domingo, 22 de maio de 2016

Há um Lago.


Há um lago. Há um lago em algum lugar. Há um lago em qualquer lugar... Todos dias eu entro no trem do metrô e sento, quando tem lugar pra sentar, entre centenas de pessoas e todos os dias eu o vejo, o fantasma do metrô é um homem azul. Talvez seja a aura dele, talvez seja só alguma falta de matéria que faz com que a luz fria trespasse, eu não sei. Mas ele sempre está lá, e incondicionalmente de frente para mim, e me olha os sapatos, como se pensasse...como que tentasse identificar a marca ou da onde eles vêm, ou se são novos...eu não sei. Tem dias que ele me diz "que sapatos bonitos você tem!"; outros dias ele passa os braços em volta dos meus ombros..."Aí, quer vender estes sapatos?".

Ninguém mais vê esse fantasma, só eu. Já pensei que ele representa meus descaminhos, ou minhas lembranças, minhas "idades" perdidas nos anos perdidos de minha meia vida. Cada momento que vivi, cada lembrança, cada beijo das namoradas que tive - as que amei, e as que não amei -, cada vez que entrei naquele pub empoeirado de Londres a procurar por alguém que não existia hoje vejo e encontro o fantasma do que nunca tive, mas que vive dentro de mim e fora também.

Há um lago. Eu sei que há um lago em algum lugar... Disso eu tenho certeza. Entretanto, nunca tive tamanha certeza antes. Houve uma época em que lagos não eram lagos. Eu os imaginava de outra forma. Para falar a verdade eu não os imaginava, é que de dentro de um lago eu suplicava, lacrimejava por um, quando realmente existia um lago e eu nadava e era feliz e não sabia. Meu fantasma sempre diz isso. A gente tem sempre que prestar atenção, pois só nos damos conta do que temos quando não temos mais. E eu tive um lago, mas não nadei nele o suficiente, e chorava sem saber que eu podia nadar o suficiente. Ou talvez tenha nadado demais e ele tenha evaporado ou escorregado por entre meus braços num sonho onde acordei de minha tristeza ainda mais triste ainda.

Sei que vocês que estão a ler minhas palavras desnorteadas têm dificuldade de entender-me, mas o meu fantasma entende, e não só entende, ele vive isso comigo, ele é exatamente o que sinto mas que apenas eu posso ver. Como é triste a gente enxergar um cometa só depois dele ter passado. Ou um lago só depois de ele ter evaporado.

Sabia que existem rios que secam durante o verão e refluem durante o inverno? Espero sinceramente que esta seja a metáfora certeira e que representa o ciclo da vida dentro da própria vida. Porque não há dia menos dia em que eu não acorde de manhã só para checar algum rastro novo de gota de água nova. Nesses dias eu entro no metrô e meu fantasma me olha com cara de vagabundo das ruas, cara de quem vive de perguntar sobre os sapatos alheios - uma forma de sobrevivência dele - quem sabe quantos centavos ele não consegue iniciando um papo sobre sapatos?

Um dia lhe perguntei: - Há um lago? Ele olhou nos meus olhos pela primeira vez. Olhou fundo nos meus olhos, tão fundo que eu não sei bem...mas eu vi um lago bem no seu olhar. Mas minha felicidade morreu quando da sua boca saiu a frase: - Não, não há um lago. Pelo menos não mais aquele. Bom, acho que a resposta não foi tão negativa assim, porque entendi que há lagos que passam e lagos que virão. Só espero ter esta oportunidade novamente.

Enquanto isso sei que há um lago. Há um lago em algum lugar. E ele guarda meus tropeços enquanto meu fantasma me faz lembrá-los. E sei que um dia vou nadar. Vou nadar de novo, saído de um calor de suadouro, e que vou novamente tropeçar de propósito fingindo cair na minha felicidade. E desta vez ela será feliz dentro de mim. E não sei se neste dia o meu fantasma vai me esperar no metrô, à minha frente perguntar como sempre sobre meus sapatos. Espero estar calçando sapatos novos....





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