segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Viadutos

Existe no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro da Barra da Tijuca um lugar chamado Praia dos Amores. Era uma praia. Que devia ser linda, pois pequena e quase na entrada do Canal de Marapendi, seus encontros de águas só podíam remeter mesmo aos amores e seus encontros. Um belo dia contruíram uma ponte, um viaduto enorme bem em cima dela e assim ela foi esquecida. Já não é mais uma praia.

O Rio Comprido era um bairro que descia como um vale vindo de Santa Teresa e que virava Tijuca. Parte nobre do Rio de Janeiro há pelo menos uns 200 anos, o seu Rio Comprido virou um viaduto construído na década de 70, e que infelizmente ainda fez o favor de desmoronar na cabeça das pessoas logo após a contrução. O Rio Comprido tornou-se então um viaduto.

O Museu, a orla do centro da cidade, seus quiosques aristocráticos de uma época de Império, são passagem incólume, porém ao mesmo tempo imperceptível ao sujeito ignorante, ao turista, e ao distraído. Suas margens devidamente aterradas deram lugar a um viaduto da Perimetral, que destruiu socialmente a região, em função de fazer o trafego fluir mais rápido na cidade. E não "existem" mais.

Quando morei nos EUA, morei na cidade dos Anjos, e tenho certeza que todos os "angeles" se perdem num tecido emaranhado de pontes e viadutos que levam a todos os lugares. Tudo que leva a todos os lugares na verdade leva a lugar nenhum. E percorrendo a cidade enorme, com um olhar prescrutador, pode-se perceber cantos de beleza natural encobertos por "freeways" e "higways" que balançam tanto quanto os terremotos diários da cidade.

Mas porque será que estou falando de pontes e viadutos? O que eu quero dizer é: voltando ao início, à Praia dos Amores, penso, quantos amores não foram encobertos por viadutos construídos pra que nós pudessemos de fato nos locomover, nos encontrar? E então penso que são tantos os viadutos desta vida que tenho a certeza de ser cada vez mais difícil alguém chegar a algum lugar. E que talvez se não houvessem contruído um minhocão em cima de um lugar tão perfeito como a Praia dos Amores, a vida seria mais ágil até. Pois, de que vale um viaduto que nos leva pra qualquer lugar quando existe uma Praia dos Amores pra te levar a lugar algum?

Eu que amei tanto em minha vida. Parece que a cada amor florecido construíram-se viadutos por cima, interrompendo assim a visão das minhas Praias, dos meus quiosques, dos meus museus de felicidade. E que exerceram a função de destruir os meus lugares de sonhos, apenas para que eu chegasse mais rápido a algum outro lugar que não existe dentro de mim.

Quantas mulheres praia-dos-amores vieram seguidas de viadutos que me roubaram a visão e adulteraram a natureza do que eram? Tanto que talvez nem fossem. O próprio facebook não é nada mais do que um viaduto, onde pessoas acreditam chegar mais rápido em lugares onde elas já estão há muito tempo. Há séculos. Bastava estender a esteira de palhinha da minha juventude por cima da areia, e esperar o encontro das águas.

4 comentários:

claudia disse...

Lindo de doer na alma e transbordar os olhos!

carolnespoli disse...

Muito bom!

ceci disse...

Tem alguem no face que escreve:" A vida é um garfo na estrada" E é por ai Alain. seus artigos fazem-nos sonhar com os velhos temos. Imagina pra nos, "entas"? Os oasis de nossas vidas se tornaram selvas "maravilhosas" de pedras e tdos. aplaudem. Qualidade de vida ou qualidade de viver? Continue à plantar.... germinara com certeza.

Luciana Coló disse...

"A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto. Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo.
É a revolução, o amor. Não diga nada!
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar como se andassem na rua. Não conte.
Suponha que um anjo de fogo varresse a face da Terra e os homens sacrificados pedissem perdão. Não peça!" (Drummond)