domingo, 7 de agosto de 2016

Carrossel

Eu fui criança, um dia. E naquela época de nuvens de algodão e pipoca colorida havia na beira de uma lagoa um lindo carrossel com espelhos diversos e luzes que piscavam mais que estrelas e cavalos. Esses cavalos subiam e desciam, como que pulassem, cavalgassem, enquanto isso o carrossel girava seu giro infinito que pode machucar, mas que enfeitiça muito mais a dor.

E eu lembro que meu rosto ficava atônito quando eu entrava no parque e dava de cara com o carrossel. Era como se um gigante colorido se postasse na minha frente; uma esfinge e uma pergunta; um arco-íris no solo.  Lembro que era impossível passar ao largo do carrossel, pois simplesmente era difícil demais isso! Ele nos atraía como a primeira e mais importante atração. E a sua musiquinha de anos 20 era incrível, ao mesmo tempo, passada e original. Um mantra eterno de show de cowboy.

Mas o que importa mesmo era o meu medo tamanha fascinação que eu sentia pelo carrossel. Eu tinha medo de entrar e ser sugado para outro plano. Eu tinha medo que numa girada o meu cavalo de repente se soltasse e começasse a voar em direção a uma terra mágica. Eu tinha muito medo de que a tonteira da circunferência me transformasse em adulto.

E por isso eu raramente andava de carrossel. Infância perdida? - Não. Acredito que não, pois eu sempre gostei muito de admirar as coisas muito mais que utilizá-las. Mas minha participação não ficou incólume já que os anos se passaram e um belo dia o carrossel havia sido retirado junto com o parque, e tudo foi como se voltasse ao anormal. E eu percebi que ali, num ato humano de outro ser haviam traçado uma linha finíssima entre o que eu era e o que eu estava passando a ser.

E foi assim que eu cresci. Deixei de ser criança quando o carrossel foi levado embora? -Não! Mas com certeza levaram minhas ilusões junto. Só que um dia eu acordei girando, e girando eu fui para sempre subindo pelo azul, enfiando nas nuvens minhas razões confeitadas de jujubas, e assim fui vivendo, e de repente abriu-se no céu um vácuo e surgiu o carrossel cinza, escurecido, enrugado, enferrujado e sem girar.

E a chuva que caiu foi um choro; e o sol empalideceu e a noite brilhou com sua névoa de jardim perdido para sempre. Acho mesmo que perdi o carrossel de vez. Mas feio, roto, sem luzes, ele ainda girava devagarzinho, como se a mão de Deus não quisesse deixar decepcionar as crianças do mundo. E eu vi que eu ainda era criança e que na verdade nunca havia me tornado adulto.

Então chegando perto do carrossel eu o toquei com os dedos tímidos e tremidos do velho que eu era, e de repente tudo se acendeu. Eu era mesmo criança apesar dos dedos e das tremidas e da morte. E me enchi de vida, porque ao montar de novo num dos cavalinhos do carrossel eu percebi que ele apenas gira e que um círculo nunca vai para a frente (por mais que tente). Hoje, por mais que insistam que tenho que levantar e saltar dele, eu continuo circulando infinitamente para lugar algum. Afinal, é uma escolha ser círculo ou ser reta, e eu havia escolhido o meu carrossel, com suas luzes e seus apetrechos, e seus cavalos de resina e seus espelhos de lata e suas luzes de poste de esquina velha, e sou feliz.

Quem quiser pode me escrever que eu dou a senha secreta do carrossel.







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