quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Lady Liuwa

Assisti a um lindo programa do National Geographic na TV: a  história de uma leoa solitária. Chamada carinhosamente pela equipe de  Lady Liuwa . Este animal selvagem revelou o lado dócil que apenas emerge da solidão.

Nas planícies de Serra Leoa, na África, onde as estações do ano são dinâmicas e difíceis,  Lady Liuwa  se tornou conhecida pelos poucos habitantes humanos, como a última da espécie existente no lugar. E ficou famosa por vagar solitária em busca da sobrevivência e de um companheiro de sua espécie. Nas batalhas contra as ienas, que roubavam suas presas já capturadas, comumente; nas batalhas contra os homens, caçadores de troféus, e caçadores de outros homens também; em lutas políticas, revoluções, etc.  Lady Liuwa  era a mais famosa sobrevivente de uma guerra de outros, e que dizimou a maioria da vida animal selvagem daquele país.

Logo que a equipe de um fotógrafo chegou ao local, deu de cara com o que procurava: ela. E sendo assim a equipe, sem interferir no padrão natural de sua vida, seu comportamento, seus reveses e sorte, seguia  Lady Liuwa  de longe. A equipe esperava uma reação negativa do animal à presença do homem por perto, devido ao trauma sofrido por tamanho genocídio e violência aos animais de todas as espécies do local, cometido pelo homem.

Porém depois de algum tempo algo incrível se deu.  Lady Liuwa  passou a aceitar a presença desta equipe humana, especialmente a do fotógrafo. E o sinal evidente disto era que  Lady Liuwa  passou a caminhar ao lado do carro da equipe, e não raro, rolava pelo chão demonstrando afeto, numa tentativa canina de chamar a atenção, uma aproximação até. Mas quem é louco de se aproximar de um predador selvagem com até 3 metros de comprimento e dentes de 20 centímetros?


(Foto de Lady Leoa, tirada do site do Net Geo)


Um dia o fotógrafo, andando sozinho pela planície à noitinha, avistou Lady Liuwa, que nada fez. Não reagiu, não rosnou, não demonstrou nada além de um afeto longínquo, cauteloso, felino. Em seus olhos de tristeza o fotógrafo percebeu que havia uma conexão entre os dois. E na volta,  Lady Liuwa  o seguiu, e a partir de então passou a dormir junto ao acampamento.

Eu, tão acostumado a ver programas violentos, quanto em relação a animais, pela TV, fiquei tocado com este em especial. E nas tomadas de close de  Lady Liuwa , eu via em seu olhar, em sua postura, o seu lado humano, impossível de se notar quando um animal deste se encontra em grupo. E me dei conta de uma coisa que já havia percebido há muito: a solidão é um sentimento que humaniza, porque talvez seja ela a semente de um outro sentimento, dito apenas humano, mas que para mim pertence a qualquer indivíduo, de qualquer espécie: o amor.

Só sente amor quem tem a medida da solidão. Ok... Vão me achar contraditório, obtuso até. Não me importo. Não estou aqui fazendo apologia da dor, ou do sofrimento como redenção. Isso eu deixo para a Igreja Católica e demais similares. Estou apenas dizendo que nos olhos de  Lady Liuwa , havia inexoravelmente algo de humano, uma percepção do indivíduo que ela só conseguira ao ter todos os outros de sua espécie desaparecidos. Um caminhar decisivo na hora da busca predatória, porém a tristeza escapada da alma, derramada pelas suas pupilas leoninas ao sentar para devorar solitariamente sua presa. Uma aceitação de sua "sorte" quando, cercada por ienas, era obrigada a  largar sua presa e, diplomaticamente, entregá-la aos outros, sem lutar.

Sim, quando um animal é capaz de calcular suas chances, e de fazer uma escolha diplomática, é porque pensa como humano. Afinal,  nada é diplomático por instinto.  Lady Liuwa , é uma leoa que rolava no chão, à procura de um amigo humano, na falta de um de sua espécie. Estamos falando de um "leão", e não de um gatinho na rua!

No fim do programa a equipe consegue levar para perto de  Lady Liuwa , a duras penas, dois leões machos capturados a milhas de distância, em outro território, e são bem sucedidos. Agora  Lady Liuwa  possui dois leões machos para caçar, acompanhar, e quem sabe encher aquela planície selvagem de leõezinhos - tomara!

Neste mundo louco somos todos iguais. Humanos não são melhores que bichos. Todos sofremos traumas, todos estamos suscetíveis às intempéries da vida, ou proveniente dos outros, que podem nos fazer mal. Todos damos um passo na direção da evolução, muito mais de acordo com nossas necessidades do que facilidades. E nesta vida é muito importante saber identificar o que você é, e isso sempre remete à origem de cada um. O que se perde depois é apenas obstáculo, por mais que possa significar muito, em algumas situações, para cada um de nós.

Ver aquela leoa caminhando sozinha, subsistindo sozinha, existindo sozinha, me lembrou da dor de ser só, e da felicidade de muitas vezes não ser . Me avisou que o antídoto à solidão é o amor, e que talvez sejam tecidos da mesma matéria, do mesmo fio que nos compõe a única "coisa" humana que há, e que encontrei em  Lady Liuwa.  Um animal que "virou" gente.

E quantos homens utilizam a dor como culpada pela sua embriaguez... É vero que pode ser. Mas não precisa ser. O truque é utilizar a embriaguez como culpa para a dor. Transformar solidão em trabalho, trabalho em amor, e amor em vida.

4 comentários:

Sônia Arruda disse...

Lindo texto!

Anna Jô disse...

Amo vc, grande escritor. E percebo como se inspira de forma fantástica em pequenos grandes gestos. O Amor faz tudo fluir melhor, o Amor transforma, faz renascer. Mas também é algo que se faz por merecer.

Bjs da sua (leitora...)

Anna Jô

Nora disse...

Será que a Lady Liuwa tava afim do fotografo?!?!

Maneiro o texto :P

João Daniel Imenes disse...

interessante a análise que fizeste. gostei muito da abordagem e o final... pura beleza. lindo texto!