segunda-feira, 23 de maio de 2011

O dia em que o diabo foi enganado




Uélington era um ser frustrado, pobre, suburbano, feio e triste. Não possuía família viva. Morava sozinho num conjugado perto do Complexo da Maré, que pra quem não conhece, é uma das piores favelas da periferia da cidade do Rio de Janeiro. Trabalhava como entregador numa empresa de caixotes de papelão. Sua renda só dava pra comer e se locomover e mal se vestir. Afinal, era um brasileiro desses que nunca desistem, e também nunca conseguem.



Parecia realmente que sua sina havia sido decidida no momento em que dona Mariângela lhe deu o nome: Uélington, Um nome pouco promissor. Começando com U... nome de erro de funcionário da repartição onde sua certidão fora emitida.

Uélington queria ser jogador de futebol. Queria ser um pop-star dos gramados. Passava os seus dias de folga assistindo aos jogos na TV básica e vendo fotos de jogadores em revistas que ele encontrava num lixão perto do seu prédio de três andares, imundo. Só que Uélington não sabia jogar bem o futebol. Era o maior perna-de-pau da rua. Era mirrado, e baixinho, e meio caolho, e não havia mesmo jeito dele melhorar ou aprender a jogar bola. Uélington parecia que ia ficar apenas no sonho mesmo.

Mas como Deus não dá asa para cobra, mas também não dá veneno pra esquilo, existia um porém nesta infelicidade tanta: Uélington não era burro. E fora dos campos de pelada Uélington era um sujeito bem esperto. Mas isso não basta no mundo de hoje, onde as pessoas são privadas de mobilidade social completa.

Então Uélington tinha prazer nos seus sonhos, no seu desejo de ser um grande atacante, de jogar no "Framengo", como dizia, e sonhava e dormia bem, e fazia muitos gols em seus sonhos, mesmo sabendo que sonhos são apenas sonhos pra um Uélington do Complexo da Maré.

O bairro onde Uélington morava era de ruas de barro batido, calçadas esburacadas, e há uns quinhentos metros do final de sua rua havia uma encruzilhada, que um dia foi ponto de drogas e que depois teve de se mudar com a instalação de uma unidade fixa da Polícia Militar (PM) no local.

Essa unidade durou um tempo, mas também teve que se mudar sabe-se lá o porquê. O fato é que o lugar, a encruzilhada era êrma, não possuia casas, mas também não era terreiro. Era um lugar onde plantas não nasciam, e sentía-se uma poeira, um tipo de atmosfera, que seria de tom avermelhado, caso fosse possível dar cor ao ar. Era um lugar esquisito. Quase funéreo, evitado pelas pessoas, e tão vazio e desencantado de vida que nem depacho de macumba se colocava por lá.

A encruzilhada era esquisita mesmo. E ficava mais esquisita à noite pois mesmo sem mais nenhum policiamento, de vez em quando passava um camburão antigo da polícia, daqueles que não se fabricam mais, e que se tornaram obsoletos frente aos modernos carros de hoje em dia. O veículo geralmente parava na encruzilhada por uns cinco segundos, e dava pra se ver um vulto dentro do carro, e apenas um. Coisa estranha, pois policiais geralmente vão em duplas. E quando o carro partia não se ouvia barulho, e nem rastro deixava, portanto era bastante ignorado pelos moradores das ruas contíguas, porém meio distantes do local.

Mas da casa de Uélington dava pra se ver bem, mesmo ao longe, a encruzilhada, e Uélington sabia bem a hora em que o camburão extinto passava. Sempre à meia-noite, o que o intrigava muito, mas também não o preocupava, pois Uélington não era um cara medroso e não acreditava em bobagens, e na sua cabecinha apenas uma coisa se passava, e era o futebol.

Numa quinta-feira Uélington teve um sonho muito estranho e incomum. Sonhou que jogava bola num campo de terra batida, e que naquele momento levava a bola para a marca de escanteio do time adversário. Uélington botou a bola na marca e ia bater o escanteio, bateu e marcou um golaço do tipo olímpico, que é quando a bola entra direto no gol sem tocar em ninguém. E logo após a cobrança, e o gol, não houve comemoração, todos os jogadores haviam sumido e agora Uélington se via ainda no campo, mas que não era mais um campo de terra batida, mas sim de grama, e quando olhou em volta era o Maracanã! Vazio porém era o Maracanã, e Uélington calçava chuteiras Nike com assinatura do Ronaldinho e uniforme completo do seu "Framengo" amado e querido. Mas sozinho no estádio Uélington viu que de longe, o único observador agora era o camburão, e que a marcação de escanteio do campo, que geralmente é uma meia-lua, agora era uma cruz, e que Uélington se encontrava de pé bem em cima da marcação, branca e encruzilhada, no campo de grama.

Na noite seguinte, sexta-feira, quando deu meia-noite Uélington avistou, de sua janela, o camburão na encruzilhada. Achou estranho porque desta vez o camburão demorava pra sair. Havia-se passado 5 segundos, 30 segundos, 1 minuto, 10 minutos e ele ainda alí. Uélington sentiu uma coisa estranha. Sentiu que o camburão esperava por ele. Que algo o atraía e que isso havia de ter com o sonho que sonhara na véspera.

Uélington, que não era um cara muito medroso, então saiu do prédio e se dirigiu à encruzilhada onde o tal camburão parecia o esperar.

Quando chegou perto da encruzilhada viu a porta do camburão abrir, e nesse momento Uélington chegou a sentir um frio na barriga e um impulso de voltar, e foi quando ouviu: "Calma, Uélington, não vou te fazer mal, aproxime-se, I am a man of wealth and taste, please to meet you, hope you guess my name." Uélington que não entendia nada de inglês apesar de ter um nome inspirado na língua britânica, resolveu chegar mais perto e ver quem era o sujeito do camburão.

Quando chegou perto e pôde ver o sujeito, viu que era um policial, apenas um PM, fardado normalmente. Uélington ficou num misto de confusão, intriga, dúvida, e chegou mais perto ainda sendo cumprimentado pelo sujeito com um educado aperto de mão.

Na encruzilhada, no meio da escuridão, havia uma aura de neblina, meio roxa, meio avermelhada, meio esquisita, e um cheiro de sabão de enxofre, dos mais baratos, que ele comprava no camelô pra lavar os pés depois das peladas semanais.

Foi então que Uélington perguntou: "Quem é você? Está me procurando por quê? Eu fiz alguma coisa?"

"Não Uélington, não precisa ter medo, eu não sou um policial comum, eu na verdade vim realizar seu sonho." Disse o PM.

"Mesmo? Mas afinal, quem é você?"

"Eu sou o Demo, o diabo, o senhor das Trevas!

Uélington então disse: "Ok, eu não sou religioso e não acredito muito nessas coisas, prove então que voce é mesmo o diabo!"

"Uélington... eu sei toda a história de sua vida embora você nunca tenha me visto e ache que nunca estive de olho em você. Mas para provar que sou mesmo o Demo saiba que vou transformá-lo no maior jogador de futebol da História".

Uélington então viu realmente que se tratava do Demo, pois em sua cabecinha como que um PM desconhecido poderia ter conhecimento de sua maior vontade na vida e, ao mesmo tempo, sua maior incapacidade?! E perguntou então: "Maior que o Zico, maior que o Pelé!?"

"Mas é claro Uélington, como você acha que se consegue ser o Zico ou o Péle nesse mundo capitalista de hoje? Só fazendo pacto com o Demo, ora bolas!"

"Só tem uma coisa, Uélington.." Disse o Demo. " Existe um precinho para isso. Você vai ter que vender sua alma a mim, e após o seu sucesso eu voltarei para levá-la comigo."

Uélington disse: " Só isso? Minha vida já é uma merda mesmo, e minha alma já vive num inferno, qual a diferença se vai ser aqui em cima ou lá embaixo? Eu aceito!"

"Ok, Uélington, então basta apenas que você assine este papel, que é nada mais que um contrato onde você me vende sua alma em troca do talento, e da fama com as quais você tanto sonha. Por favor assine aqui em cima desta linha."

Uélington, que tinha nome errado, mas que não era burro nem nada assinou...

Só que ao invés de assinar Uélington com U, teve a esperteza de botar mais um bracinho na letra e assinar Uélington com W - e no contrato ficou Welington.

O Diabo, que era inglês mesmo, vendo aquele W que parece mesmo com a forma tão familiar de um tridente nem percebeu. E foi assim que Uélington, com U, enganou o Demo, salvou sua alma, e joga hoje no Cambuquira Football Club de Massuripe, interior de Goiás.

Mas dizem as más línguas,... já foi convocado para a seleção.

Um comentário:

Anônimo disse...

manerásso!