci letra, acordes, tudo, mas consegui ir até o final.

Quando me encaminhei ao palco junto a Letícia Tonelli, a menininha, eu a perguntei se estava nervosa. Ela prontamente me disse que não. Mentira. Qualquer humano fica. E no vídeo dá pra ver o seu corpinho rígido, tenso, porém relaxado numa atitude blasé. Seus olhinhos vidrados num misto de concenração e corda-bamba. Linda criança, vencendo as dficuldades da vida com o queixo pra cima, olhando de frente, encarando o público como se nascesse pra isso, e eu digo do alto da minha humilde experiência, ela nasceu pra isso.

Eu, por minha parte me senti bem calmo. Sabia que tinha que guiá-la nas trilhas das borboletas, e quando sou guia, não sei porquê, mas assumo uma postura de presidente dos EUA: sou o BOM. Não nasci para ser guiado, nasci pra mandar mesmo. Mas quem mandou foi a menina. Dando o tom do meu violão, me fazendo obedecer a amplitude infantil de sua vozinha. Seguiu todos os meus conselhos, mas não deixou de me olhar de soslaio de vez em quando para saber o momento certo de entrar no compasso, ou como se buscasse minha mão na dela. Foi nesse olhar que senti suas mãozinhas segurando as minhas pelas trilhas de borboletas. Uma hora identificando uma maior e mais bonita, e eu então diminuía meu volume para que sua vozinha resplandescesse mais. Outras horas mais difíceis, com borboletas mais altas e pequenas eu a segurava com mais força para que não caísse e desafinasse. Vocês não podem imaginar a dificuldade de não desafinar quando se tem pelo menos umas 150 pessoas olhando para a sua cara. Pessoas positivas, pessoas negativas. Inveja, admiração, misturas de sentimentos, e uma música relativamente difícil...etc.

Lembro que antes do show eu quis dar a ela um amuleto que nos protegesse e nos desse um show legal. Ela não quis. Ela no fundinho da sua alma sabia ser ela mesmo o amuleto. A criança amada pela mãe, que a observava de longe catar borboletas, pronta para resgatá-la a qualquer momento inoportuno. Olhos vidrados de mãe que vê filha casar, fazer batmitzvah, defender tese de mestrado, dançar balé no municipal, sei lá. Quem tem mãe tem tudo. Não houve diferença entre aquele barzinho singelo de botafogo e o municipal. As borboletas seriam as mesmas, as trilhas, sempre perigosas seriam vencidas, e no final encontraríamos e capturaríamos a borboleta maior, a da iniciação. Aquela que não se pode prender, pois ela passa e se transforma em segunda vez. Tenho certeza de que serão muitas vezes na vida desta menininha. Não vai ser sempre comigo, mas pelo menos me sinto honrado de ter tido a coragem de botar Letícia Tonelli no palco, pela primeira vez, cantando num dueto mal ensaiado (porém com a letra já decorada por ela há dias, o que muito orgulha meu ego).

E depois a menininha magrinha e alta para a idade, que reluta tanto em comer, traçou sorvete com bananas carameladas e depois batata frita. É... nada como a adrenalina no sangue!



Assistam ao vídeo!




Um comentário:

Gisele Aguiar disse...

As crianças têm uma luz própria, uma ingenuidade única, um olhar que nos faz emudecer diante de tanta esperança, alegria de viver...
A Letícia....bem, a Letícia me deixou sem ar, sem palavras, para dizer o que senti depois de ver este lindo vídeo dela cantando, ou melhor, encantando, a platéia que estava neste barzinho.
Quiçá um dia eu possa vê-la cantar ao vivo, seja neste barzinho ou em qualquer outro lugar.
Desculpa, Alan, mas este dia foi DELA...Uma estrelinha começou a brilhar mais forte, neste dia, e brilhará a cada dia mais, disso, eu tenho certeza......beijo, Letícia.Quero muito muito te conhecer!!!!!!Já sou sua fã!!!!!