terça-feira, 18 de dezembro de 2012

And The Wind Cries Mary

Entro num bar de estrada, todo de madeira, balcão antigo encostado no fim. No fim tudo é antigo nessa vida. O pianista, negro, de barbas brancas repletas de perdão, toca uma linda música. "The Way You Look Tonight", de Jerome Kern, um gênio. Uma linda mulher canta como uma fada. Loura, magnífica, olhos azuis, mas o que eu escuto mesmo, dentro dos meus ouvidos, é a Ella Fitzgerald - feia e maravilhosa. Pelos cantos pessoas cumprem suas funções, desapercebidas do todo e da música. 

Entra um vento como a me seguir. Somos sempre seguidos pelo vento. Essa é a impressão que há, porém o que acontece é o contrário: ou somos levados ou atraídos. Vento. Amálgama invisível. O sólido mais  microscópico que há, impossível de ver, mas que nos provoca visões deslumbrantes. O cabelo da loura se enrosca no tempo, e vadia pelos meus olhos como um cisco bom, que não dói. A água brota, mas o vento a leva. Tomo um uísque com gelo. Gelo é vento. Se destrói em segundos arrastado pelo clima, e clima é vento. Vento nos condiciona a ser, ou não ser. Vento é Shakespeare, ou o contrário.

Naus em calmaria de dias esperavam o tenebroso vento que as finalmente jogaria aos recifes. Vozes de mulheres atraíam os homens para o fundo do mar - era o vento que uivava carinhos tão usados por Dorival. Lá vem o vento... uuuuuuuuuuuu! A loura me olha, e em seu olhar há o canto das sereias, e na cor de seus olhos há a mentira inventada pelo vento, a frieza congelante e nórdica. In-ventada pelo vento. O vento é um mentiroso. Nos tira e nos recoloca. Nos levanta e nos desaba. Nos engana fazendo acreditar que é respirável. Responda-me Himalaia: foi o vento que te doeu? Foi o vento que te cobriu com luz branca e  cegante? Foi o vento que te destruiu quando possuías o dobro da altura, e Deus podia fazê-lo de escada? Foi o vento que levou Deus embora? Foi ELE???

Vento que reluz o mar nas noites de luar fazendo da lua apenas um poste, onde um palhaço chora suas canções levadas pelo vento. De tanto chorar Pessoa virou mar? E Darwin? Foi o vento que o guiou em seus caminhos certeiros? O vento agora sopra uma outra música pelas frestas abertas do piano de parede do negro plácido. "The Wind Cries Mary"! E eu pergunto: Será que Mary existe? Será que alguma Mary existe? Será que ALGUMA existe neste vento que nos insiste em provocar? Em nos enganar? Será que nos engana ou apenas ri de nossos sonhos de vento? Será que Mary existiu?

Olho. A loura não está mais lá. Nem o negro de barba de nuvens está. Nem ninguém. Nem o uísque, nem o barman, nem o lugar, nem a luz dos candelabros que dançavam valsas pelo ar, nem as idiotices, nem as parcimônias, nem os fantasmas do lugar, nem a mesa de sinuca velha e puída, nem as palavras, nem os olhares, nem os bêbados, nem o amor. Hei, vento! E o amor......cadê o amor??? Vento.......




3 comentários:

Anna Jô disse...

Coisa mais linda, Meu D'us!
Bjs, Mr. Alan Sommer. Gênio.

Kasô disse...

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Kasô disse...

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