sábado, 3 de dezembro de 2016

A terra


Cantei o mar

O mar se vai

Cantei o tempo

O tempo esvai

Cantei o amor

O amor não há

Cantei a vida

A esperar

Cantei a terra, o meu lugar

E só a terra

Pude cantar



Se é terra que vais cantar

Esta é a terra, é o teu lugar

Se à vida a terra dá

Nunca te apagarás



E o mar se foi

Quando cantei

Tempo escorreu

Quando eu peguei

O amor morreu

E eu nem sei

Vida passou

Quando esperei

Só canto a terra, o meu lugar

E só a terra

Posso cantar







domingo, 20 de novembro de 2016

Fome

Quando  você ama, não é amor, é fome. Quando você sente saudade, não é saudade o que sente, é fome. Quando você quer ganhar dinheiro, não é dinheiro o que você deseja, é fome. Quando você quer uma companhia qualquer você quer matar sua fome. Quando você quer ser feliz, é fome o que sente. Quando você quer trepar, é fome.

Explique "fome" fisiologicamente e o que você vai conseguir é ciência, mas ciência também é fome. Explique "fome" psicologicamente e isso será fome. Porquê? Vou dizer porque. Porque tudo na vida que fazemos relacionado a algo ou alguém é a mesma coisa que abrir a geladeira pra ver se lá dentro tem algo para comer. E muitas vezes esse habito é apenas um habito sem a menor fome; porém, é fome psicológica.

A fome psicológica difere das outras fomes. Ela é a necessidade de se empanturrar do Nada. Por isso não há fome nela. Para todo o resto há fome. Mas o "nada" também é comestível.

Fome é o grande mal do mundo. A grande expiação religiosa do Homem, e o imenso castigo de Deus para com a sua criatura. A fome é abstrata. (!!!) Tão complexa e materialística, pois é a relação entre algo que come e algo que será comido. É abstratamente tocante! Não é incrível e impressionante isso? E...se você realmente está tentando entender o meu pensamento... isso é fome.

Ninguém quer amar alguém. As pessoas querem se alimentar do outro. Elas precisam de glicose na alma. Quando se come um filé no almoço busca-se a glicose no sangue, no cérebro: o que nos faz pensar. Mas quando se ama busca-se a glicose abstrata, busca-se preencher o vácuo de um caminho, de uma existência, de uma solidão. E solidão é fome.

Eu sei disso porque há muitos anos quando eu morava fora do Brasil, com 18 aninhos de idade, eu passei um mês completamente isolado, renegado, expulso por meus "amigos" por motivos que não cabem aqui neste texto, não têm importância. E durante esse período curto da minha vida eu me senti tão sozinho, que embora eu ainda me alimentasse normalmente, meu cérebro, meu corpo, minhas células sentiam a fome do existir. Ninguém existe sozinho, sem sociedade, sem o espelho nos olhos dos outros, sem aprovação, sem carinho,  atenção e sem ego. E naqueles dias de extrema solidão total eu vagava pelas ruas desencontrado, e nos descaminhos das ruas de Los Angeles eu fiz um "amigo", que me enganou fingindo querer comprar cerveja, pegou meu dinheiro, ( eu estava meio atônito, e acabei emprestando), e ele sumiu com o pouco dinheiro e eu fiquei horas esperando a cerveja sozinho num beco de LA (ainda éramos menores de idade nos EUA para beber), e ele nunca apareceu nem com meu dinheiro, nem com nossa cerveja. E eu percebi que o que nos leva a acreditar em alguém tem um nome e se chama Fome.

Como se mata essa fome? Não descobri ainda. Talvez seja o grande mistério da natureza e da sociedade, sendo que não sei qual a diferença entre ambas. Mas se eu soubesse eu lhe diria e você ia se sentir melhor, ou não. Pois que talvez a fome seja necessária para que se ande para a frente, afinal a vida é uma geladeira cheia, ou vazia, depende da época. Mas realmente não sei dizer. Escrevo agora porque sinto fome.




terça-feira, 25 de outubro de 2016

Quando...

Quando você vive um sonho,
um sonho não vive.





sábado, 8 de outubro de 2016

Vírgula

Eu sou a prova viva de que decepção não mata.

Mata não, decepção, que de viva prova, ah, sou eu!

(Como tudo na vida,
a verdadeira questão
é saber onde botar a vírgula.
E mesmo assim...
não existe perfeição!)







domingo, 4 de setembro de 2016

Menina


Tempinho...
Tem pinho?
Ela toca!

Tão menina
Aos pouquinhos
Me nina

De fininho
A moça bonita
Faz ninho
Em mim




terça-feira, 16 de agosto de 2016

An English Tale

She had the outskirts surrounding her. She had the outside men, the forehead agains the wind, the smoke, the odor and the men. She used to live in a terrible building where the inward walls were painted with the most disgusting writings, also writings of invitations from prostitutes along with the number of the apartments where they served the men. No doorman, no security cameras, no freedom at all. No bird could fly high over that factory of feelings without choking and falling to pieces.

It's funny how the lacking of cameras can mean absence of freedom. She slept on it, and she realized something must have been twisted on this very world. But she had the men, and nobody really knew those men. Like phantoms they persuaded the long corridors, they did not live, they dwelled like lost ants without a queen. But she was a queen, and this is not a slang at all.

Every morning she dressed nicely to get breakfast, even tho there was just a piece of bread for her. The nice dress her mother left her was the only legacy in a heart. And she dressed very tightly so to make sure it really touched her heart. That made her feel like her mother was somehow still there, still around.

Her mother was a strong lady. She built that building with her bare hands and some fuzzy sexual excitment. She was called "The Way". Everybody in the neiborhood  knew what that meant. She lived close to the worst train station of all, and I know - because I know all of them - that she fed herself bananas and cheap rice for long years until she could save some money and start building the future dirty walls of that creepy place. There is no man in this town that she had not slept with. Well, it surely worked. When she achieved her dream she was an accomplished dead woman - her mother, i mean. I say.

That's why her daughter became such a disturbed person. I would go furher on that and say that she was disrupted. The mind is the longest leg we all have. It can take you to the moon or it can strive against your whole body. But she never became a prostitute. She had her proud, but if you think twice pride does not mean a lot, for her mother built that dream carved on unworthy english bricks.

One day she escaleted the very top of the ten floor building. She climbed the last ladder towards the very roof where she could observe the entire neighborhood altogether. She opened her arms like a nightingale and she thought of flying. And I gotta tell you, my friends, she did fly beautifully. She could see the whole city. She felt mesmerized by the straight line streets, as well as the curves, and roofs and from the top of the world she saw no poverty, she saw no prostitution, she saw no uglyness, and she considered life something utterlly absurd and beautiful. I believe with no cameras glued anywhere on she actually really felt completely free.

Thats when she realize she had not put on the magic dress! - Oh my God, what it will happen to me now!? - she cried. Until today nobody knows. Only that she fell brutally against the wind downwards. Some say the wind did save her. Some say the wind was her mother. Some others say she felt over the joint arms all conected as one,  and that those arms hold her and saved her from the certain death. Those amazing arms from the prostitutes.





domingo, 14 de agosto de 2016

É melhor cobri-lo agora. Tá frio.

 A lembrança é feita de sulcos de discos de vinil. Esse disco é ótimo! Meu primeiro disco foi um disco de dance music do final dos anos 70. Ha....! Que legal esse disco! Uau! Esses sonzinhos doidos girando na cabeça, devem ser sintetizadores - meu pai que disse! A capa de papelão tem um cheiro gostoso... Cheiro da papel velho, como eu gosto disso! Aqui na serra faz um friozinho tão bom que o cheiro fica mais forte, é tão legal isso... E eu adoro rolar naquela almofada meio branca, com coisinhas desenhadas em vermelho e laranja. Ela fica tão fresquinha nesse clima friozinho. É tão gostoso voar por cima dela! Cair com a cabeça como se fosse um ursinho fazendo um buraco na neve. Minha árvore também é tão legal - eu que plantei - e ela dá uma frutinha azedinha, hummm!

Meu avô tá la fora dormindo embaixo dela. Ai que medo que as formigas piquem ele, mas se até agora não picaram acho que não tem problema . Chegou o meu amiguinho pra brincar de Roberto Carlos, mas não to afim agora. Ele só se interessa pelo Ruy Maurity, que é chato pra dedeu.

Na casa do Leco tem um corredor enorme. Dá pra correr direto e fazer uma curva legal no final. Na casa dele a gente corre, é tão legal! Vejo nossas mães conversando nas poltronas pretas estilosas fumando pra cacete. Legal também é descer pra salinha da televisão que fica atrás de tudo. A casa dele tem cheiro de maresia e gato, e a Tata vai morder alguém a qualquer momento... dente de criança de três anos é foda! Minha mãe conversa com eles sobre coisas que eu não entendo e por isso não ligo. Mas é legal brincar! Se bem que só venho aqui quando ela vem. Será que alguém pode me trazer um copo de água?

O corredor escorregou e eu caio no chão. Me ralei a perna! Mas tudo é o circo. O circo é o que eu gostei mais ou menos, tem cheiro de bosta de cavalo e peido de elefante. Na colônia de férias a piscina era gostosa e grande, ai como eu nadei... To nadando! Mas sempre perto da borda porque acabei de aprender. Ganhei uma competição no CIB uma vez. Foi a única competição que eu ganhei sozinho na vida.

Uma menina disse que eu sou forte. Ai, que vergonha... to morrendo de vergonha. Lembro quando isso aconteceu. Ela tá olhando pro meu braço e rindo porque eu sou forte e eu sou apaixonado por ela. Nunca revelei isso. Faz tanto tempo... acho que se eu contar agora ela fica comigo aqui na sala de livros da escola. Mas não, deixa pra lá, ela não vai querer... Mas meu amor mesmo é a Dedé. A gente se beijou por trás da cortina do quarto dela um dia desses. Mas foi inocente, o pano ficou entre as bocas, e eu entrei num transe. Nunca tive uma "namorada" como ela sem nem ser namorada. Que lindo isso.

Sempre que eu ouvia um disco do  Led Zeppelin eu lembrava da primeira. Era o Led II, puta disco. Entra na minha cabeça como as memórias que nunca saem. Até hoje nunca a esqueço quando toco esse disco. Mas cadê a vitrola que meu pai jogou fora? Engraçado, devia estar logo ali na estante... Pera aí, vou colocar o disco pra tocar e apertar as luzinhas coloridas da vitrola que meu pai deixou, finalmente, eu usar.

Minha cabeça começa a girar... é como um túnel do tempo, fico tonto... me salvem por favor, eu sei que neste minuto eu preciso do... esse túnel do tempo é o do filme Perdidos no Espaço! Vinha antes dos Batutinhas....ai como eu gosto tanto; ai, como eu gostava tanto... Socorro gente, alguém me salve? Salvar do quê?


* * * 



- Sinto informar... Acho que não vai ter mais jeito. Alzheimer é muto dolorosa... Melhor vocês irem para casa descansar.

- Sim... é melhor cobri-lo agora... Está frio...