sábado, 24 de agosto de 2013

A Vida Muda A Cada Três Meses.

Naquela cidadezinha do sul desembarcava o último homem sobrevivente da guerra. Seu uniforme já não era verde de tão sujo, suas botas já não eram polidas, assim como o seu olhar. Foi condecorado com alguma ordem das armas, e seu fuzil lustrado por alguma mulher sem nome e endereço certo. Saltou do trem e procurou em algum "brownstone" da estação o que poderia ser uma indicação. Não se lembrou da estação embora tenha passado parte de sua vida mascando tabaco sentado na linha do trem. Os guardas vinham puxá-lo pela gola, arrastá-lo para longe, pedir seu ticket. Agora era ele que possuía o poder de puxar alguém pela gola. Poder concedido pela poeira de outro lugar bem diferente da estação.

Passou uns dez minutos andando sistematicamente pela estação inteira, para oeste e para leste, para leste  e para oeste, até perceber que ela acabava ao fim de poucos metros. Era uma estação de cidade pequena, onde se podia sentir o perfume de frango com ovos e farinha, e onde se podia passar horas admirando o vestido das mulheres, imaginando suas pernas como seriam. Pensou que o mundo seria bem melhor se ficasse só na imaginação.

Por fim, recostou-se o ombro num pilar que sustentava a velha cobertura de telhas falsificadas, pré-fabricadas e sujas que tanto caracterizava a construção da velha estação. E pensou que aquilo era seu lar, embora não tivesse mais lar, ou pelo menos sentia que o conceito de lar não existia realmente, e realmente não sentia naquilo seu lar. Uma lágrima então escorreu pelo se único olho ainda remanescente da guerra, e colocou a mão em cima da cicratiz que havia rendido sua condecoração afinal. Entrou num transe meditativo só conseguido com muito esforço por ioguis com experiência. Ele não precisava desse treinamento, a guerra havia limpado seu cérebro de todo o mal. O sofrimento gera exaustão e a exaustão gera plenitude, coisas paradoxais e inexplicáveis de nossa mente.

O tempo era como um coração, e batia calmamente, sem pressa, lentamente, como que não pudesse ser mais gasto. De repente viu parada ao longe, do outro lado da estação uma menina. Era sua filha. Não estava realmente tão longe assim, mas às suas vistas parecia que estava bem do outro lado. A menina estava sentada num canto perto de um baleiro antigo repleto de balas a um vintém cada. Estendia a mão e de vez em quando recebia uma moedinha das pequenas. Era uma menina linda, de olhos atentos, cabelo louro e liso e sujo de poeira. Ela não o virá até então. Mas algo no universo a fez girar a cabeça em sua direção e seus olhos foram de encontro ao dele. O coração do homem disparou, e isso o fez lembrar o último bombardeio em que escondido debaixo de um dólmen conseguira agarrar sua vida. Pensou como pode ser engraçado a felicidade fazer bater um coração tão fortemente como a tristeza. Intuiu então o quão ignorante era o seu coração. Pelo menos o dele.

Pois que seu coração dobrou os batimentos quando conseguiu enxergar que a menina havia se levantado, e o olhava com desconfiança e dúvida. Essa dúvida que restou por apenas um breve minuto pareceu ser uma eternidade. Mas depois deste tempo, breve e simples, ela voltou a sentar-se no chão frio e a pedir vinténs aos passantes.

Ele então entrou no bar, fez como que fosse pedir algo, mas lembrou-se... Saiu então aflito, e rodou pelo diâmetro curto em que se encontrava umas cem vezes, pasmo, e sem saber o que fazer, até que num determinado momento percebeu que era um major condecorado, e se isso  podia ser vergonhoso para ele, também lhe colocava numa posição de comando maior que qualquer remédio para dor de cabeça existente no mercado.

Deu um passo em direção à menina e parou. Deu outro passo, e sistematicamente foi aumentando os passos em direção a ela. Seu andar possuía o cacoete das marchas beligerantes.Chegou há um metro dela e não soube o que falar. Tanto que apenas ocorreu tirar um vintém do bolso e atira-lo delicadamente no chapéu exposto ao chão. Titubeou, deu de costas, virou-se de novo. Seu cérebro não funcionava direito. Sua língua estava seca e incapaz de ajudar a  proferir qualquer som inteligível. Então gemeu. Há muito não gemia, desde a bala que havia perfurado seu ombro durante um ataque inimigo. Não conseguiu reconhecer a alma deste gemido, se era de amor, de saudades, ou de bala de revólver.

Foi então que a menina falou: - Oi pai... - E pôde apenas dizer  o que lhe ocorreu na hora, sem moral, sem amor, sem absolutamente nada além do que havia aprendido em quatro anos de batalha contra os "filhos da puta" dos nazistas.

- Ethel...vamos tomar um uísque no bar? Faz tanto tempo que não te dou um refrigerante... sei que uísque é muito para uma menina de... (não conseguia lembra o número de sua tenra idade) ... mas eu pelo menos preciso de um. - A menina foi se levantando contra a parede, cansada e debilitada: - Tudo bem pai, uísque é o que eu tenho tomado mesmo.

Entraram no bar, que estava cheio, mas não lotado. Sentaram-se no balcão e ele pediu dois uísques. O barman pediu a carteira de identidade da menina, embora já a conhecesse da dureza da vida dos que frequentam a estação sem embarcar. Ao olhar o homem que a seguia fingiu não conhecê-la. Mas impediu-a de beber uísque. O pai então disse que ela estava acompanhada, que ele era seu pai, e major do exército, e que apenas a ele cabia a sua educação, e que portanto enchesse um copo de uísque sem gelo para ela e um para ele, e rápido! Foi plenamente atendido.

A menina perguntou-lhe o porquê do olho vazado, e o encheu de perguntas sobre a guerra, sobre sua vida, etc. Ele não pôde, se bem que tentasse, respondê-la. A única coisa que saiu de sua boca foi esta frase: "A vida muda a cada três meses."

Os dois beberam vários copos e quando sentiram que não podiam mais  dirigiram-se ao local onde ela costumava "trabalhar" como pedinte. Quando lá chegaram não havia mais ninguém na estação. A noite caíra no mundo como a bebída em suas cabeças. 

Sentaram-se então no chão, encostados na parede de tijolinhos, parecidos com os que foram usados para queimar judeus nos campos. Só que agora eram tijolos britânicos, e o cheiro da relva não continha mais o ocre do sangue semi-coagulado. Ele perguntou a ela por onde andava Brownie, seu antigo cachorro de estimação. Ela respondeu que ele estava velho porém vivo e ainda rosnando à toa. Então os dois finalmente se abraçaram e dormiram. Foi só então que a guerra acabou.



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