domingo, 25 de setembro de 2011

O Fogo de cada um de nós.

Era o ano de 896 d.c.. Quando Elmrik soube que seu castelo no sul da Escócia seria invadido por seu primo John "o feio".  Sentiu se mal,  e um frio que subiu pelas suas entranhas atingiu sua cabeça, tal o medo do inimigo. Elmrik morreu literalmente de calafrio, e deu lugar ao seu sucessor, seu filho, Aldrich.

Aldrich ficou então incumbido de guarnecer e defender o seu castelo. Um castelo de porte médio, se comparado com o de seu inimigo John. Não apenas menor, além disso mais fraco e com uma população bem mais velha e despreparada.

Seus mensageiros comunicaram Aldrich que o inimigo se encaminhava com fúria e um grandioso exército de 1000 homens armados até os dentes, com o que havia de melhor naquela época em termos de tecnologia de guerra. Porém viria sem máquinas de guerra, pois dava a vitória como certa - e esta era mesmo certa. Portanto seu inimigo vinha pronto para invadir, pilhar, estuprar e tomar. Isso fazia parte do seu plano de se tornar o primeiro Rei escocês da História.

Aldrich viu logo que não havia chances frente ao tamanho exército dotado de armas de primeira linha e quantidade, pelo menos, com o dobro de guerreiros, perversos e com sede de sangue. Aldrich era bondoso. Não se metia muito em políticas, concedia passagem livre a outros exércitos pelas suas terras, e várias vezes havia cedido servas, das mais lindas, como forma de amolecer a fome de sangue de senhores feudais vizinhos. Mas Aldrich, apesar de fraco, não era burro, e bolou uma maneira de vencer a batalha iminente.

Mandou mensageiros espiões e sabia portanto que John "o feio" demoraria uma semana para movimentar seu grandioso exército através das colinas derrapantes da Escócia. Fez assim então. Ordenou que todo o vestuário desnecessário de seu povo fosse ajuntado, e que fosse colocado em pilha do lado do portão de entrada de seu castelo. Que apesar de pequeno possuía grandes e altas muralhas construídas por seu pai depois de uma invasão quase bem sucedida de outro primo - Jerome "o idiota".

Aldrich, ao mesmo tempo ordenou que um grupo grande de mulheres fosse comprar algodão nos vilarejos próximos, e que a razão dita fosse de vestuário novo para seu povo e servos. Demorou uns três dias para que todo o algodão existente no vilarejo acabasse e fosse transportado para o castelo.

É claro que John, "o feio", também possuía seus espiões, e logo tomou conhecimento deste incrível interesse por algodão. Mas imaginando uma vitória facilmente ganha, pensou que o primo estivesse louco, e pensando em fugir com o máximo de vestuário para o forte inverno escocês. Não estava de todo errado...

Aldrich ordenou então que o algodão fosse espalhado por completo por toda a área do castelo, e de forma uniforme. Faltava apenas um dia para o grande exército se aproximar. E já dava para sentir no ar o odor de sangue e ferro que caminhava junto a  este feroz exército, dotado de armas mirabolantes, importadas até dos Francos. Armas como machados de dupla face, que como poucos sabem, foram a tecnologia que mais contribuiu para o sucesso de Charlemagne em suas campanhas pelo continente.

Como todo castelo que se preze, existe uma saída estratégica devida apenas ao rei, e sua corte, em caso de fuga necessária. Aldrich ordenou o alargamento desta saída, porém sem dar alarde. Saída esta que não leva longe, (e nem havia tempo hábil para alongá-la). Mas tornou-a providencial e perfeita para que sua população se evadisse em tempo hábil.



O dia chegou!

Quando o exército de John "o feio" avistou de longe o castelo, se alinhou de forma tenebrosa, formando uma linha que, pelo vale, parecia não ter mais fim. Eram soldados e mercenários sujos e sebentos, vestidos de um cinza cor de chumbo e escudos avermelhados do sangue de outras batalhas. As barbas mal feitas e os dentes trincados e podres produziam faísca, e seus olhos fitavam o castelo como olhos de cobras prontos para dar o grande bote.

Como John sabia que o castelo se entregaria sem muitos esforços, não se preocupou muito com o cerco, e apenas manteve seu exército pronto para arrasar. Era costume deles estuprar as mulheres , matar as crianças, e empalar os vencidos, sendo que o medo que John infligia era tanto, que nem notava o que poderia acontecer.

Aldrich se manteve fechado em seu castelo por três dias consecutivos, não aparecendo nem nas torres. Isso levava John a uma ansiedade e fome de sangue ainda maiores. John babava!

No dia do ataque, ao romper da primeira trombeta mortífera, Aldrich ordenou uma fila, e com seu povo todo já dentro do castelo, bateu em retirada, pela saída de emergência, tomando o cuidado de fazer o menor barulho possível. Nem armas de ferro levaram. Porém deixou dentro do castelo dez homens de sua confiança colocados em pontos estratégicos e dispostos a tudo.

Quando a terceira trombeta tocou todo o exército de John atacou com fúria de Rei e carniceiro. John já se esbugalhava de ódio e vontade de morte; já não enxergava mais; seu raciocínio era o de derrubar o forte portão, entrar e matar. Demorou 20 minutos para que o forte portão cedesse e fosse ao chão de uma só vez..

Quando o exército de John, "o feio", finalmente adentrou os limites de Aldrich não conseguiu deixar de se surpreender. E com felicidade, John se sentiu maravilhoso em seu ego de futuro Rei, pois o inimigo, diante de tanta fúria , nem havia oferecido resistência.

Foi naquele momento que todo o estoque de uísque envelhecido, cheio de álcool, que Aldrich estocou e distribuiu, através de seus comparsas de confiança,  pegou fogo ateado ao algodão completamente embebido com a bebida. Ao mesmo tempo o portão era fechado por poucos de seu exército que haviam dado a volta e esperavam escondidos em moitas bem sigilosas. Também o portão de saída emergencial havia sido fechado e devidamente trancado por seus servos.

E para completar, a pilha de roupas colocadas ao lado do portão, desde o começo da história, se deslocou em chamas, caindo sobre o portão de saída do castelo e vedando mais ainda a saída da frente.

Desta forma o grande exército inimigo de John, "o feio", virou torresmo ao meio de gritos de terror. Só a fumaça matou metade do montante, antes mesmo que eles pudessem tentar escalar as torres de segurança. Os poucos que conseguiram se salvar foram devidamente mortos e despedaçados pelo pequeno exército de Aldrich, que esperava do lado de fora.

E assim termina esta metáfora. Mostrando que nosso cérebro é constantemente invadido por forças provenientes da vida. Egos, ansiedades, ódios diversos, inveja e vontade de ultrapassar os outros das formas mais vulgares nos tomam no cotidiano. Somos humanos e muitas vezes possuímos vontades imperfeitas. Alguns mais, outros menos, mas a areia que nos amálgama é , com certeza, a mesma.  Forças  negativas são muitas vezes mais fortes do que nós. E há apenas uma maneira de detê-las.

Tacando fogo nos exércitos malditos de nós mesmos. Com fogo, calma, discernimento, e inteligência interior.

5 comentários:

lila disse...

MUITO BOM! ADORO VOLTAR AO PASSADO TAMBÉM...GOSTO MUITO DE TUDO QUE REFERE-SE ÀS TERRAS MÉDIAS, ETC. BJS!

Alan Sommer disse...

Obrigado!!!

Patresio Camilo disse...

Surpreendente... Fantástico...
Sublime

Alan Sommer disse...

Obrigado!!!!!!

claudia cristina tonelli disse...

Como gosto de sua produção literária! Gosto e admiro seus múltiplos talentos! :D