sábado, 13 de outubro de 2012

Mariposa

Um bar sujo de rock and roll de uma rua de Arkansas. Ele chega com a menina. Os dois muito bem vestidos no meio da corja bêbada e casual. Ela a coisa mais linda do mundo, ele a coisa mais corajosa e fraca do planeta. Não conseguem fazer com que dezenas de olhares os persiga; que bom para eles.

- Pode me dar um uísque com gelo, por favor?
- Amore, pede pra caprichar?
- Pode dar aquele capricho, amigo?
- .....
- Amigão, veio menos do que o primeiro que pedimos... Pode dar uma choradinha maior, por favor?
- Não dá. É só você pedir outro depois, que eu me empenho mais.
- Olha, não é pra mim, é pra menina aqui.
- Aí freguês,  uísque é coisa pra homem. Você tá com uma GATA e vai beber o quê, cumpadi?
- .......................
- Eu bebo ela.

Saíram pelas ruas de Hollywood. Ele segurando a onda dela pelos braços. Ela bêbada que nem um canudo de papel, daqueles antigos, que não serviam para nada. E ela não servia mesmo pra nada, ele sabia. Mas bebia assim mesmo. Foram cruzar a rua movimentada de sábado à noite. Ela o puxou pelo braço:

- Pera aí gata, ainda não dá....!
- .....

Foram atropelados por um caminhão de bebidas, que não deu confiança, ou nem viu.

- Amor quero fazer sacanagem só com você.
- Eu sei, mas...onde estamos?
- O que importa? Me fode agora em algum canto...?
- Parece um show do Greatful Dead, acho que conheço essa música....
- Amor foda-se, me bebe, vai, me bebe. Bebe o seu licorzinho de morango, vai?
- Pera aí amor... acho que to vendo uma luz.... ( E foi em frente.)

A menina já estava fora do alcance. Talvez nem existisse mais. Sabe-se lá pra que dimensão teria ido. Mas isso não passava pela sua cabeça enorme. Cada vez maior em função da conjunção de poeira cósmica e raios gama vindos do além, ele era o planeta Terra, e sua órbita sempre faceava o imenso sol, e sua luz fulgurante e morosamente escandalosa.

Viveu rodando assim numa infinidade, até que enfim percebeu que não era um planeta. Era apenas uma mariposa em volta da luz de um lampião preso a um poste localizado no meio de um campo de algodão, ou milho, não dava pra saber bem, e que era noite e que um corvo ocupava o cume deste poste e o cercava com olhos de cobiça à sua órbita solar.

- Você que ter algo comigo?
- Não sei...você é meio grande pra mim... que "tipo" de algo.
- Algo saboroso, só nosso, onde você fará parte de mim e do que eu sou, com certeza....
- Ummmm, não sei se quero fazer parte de um corvo gigante.
- Não sou gigante, amigo, sou apenas bem maior que você, mas a guerra, esta sim é gigante.
- De que guerra você está falando, corvo?
- Da guerra que existe dentro de nós, e que sem ela é impossível viver. É a razão do mundo, da vida, e a existência depende dela, e por isso nos encontramos aqui, por acaso, no fogo cruzado. Sem essa guerra não existiria capitalismo, nem "outroísmo", e talvez eu tenha me apaixonado por você à primeira vista, vem cá...!
- Ei! Tira esse bico daí, seu carnívoro!!!!
- *(&¨(*%&¨%%&¨$$%*
- ......

Enfim a mariposa conseguiu se refugiar dentro do farol que continha a lâmpada e sua luz era alimentada de forma arcaica, óleo de baleia, algo assim.

- Graças ao bom Deus, me livrei de mais outra morte. E essa luz, Luz divina, é inacreditável, estou no êxtase, no paraíso das mariposas! Iluminado pela chama do Universo.
- Mas, putz grila, que cheiro horrível aqui dentro. Não consigo nem respirar. E que calor do caralho! E quantos restos secos de borboletas e mariposas e outros seres como eu! É pra ser assim mesmo? Não vou aguentar um minuto aqui dentro. 

E iniciou uma tentativa que parecia querer trespassar a qualquer custo o vidro que o rodeava. Já não aguentava mais, e a morte assim lhe chegaria, quando de repente o vidro explodiu. Zonzo, se viu livre daquilo e no meio do maior fogo cruzado que jamais vira.

Bombas explodiam e arremessavam pedaços de terra e grama aos seus ares, fumaça, muita fumaça, fogo, e homens correndo. Fardados de cinza, corriam e depois de um tempo gritavam: "Debandar!!! Debandar!!!".
Como mariposa que era não percebeu que se encontrava no meio de uma batalha entre os Yanquees e os Confederados, durante a guerra civil americana. Porém pelo seu tamanho e fragilidade, as bombas passavam sem o atingir, os cavalos em carreira, não o faziam mal, e por fim quando a carnificina acabou chegou-se a um dos cadáveres estendidos ao solo e leu em seu uniforme, e viu o símbolo confederado. Mas como seu passado fora humano, não pode deixar de perceber um relógio digital no pulso do corpo, nem a data registrada na foto que caía do bolso do soldado derramado. E nessa foto continha a data de 2016 e a foto de uma linda mulher. E pensou: 

- Puta que pariu! Mas essa guerra não foi em 1860 e poucos, por aí? E essa mulher? Parece a Fernanda, minha ex que não sabia atravessar a rua! 

E seu pensamento foi por um momento este:

- Puta, vadia, me traiu com um soldado bucólico do Arkansas!!!!

Quando viu melhor o soldado nada mais era do que o barman que lhes roubou no uísque.

- Bom... morreu... 
 - coitado...   
- Antes ele do que eu!








Um comentário:

Anônimo disse...

Bom.