sábado, 14 de janeiro de 2017

Três Contos Cariocas - I


Ele se chamava João e dirigia um táxi há alguns meses. Era um ser sozinho, não tinha mulher nem filhos, nem família. Tinha a si mesmo e só.  Ralava duro e se sentia uma pessoa muito solitária! A vida de taxista não era fácil. Um economista amigo disse uma vez que mede-se o PIB de uma nação pela quantidade de taxistas nas ruas. Tem a ver... Mas voltando ao João. Ele pegava às 7 da matina e ia até às 10 da noite. Às vezes ainda pegava um gringo na madruga, ou uma piranha, um travesti... Dizia pra si mesmo: é a vida. Cliente não tem sexo e eu não tenho opinião. Quem há de dizer que ele não estava certo? Sobreviver no Rio de Janeiro não é moleza não!

Um belo dia, circulando por copacabana, um senhor idoso fez sinal e ele atendeu. O dia tava fraco, 5 horas rodando e nada... qualquer voltinha ao quarteirão só pra ajudar a pagar a diária e o gás  tava valendo. O senhor entrou, deu boa tarde, muito distinto e educado falou: - Hoje é seu dia de sorte, rapaz! Me leva pra São Paulo.

Ele quis perguntar, acabou não perguntando... e o senhor: - Sim, pode ser pelo taxímetro, sem problemas. Um sorriso de espanto brotou no rosto do João. Desconfiado, ele perguntou: - E a volta? O senhor vai pagar a volta? - recebeu a curta mas simpática resposta: - Óbvio.  E assim foram.

São 400 km só de ida. Ia dar uma fortuna! Que felicidade para João. João nem podia acreditar e até já passara pela cabeça a ideia de poder ser um assalto de meio de estrada. Mas os quilômetros foram passando e já na RJ/SP ele estava tranquilo. Tentou puxar uma conversa mas o homem nada falava. Só olhava a paisagem. No meio do caminho o senhor pediu para que parassem para almoçar. Pararam num daqueles postos de gasolina que tem de tudo e almoçaram juntos sem a menor conversa. O senhor pagou pelas refeições e seguiram viagem.

Quando chegou a São Paulo pediu para que o levasse ao bairro dos Jardins, onde ele prontamente recebeu o pagamento e um dinheiro extra para que se hospedasse num hotel cinco estrelas e o esperasse até o dia seguinte quando retornariam ao RJ. Comeu e bebeu de tudo no hotel. Tudo na conta do senhor desconhecido.

No dia seguinte pegaram a estrada para o RJ. E foi a mesma coisa de antes, o homem quieto, João tentando umas puxadelas de assunto, mas nada mais do que a vista pela janela. Como antes, pararam num posto, almoçaram e voltaram à estrada. Nada de palavras, nem olhares nem afinidades.

Enfim chegaram a Copacabana onde o homem iria ficar no seu destino final. João agradeceu e olhando no taxímetro viu que o valor era muito alto. Aliás, ele já sabia, vinha conferindo sempre durante a viagem.  João então olhou para trás num ímpeto de oferecer algum desconto e agradecer, e afinal receber o dinheiro. Foi quando ele viu que o homem não estava mais lá, e que em seu lugar havia uma criança.

                                                                         ***



























sábado, 3 de dezembro de 2016

A terra


Cantei o mar

O mar se vai

Cantei o tempo

O tempo esvai

Cantei o amor

O amor não há

Cantei a vida

A esperar

Cantei a terra, o meu lugar

E só a terra

Pude cantar



Se é terra que vais cantar

Esta é a terra, é o teu lugar

Se à vida a terra dá

Nunca te apagarás



E o mar se foi

Quando cantei

Tempo escorreu

Quando eu peguei

O amor morreu

E eu nem sei

Vida passou

Quando esperei

Só canto a terra, o meu lugar

E só a terra

Posso cantar







domingo, 20 de novembro de 2016

Fome

Quando  você ama, não é amor, é fome. Quando você sente saudade, não é saudade o que sente, é fome. Quando você quer ganhar dinheiro, não é dinheiro o que você deseja, é fome. Quando você quer uma companhia qualquer você quer matar sua fome. Quando você quer ser feliz, é fome o que sente. Quando você quer trepar, é fome.

Explique "fome" fisiologicamente e o que você vai conseguir é ciência, mas ciência também é fome. Explique "fome" psicologicamente e isso será fome. Porquê? Vou dizer porque. Porque tudo na vida que fazemos relacionado a algo ou alguém é a mesma coisa que abrir a geladeira pra ver se lá dentro tem algo para comer. E muitas vezes esse habito é apenas um habito sem a menor fome; porém, é fome psicológica.

A fome psicológica difere das outras fomes. Ela é a necessidade de se empanturrar do Nada. Por isso não há fome nela. Para todo o resto há fome. Mas o "nada" também é comestível.

Fome é o grande mal do mundo. A grande expiação religiosa do Homem, e o imenso castigo de Deus para com a sua criatura. A fome é abstrata. (!!!) Tão complexa e materialística, pois é a relação entre algo que come e algo que será comido. É abstratamente tocante! Não é incrível e impressionante isso? E...se você realmente está tentando entender o meu pensamento... isso é fome.

Ninguém quer amar alguém. As pessoas querem se alimentar do outro. Elas precisam de glicose na alma. Quando se come um filé no almoço busca-se a glicose no sangue, no cérebro: o que nos faz pensar. Mas quando se ama busca-se a glicose abstrata, busca-se preencher o vácuo de um caminho, de uma existência, de uma solidão. E solidão é fome.

Eu sei disso porque há muitos anos quando eu morava fora do Brasil, com 18 aninhos de idade, eu passei um mês completamente isolado, renegado, expulso por meus "amigos" por motivos que não cabem aqui neste texto, não têm importância. E durante esse período curto da minha vida eu me senti tão sozinho, que embora eu ainda me alimentasse normalmente, meu cérebro, meu corpo, minhas células sentiam a fome do existir. Ninguém existe sozinho, sem sociedade, sem o espelho nos olhos dos outros, sem aprovação, sem carinho,  atenção e sem ego. E naqueles dias de extrema solidão total eu vagava pelas ruas desencontrado, e nos descaminhos das ruas de Los Angeles eu fiz um "amigo", que me enganou fingindo querer comprar cerveja, pegou meu dinheiro, ( eu estava meio atônito, e acabei emprestando), e ele sumiu com o pouco dinheiro e eu fiquei horas esperando a cerveja sozinho num beco de LA (ainda éramos menores de idade nos EUA para beber), e ele nunca apareceu nem com meu dinheiro, nem com nossa cerveja. E eu percebi que o que nos leva a acreditar em alguém tem um nome e se chama Fome.

Como se mata essa fome? Não descobri ainda. Talvez seja o grande mistério da natureza e da sociedade, sendo que não sei qual a diferença entre ambas. Mas se eu soubesse eu lhe diria e você ia se sentir melhor, ou não. Pois que talvez a fome seja necessária para que se ande para a frente, afinal a vida é uma geladeira cheia, ou vazia, depende da época. Mas realmente não sei dizer. Escrevo agora porque sinto fome.




terça-feira, 25 de outubro de 2016

Quando...

Quando você vive um sonho,
um sonho não vive.





sábado, 8 de outubro de 2016

Vírgula

Eu sou a prova viva de que decepção não mata.

Mata não, decepção, que de viva prova, ah, sou eu!

(Como tudo na vida,
a verdadeira questão
é saber onde botar a vírgula.
E mesmo assim...
não existe perfeição!)







domingo, 4 de setembro de 2016

Menina


Tempinho...
Tem pinho?
Ela toca!

Tão menina
Aos pouquinhos
Me nina

De fininho
A moça bonita
Faz ninho
Em mim




terça-feira, 16 de agosto de 2016

An English Tale

She had the outskirts surrounding her. She had the outside men, the forehead agains the wind, the smoke, the odor and the men. She used to live in a terrible building where the inward walls were painted with the most disgusting writings, also writings of invitations from prostitutes along with the number of the apartments where they served the men. No doorman, no security cameras, no freedom at all. No bird could fly high over that factory of feelings without choking and falling to pieces.

It's funny how the lacking of cameras can mean absence of freedom. She slept on it, and she realized something must have been twisted on this very world. But she had the men, and nobody really knew those men. Like phantoms they persuaded the long corridors, they did not live, they dwelled like lost ants without a queen. But she was a queen, and this is not a slang at all.

Every morning she dressed nicely to get breakfast, even tho there was just a piece of bread for her. The nice dress her mother left her was the only legacy in a heart. And she dressed very tightly so to make sure it really touched her heart. That made her feel like her mother was somehow still there, still around.

Her mother was a strong lady. She built that building with her bare hands and some fuzzy sexual excitment. She was called "The Way". Everybody in the neiborhood  knew what that meant. She lived close to the worst train station of all, and I know - because I know all of them - that she fed herself bananas and cheap rice for long years until she could save some money and start building the future dirty walls of that creepy place. There is no man in this town that she had not slept with. Well, it surely worked. When she achieved her dream she was an accomplished dead woman - her mother, i mean. I say.

That's why her daughter became such a disturbed person. I would go furher on that and say that she was disrupted. The mind is the longest leg we all have. It can take you to the moon or it can strive against your whole body. But she never became a prostitute. She had her proud, but if you think twice pride does not mean a lot, for her mother built that dream carved on unworthy english bricks.

One day she escaleted the very top of the ten floor building. She climbed the last ladder towards the very roof where she could observe the entire neighborhood altogether. She opened her arms like a nightingale and she thought of flying. And I gotta tell you, my friends, she did fly beautifully. She could see the whole city. She felt mesmerized by the straight line streets, as well as the curves, and roofs and from the top of the world she saw no poverty, she saw no prostitution, she saw no uglyness, and she considered life something utterlly absurd and beautiful. I believe with no cameras glued anywhere on she actually really felt completely free.

Thats when she realize she had not put on the magic dress! - Oh my God, what it will happen to me now!? - she cried. Until today nobody knows. Only that she fell brutally against the wind downwards. Some say the wind did save her. Some say the wind was her mother. Some others say she felt over the joint arms all conected as one,  and that those arms hold her and saved her from the certain death. Those amazing arms from the prostitutes.