sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tempo e Sonho IV

O menino, como eu ia dizendo, não possuía meios de bancar seu tratamento. Um dia, me chegou com uma nota de cem na mão dizendo que gostaria de pelo menos pagar por alguma coisa, com tudo que tinha no momento. Claro que declinei. Primeiro que uma nota de cem não ia fazer diferença no meu orçamento caríssimo, de psiquiatra renomado, figurão, comedor de belas mulheres e caviar iraniano. Segundo, que não queria tirar o dinheirinho do pobre garoto, que ainda, pensava eu, era virgem e devia precisar do dinheiro para sei lá o quê. Mas obviamente perguntei a ele como havia conseguido cem reais de um dia para o outro. Considero essa uma pergunta importante, e um tanto curiosa para um psiquiatra no trato de um adolescente, visto que esse mundo está louco, e me interessa o seu comportamento. O menino então me respondeu sem pestanejar. Disse ele: "Sou cambista de banco."

Cambista de banco... pensava eu... Que diabos é um cambista de banco? Foi o que lhe perguntei, e ele logo respondeu, sem sorrir. "Eu chego no Banco do Brasil, peço à moça da entrada umas 20 senhas de atendimento no caixa. Ela já sabe do esquema. Eu dou a ela um troco depois. Aí, eu vou lá pra dentro, espero passar um tempo pra que as senhas já estejam quase na hora de serem chamadas, e monto minha "banquinha" num canto do banco. Muita gente até já sabe. Vendo cada senha por uns 5 reais para quem não tem saco de esperar na fila. Para quem está com muita pressa vendo até por 10 reais. É claro que o banco tem que estar bem cheio para que meu comércio funcione. E já fui expulso de algumas agências, e até banido, jurado de morte pelos seguranças etc. O senhor sabe quantos Bancos do Brasil existem na cidade?"




Pasmem. O moleque era um gênio. E bem naquele momento percorreu-me uma alegria que seguiu-se a um arrepio na espinha e um ventinho bobo no ouvido. Era o meu amigo ancião e barbudo, vulgo Sigmund, para os íntimos como eu, que aparecera para me dizer algo. Pedi um momento ao menino e fui à cozinha, pois é o que eu faço quando vejo Sigmund, geralmente, e estou em meu apartamento. Me pediu uma pêra, o Sigmund. Não entendi nada. Disse-me apenas que se a pêra tivesse sido a fruta proibida, a história de Deus teria sido diferente. Não entendi mesmo. Riu, uma risada cocainômana, e sumiu como nuvem.

Voltei para o sala onde atendia meu jovem paciente. Mal sentei em minha confortável poltrona de couro de bizão norte-americano, o menino começou a me revelar como havia perdido a virgindade naquele mesmo dia, de manhã. Naquele momento notei um certo constrangimento normal do garoto. E pensei como a sexualidade é realmente a coisa mais importante no ser humano, depois do dinheiro, é claro. Pois quem não tem dinheiro não pode ter nem sexualidade. E entendi o pensamento de Sigmundo sobre a maçã sendo substituída pela pêra. A pêra tem a ponta que a maçã não tem. E tudo que tem ponta é sexual. Uma bola perfeita serve apenas para se jogar futebol. Até os seios femininos necessitam de ponta. A ponta é símbolo da vida e da procriação, seja ela uma ponta passiva ou ativa, no caso, fálica. A ponta é o conflito do círculo, e... algo que eu ia dizer e realmente acabei de esquecer, uma pena...

Mas voltando ao meu jovem paciente, é incrível como um menino com tamanha cara-de-pau, capaz de comercializar senhas dentro de um banco, pode sentir mais vergonha ao comer uma mulher pela primeira vez. Claro que isso se deve à figura materna. O mundo é um círculo, assim como é  a vida. A mãe é a ponta da pêra, é o que diferencia as pessoas umas das outras. Talvez por isso se use tanto a expressão "É a mãe! Mas chega de pensamentos parasitas. O menino interrompeu meu fluxo cerebral e começou a contar rapidamente a sua história - como forma de vencer a própria vingança de ter comido uma mulher pela primeira vez (É a mãe!). Mas achei interessante a história, porque começou a me contar onde foi, como foi que descobriu o lugar, quem o indicou, e que havia ido sozinho embora sua mãe tivesse alguma vez o alertado sobre o perigo de ser sequestrado e vendido como escravo branco em países da África (por que será que só as mães falam dessas coisas nestes momentos?). Bom, o menino chegou no puteiro, que era de quinta... Tocou a campainha, e foi logo atendido por uma mulher gorda com uma verruga no queixo e óculos de Woody Allen (ele de novo.. pensei eu). O menino ficou à espera da puta se refrescar e se aprontar. Quando entrou na cabine foi como se tivesse entrado numa câmara de gás. Seu coração, ainda coraçãozinho, pulava em vez de bater. A puta não era nem bonita nem  feia, mas era fácil (coisa que logo no ínicio dos Tempos o Homem aprende a dar valor). Tiraram a roupa burocraticamente. Quando a puta deitou na esteira, fez assim com os braços na direção do menino e disse: "Vem, amorzinho." (Silêncio) O menino então respondeu de forma incrível e sucinta: "E os prolegômenos?" Nesta exata hora Sigmundo apareceu do meu lado e disse: "É gênio! mas não adianta tratá-lo, amigo, não tem cura, ele será advogado..."



De repente tudo sumiu, e a única coisa que eu via na minha frente era um cinzeiro de cristal, limpo, com um caroço de noz moscada dentro. Cortei-o com uma faca em partes, para facilitar a digestão e as engoli. Me vi de repente apaixonado por Gerúndia.

Gerúndia, era a velha que eu tratava. Minha paciente. E o amor que eu sentia por Gerúndia engolia elefantes. E de repente vi um imenso prédio, de mais de 30 andares. E eu sabia que Gerúndia se encontrava no décimo quinto andar. E eu, papai noel (estava vestido como), possuía  a missão de subir e entrar pela janela de Gerúndia levando na boca uma rosa e nas costas um saco cheio de sonhos. Este saco pesava muito, mas eu subia mesmo assim. Com minha avançada idade de uns 300 anos, e uma barba branca que às vezes agarrava em minhas botas de inverno, eu subia, e subia, e quase chegava no décimo quinto andar. E quando felizmente atingi o andar que me esperava, e botei as mãos na janela aberta, eis que a parte de cima cai em meus dedos, e com imensa dor me despenco de lá de cima do décimo quinto andar, com uma flor na boca e um saco de sonhos nas costas. Demoro um minuto apenas para atingir o chão, mas ao invés de atingi-lo, atinjo uma velha que carregava um guarda-chuva de florzinhas roxas. Esta velha era Gerúndia! Não sobreviveu ao choque, mas salvou minha vida, e assim eu pensei, por um momento que me salvara por amor, e não acidente. Mas não seria o amor uim acidente, de qualquer forma?

De qualquer forma, entrei em coma. Fiquei  em estado catatônico por 10 dias sem poder atender meus pacientes. E nenhum deles apareceu para se consultar. Quando passou o efeito de meu coma, levantei e fui para  a cozinha. Havia me dado vontade de comer um pão com manteiga e caviar. Lá estava Sigmund...

(continua...)

3 comentários:

Patresio Camilo disse...

"É gênio, mas não adianta tratá-lo, amigo, ele será advogado..."
Seria parte da minha biografia??

E o caviar iraniano?
Fantástico!

Anna Jô disse...

Parabéns pela narrativa.

Carol Sandov disse...

Muito bom! Continua...