domingo, 20 de novembro de 2016

Fome

Quando  você ama, não é amor, é fome. Quando você sente saudade, não é saudade o que sente, é fome. Quando você quer ganhar dinheiro, não é dinheiro o que você deseja, é fome. Quando você quer uma companhia qualquer você quer matar sua fome. Quando você quer ser feliz, é fome o que sente. Quando você quer trepar, é fome.

Explique "fome" fisiologicamente e o que você vai conseguir é ciência, mas ciência também é fome. Explique "fome" psicologicamente e isso será fome. Porquê? Vou dizer porque. Porque tudo na vida que fazemos relacionado a algo ou alguém é a mesma coisa que abrir a geladeira pra ver se lá dentro tem algo para comer. E muitas vezes esse habito é apenas um habito sem a menor fome; porém, é fome psicológica.

A fome psicológica difere das outras fomes. Ela é a necessidade de se empanturrar do Nada. Por isso não há fome nela. Para todo o resto há fome. Mas o "nada" também é comestível.

Fome é o grande mal do mundo. A grande expiação religiosa do Homem, e o imenso castigo de Deus para com a sua criatura. A fome é abstrata. (!!!) Tão complexa e materialística, pois é a relação entre algo que come e algo que será comido. É abstratamente tocante! Não é incrível e impressionante isso? E...se você realmente está tentando entender o meu pensamento... isso é fome.

Ninguém quer amar alguém. As pessoas querem se alimentar do outro. Elas precisam de glicose na alma. Quando se come um filé no almoço busca-se a glicose no sangue, no cérebro: o que nos faz pensar. Mas quando se ama busca-se a glicose abstrata, busca-se preencher o vácuo de um caminho, de uma existência, de uma solidão. E solidão é fome.

Eu sei disso porque há muitos anos quando eu morava fora do Brasil, com 18 aninhos de idade, eu passei um mês completamente isolado, renegado, expulso por meus "amigos" por motivos que não cabem aqui neste texto, não têm importância. E durante esse período curto da minha vida eu me senti tão sozinho, que embora eu ainda me alimentasse normalmente, meu cérebro, meu corpo, minhas células sentiam a fome do existir. Ninguém existe sozinho, sem sociedade, sem o espelho nos olhos dos outros, sem aprovação, sem carinho,  atenção e sem ego. E naqueles dias de extrema solidão total eu vagava pelas ruas desencontrado, e nos descaminhos das ruas de Los Angeles eu fiz um "amigo", que me enganou fingindo querer comprar cerveja, pegou meu dinheiro, ( eu estava meio atônito, e acabei emprestando), e ele sumiu com o pouco dinheiro e eu fiquei horas esperando a cerveja sozinho num beco de LA (ainda éramos menores de idade nos EUA para beber), e ele nunca apareceu nem com meu dinheiro, nem com nossa cerveja. E eu percebi que o que nos leva a acreditar em alguém tem um nome e se chama Fome.

Como se mata essa fome? Não descobri ainda. Talvez seja o grande mistério da natureza e da sociedade, sendo que não sei qual a diferença entre ambas. Mas se eu soubesse eu lhe diria e você ia se sentir melhor, ou não. Pois que talvez a fome seja necessária para que se ande para a frente, afinal a vida é uma geladeira cheia, ou vazia, depende da época. Mas realmente não sei dizer. Escrevo agora porque sinto fome.




2 comentários:

Patrícia Simone disse...

Gostando muito do que leio aqui.

Patrícia Simone disse...

Gostando muito do que leio aqui.