quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sonho

O salão estava cheio. Não era uma multidão, mas a música tomava todas as dores e as transformava em mate leão. Ele tomava seu mate apoiando um cotovelo sobre uma das mesinhas. O ar-condicionado não funcionava e a chuva trazia calor e umidade da rua.

A música era ótima sempre, e os músicos pessoas maravilhosas, mas quando a menina foi chamada ao palco... ninguém conseguiu palavras para descrever a sua beleza. Se ela valesse alguma coisa não seria tão linda assim, sendo tão linda assim... pensou alguém.

E no segundo anterior, quando ela pegou o microfone e começou a cantar, o tempo parou. E as pessoas a olhavam e era o mundo todo a olhar. E quando as guitarras soaram por trás dela, e sua voz ampliou o ar, as vidas fizeram sentido, finalmente a voar.

E ele olhando aquilo tudo, não tirava os olhos dela, e em seus devaneios imaginou como seria se de repente ela levantasse, saísse cama e graciosamente do palco, ainda solfejando seu último canto, e dirigisse seus pezinhos delicados de valsa na direção dele. E chegasse a ele, e sem a menor indecisão, mas com calma, muita calma, aos olhos atentos, ela o beijasse com ternura - os lábios seus e dele, voluptuosos, num tesão angelical e quase puro.

E ele então acordou de sua mente boba e pensou na bobagem que sonhava e viu que isso seria realmente lindo, mas que obviamente impossível. E se afundou no mate, enquanto a música dos anjos fluía como um vento bom dos lábios da musa maravilhosa e impossivelmente branca - véu de cristal.

Então, de repente ela se levantou. E saiu tão calmamente do palco que ninguém quase percebeu - olhos grudados e atentos. E fez a pequena curva no salão, circundando o público e a própria música que ela levava, e andando como se levitasse sem descolar de seu chão, seguiu na direção dele, que já de queixo caído, restava no próprio mate leão.

E parando, se inclinou para a frente e em direção da face dele, e ele pensou: "Não é possível, vai acontecer?". E de repente, não mais que de repente tacou-lhe uma bofetada na cara que o marcou até o final de semana.




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