quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Casa de X.

E a fachada foi caiada. Toda fachada é "caiada" em algum momento. A vida é como uma casa. Possui porta, janelas, fundações. Nossos pais colocam a pedra fundamental, depois vão colocando tijolos, um a cada dia. Outros vão se juntando e contribuíndo com mais tijolos. Controi-se um piso. Que pode ser de mármore, ardósia, ou terra batida. Às vezes é de taco, que pode ser decorado ou triste. Mas o fato de ser decorado não significa felicidade. Talvez alguma alegria ao olhá-los. Não resta dúvida, mesmo assim soltam-se com o tempo, e o que há embaixo é a mesma e antiga terra de sempre.

Aos poucos a casa vai crescendo, se o sujeito tem muitas mãos que depositam os tijolinhos. Se não tem a casa fica miúda. Serve apenas para se entrar e sair. Não há espaço para divagações. Como se lhe falta-se alimentação a casa passa a ter limitações, pode não cair, mas encurta seus horizontes e não cresce. Quando a casa vai ficando grande é porque muita gente vai se metendo em sua construção. Dia vem, dia vai, há algum sujeito depositando seu tijolinho sobre a pá de cimento que vai estruturá-la para sempre. Ao estruturá-la vai prendê-la, limitá-la aos parâmetros arquitetônicos escolhidos por eles.

Toda casa é um obelisco. Toda casa é uma estátua de nossas vidas. Nossa própria escultura. E nossas vidas são casas erguidas como se pôde. Algumas têm tantos quartos e salas e janelas e banheiros e cozinhas que perde-se a noção de espaço, e perde-mo-nos  dentro delas. São divertidas para as crianças. Pode-se dormir cada dia em um quarto diferente, cada um pintado de uma cor. Mas a confusão é perigosa também. Casas podem ser labirintos de onde nunca se sai.


Às vezes a casa é mínima. Sua construção de vida apenas pôde proporcionar o básico, e muitas as vezes nem isso. Uma janela, uma cozinhazinha, um quartinho, e uma imensidão de possibilidades. Porque casas possuem estantes, e estantes são como lages. Existem lages vazias, tristes, mal-resolvidas, roubadas... e existem lages cheias, polpudas. Geralmente de livros, que sempre são tijolos, daqueles já desenhados, de concreto duro mesmo que não se desfaz com facilidade. E acabam moldando o interior da casa que é muito mais importante que o exterior, embora o exterior seja o "desenho" do quê se é.

Livros são tijolos secretos. São de vários modelos e cores e nem sempre são bons, mas geralmente são. Mostram que castelos podem ter tido uma história vazia, e que barracos muitas vezes são cheios. Mas não se enganem, barracos são sempre pobres, repletos ou não de estantes repletas também. Castelos são sempre harmoniosos, grandiosos, construídos por multidões de mãos, mãos muitas vezes desconhecidas. Mas também não se enganem, castelos podem ser vazios, e geralmente labirínticos, com saídas secretas que só quem pode se dar ao luxo de tê-las é quem necessita eventualmente fugir de sua realidade.



Mas o mais importante de tudo é a forma. Há os que podem, e contratam arquitetos, porém que garantias lhes dá a vida? Uma casa sempre acaba da maneira que não se imaginou. Sempre sobram vazamentos, telhas mal prendidas por fios de cobre frouxos. Há sempre uma privada que não era pra estar ali, e sim do outro lado do banheiro monumental. Aquele piso de mármore; descobriu-se depois que reage com a água e vai se corroendo com o tempo, embora isso não aconteça com o granito (que é diferente). Aquele piso de mármore "quase" de Carrara um dia vai produzir algum buraquinho que viram buracos, e que viram buracões. "Eu sabia que devia ter comprado uma torneira mais larga, essa é muito forte, e aliás descobri que gosto mais do prateado do que do dourado...um dia eu troco." A varanda dá pra uma vizinha muito feia e muito puta, e que atira um olhar de maldade sempre que se saí à varanda esquerda. "Como não pensamos nisso antes?" Como saber? A casa é dinãmica de fora para dentro também. Muito mais até do que de dentro para fora. E a puta da vizinha, durante a construção, aliciava os empreiteros e trabalhadores menores e acabava todo mundo indo para a polícia, depois dela tirar a roupa e acusá-los de assédio. Que resposabilidade pode ter um arquiteto, um engenheiro, quando a vida tira máscaras, sopra ventos que afrouxam fios de cobre,  e pode até destruir uma floresta maravilhosa bem do ladinho da casa, e colocar nela, bem em frente ao vidro da imensa sala, um monte de carros enfileirados e buzinando durante a  vida toda? Portanto castelos não são incólumes, nem barracos são pedestais.

E as casas que possuem corredores enormes e poucos quartos? O sujeito é criado para estar na cozinha e lembrar que precisa de um lápis para escrever a receita direito. Ele então anda quilômetros até chegar ao escritório que fica do lado de um dos dois quartos que restam. Quando chega lá ele procura e não acha o lápis no escritório, então segue a extensão deste imenso corredor até o último quarto da casa, que é onde ele põe a cabecinha no travesseiro toda a noite, e com certeza pensa antes de dormir, no que vai esquecer amanhã antes de ir ao trabalho. Por isso ele separa sempre tudinho numa valise que fica prontinha pra sair da casa bem cedinho. Mas todo dia quando ele está para bater a porta da sala, depois de andar um quilômetro de corredor, ele lembra que esqueceu o casaco na cadeira perto da cama, ou que não levou dinheiro suficiente, ou pior! Fica na dúvida se fechou mesmo a janela do quarto, o que o faz voltar corredores mais corredores de distância para no final descobrir que a janela estava realmente fechada. Agora, todo simples e corriqueiro dia de sua vida, quando ele estiver batendo a porta da frente, ele não terá como não se voltar atrás, andar pelo longuíssimo corredor apenas para constatar que o que ele buscava mesmo era algo que não existia. ("Será que eu existo?") Talvez por causa deste corredor contruído ao longo de sua vida, por inúmeras mãos zelosas, ou não, ele se deite um dia em sua cama, que fica no seu quarto de fim de corredor, e durma como quem dorme para sempre.


Mas a cidade cresce. Cresce porque mãos não cessam de colocar tijolinhos em casas próprias e alheias. E esse ciclo infinito faz com que sobre menos espaço, e em nossas vidas cada vez mais apertadas, cada vez mais truncadas e sem vista para o mar, constroem-se casas estreitas, porém com vários andares. Andares que vão subindo quanto mais você vive, pois esta é a história da argamassa e dos tijolos que fazem nossas vidas, e não a de simples casas comums, embora estas nunca sejam. Embora estas sempre sejam também as nossas vidas em algum momento. É parecido com a 'síndrome do corredor inacabável'. Só que desta vez ele segue através de escadas, para cima e para baixo, claro. Para cima e para baixo, num incessante movimentar de alma, onde no fim talvez o sujeito prefira rezar e se fincar como folha e raiz em uma cama. Se bem que uma boa vista possa ajudar. Às vezes para o bem; às vezes para o mal. Como tudo nestas vidas-casas.


Eu poderia passar minha vida inteira escrevendo sobre casas, tantos são os tipos, e tantos os resultados obtidos por mãos furtivas que roubam um tijolinho, e outras tão trabalhadoras que prezam tanto a ação e pouco o local onde a parede deve ser erguida. E paredes são realmente as aprisionadoras ou libertadoras de uma casa. Às vezes é melhor destruí-las, ampliar seus horizontes, poder andar de bicicleta pela sala, quarto e cozinha sem bater em nada. Porém, com certeza faltará lugar para se colocar livros. Porque a casa é sempre uma opção entre a liberdade e o emparedamento. Paredes são neurotransmissores abertos ou fechados. Por isso portas, na verdade só servem para enganar, já que são paredes de mentira. Mas até certo ponto, porque também são paredes que se abrem, e uma parede que se abre pode ser tudo na vida de alguém, ou melhor, na casa de alguém.

O fato e motivo importante mesmo deste texto eu espero chegar agora, porque senão sinto que terminarei em arranha-céus, e se isto acontecer terei escrito um romance. E como não desejo cansar ninguém devo ir direto ao ponto.

Nossas casas são indestrutíveis. Talvez não... mas com certeza inalugáveis. É imposivel se livrar dos seus próprios tijolos, que são pele. É possível derrubar suas paredes mais interiores, porém alguma restará! Pois somos o que há, e se nada mais há , foi por acidente, doença, ou vontade própria - o que é a pior coisa que se pode desejar para uma casa. Pois toda casa tem solução. Seja numa encosta de morro, seja num abismo se fundo, seja numa fazendinha no interior cercado de 'nada', seja embaralhada e espremida numa outra parede da cidade. Enquanto houver Terra embaixo existe a esperança em cima.

E assim como eu, que tive minha casa contruída de forma irregular, assim se sucedeu com a maioria das pessoas deste mundo. Mas depois da casa construída passamos a eternidade a tapar buracos. E existe a casa de X.


X é uma pessoa cuja casa foi muito bem construída, tijolinho por tijolinho, numa cidade com espaço para casas de qualidade. X teve problemas, é verdade, alguns tijolos não foram bem colocados. Mas quem é que não teve este tipo de problema?! Mas por algum capricho da vida bateu um vento, desses com carinha escura e sorrisinho de mau, que arremessou pedras nos entornos da casa de X, deixando-a coberta de marcas de buraco, e que também acabou influenciando a ordem interna de sua casa, muito bem servida de estantes e livros. Valendo lembrar que livros e muitas estantes nem sempre (e na maioria das vezes) são sinônimos de labirintos e só. Esta tempestade derrubou muitos livros, e estantes repletas, pesadas, construídas direto nos tijolos, e embutidas nas paredes. Paredes caíram, e ainda vão cair dentro desta casinha tão frágil, feita de delicadeza e visão.

Ao mesmo tempo que dói ver uma parede desabar dentro da sala, há que se sentir um certo conforto espacial inegável. Mas como a casa da gente é sempre a casa da gente, ou a gente num  arroubo de ousadia pinta as paredes de azul, ou simplesmente as cobre novamente de cal, tapando os buracos que sempre vão existir, apesar da cobertura. É decisão da gente o que fazemos de nossa casa-vida. Pois nem o sujeito dono de um corredor imenso está completamente entregue a ele. Transforme-o em tela de pintura! Em galeria de arte! Em estantes!!!! Não se deixe vencer por um corredor construído por mãos antigas e ignorantes, mal-intencionadas ou desastradas! Há sempre uma parede para se pintar de amarelo! Há sempre um chão de terra batida que pode ser coberto com carrara, mesmo que da 'vagabunda'!

É pena, que muitas vezes, na maioria das vezes... diz-se apenas: "As fachadas foram caiadas"...

7 comentários:

Alan Sommer disse...

Obrigado! :)

lila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ECOS D'ALMA disse...

Estou encantada com seu blog!
Escreves como quem pode tocar nas estrelas!

Beijos poéticos na alma!

Letícia disse...

Minhas lembranças ainda transitam em muitos desses corredores. É bom ser parte da sua história e de um tanto d seu presente. Bjs........

Alan Sommer disse...

Não posso tocar estrelas, mas elas me tocam. :)

Alan Sommer disse...

Beijos Leticinha fulustreka. Corredores são chatos. Bom é a transitar ao ar livre. :)