segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Carnaval

Penso o carnaval como meu pai contava quando eu era criança. Um carnaval de bafo do onça, um carnaval apocalíptico de glórias e majestades momas. Um carnaval com menos estrelas de TV e menos camarotes televisivos. É um carnaval de orgias e tempestades de chuvas de verão. Onde pessoas escorregam nas outras, e almas escorrem em almas. Imagino aquele imenso bloco servindo, cultuando a música como se Deus fosse feito de som. E ao longe, vejo a guerra chegando, atravessando a cidade, a rua, com o oxigênio convertido em confetes, e serpentinas sendo desperdiçadas como bombas de amores vãos, e bebidas sendo atiradas para cima numa ode bacanal. E antigas marchinhas sendo cantadas como hinos nacionais. E arlequins a beijar as mãos de donzelas mentirosamente virgens, que os aceitam em troca de seus corações despedaçados de papel crepom. E no fim da rua, as marchas seguindo, deliciosamente tocando sentimentos de cristal e papel, e policiais e lixeiros confraternizando com bandidos redimidos uma vez por ano. Vejo pianistas nas janelas, e prédios inteiros se transbordarem em tiras de papel branco, a iluminar o caminho por onde o samba precisa tropeçar sem nunca cair ou atravessar. Vejo mulatas de bundas  refletindo a multidão. Sem câmeras de televisão italianas a provar que o Brasil é um país-bordel, embora seja. E a música é boa! A música é a rainha de tudo, o incentivo à rebeldia, nunca à idiotice geral. E dentro do meu devaneio enxergo a cidade por trás de uma bruma alucinante, onde mendigos usam fraques e putas usam vestidos de noiva, e bolas de futebol são balões cuspidos pelas multidões, e que mesmo sem espaço algum, é possível entrar e ser roubado por algum batedor de carteiras vestido de listras amarelas e pandeiro na mão. E no meio desta geringonça caótica e ordenadamente desgovernada,  inventada pela normalidade social, em busca de lança-perfume, resta numa sarjeta um arlequim que chora o coração de uma colombina. E sem ganhar a atenção de ninguém, a tristeza passa apontando dedos para cima, alternadamente, seguindo a cadência sincopada da síncope musical de uma marcha-rancho deslumbrante composta por algum grande músico, que vai morrer na miséria apesar de sua fortuna. E de repente toda cidade se derrete num rabisco humano, coberta de folia e invenção, ela vira pó de circo, e colorida pela mágica ébria, se desnorteia até encontrar um fim nas retas paralelas do paraíso, e nunca numa apoteose inventada. Pois como já dizia Galileu: "Não existe apoteose no samba, pois o carnaval tem que passar...passar...e passar.


( Imagem pertencente ao blog: luradaquimera.blogspot.com )

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