sábado, 12 de dezembro de 2015

Ninguém se mexeu


Aconteceu num grande teatro de segunda nos fundos de um bairro que havia sido muito nobre mas que agora ninguém mais frequentava além de morar e viver. O teatro era luxuoso, e o luxo sempre sobrevive à poeira das cortinas e ao veludo enferrujado das cadeiras cor de sangue. Na plateia pessoas, na sua grande maioria pessoas velhas, com seus casacos de pele velhos e rotos, e seus bonés de outros tempos, e suas peles amarrotadas de estivadores de grandes embarcações. Não era um público pobre, pelo contrário, eram apenas "amarelados", com olhos lacrimosos e cheios de penumbra.

No palco empoeirado um quarteto interpretava o Quarteto em Lá Menor de Mahler. Você não conhece? Foda-se! Deveria. É de uma beleza sublime e confusa, melancólica como tudo o que estou relatando e que é a mais pura verdade, e que ocupava aquele teatro como os armários de madeira de lei muito escura e os balcões da cor de braços de violoncelos.

O quarteto chegava a um ponto da música, em que momentos dramáticos e outros rapacemente felizes comoviam os músicos além do normal. A música dentro daquele recinto velho e enegrecido pelos anos, como uma catedral abandonada e furtiva, era uma espiral onde almas iam sendo carregadas como que pelo redemoinho de Allen Poe, tornado sonoro causado apenas por três instrumentos doces e tristes - um violoncelo, uma viola, um violino e um piano de cauda longa que interpretavam com maestria a peça inacreditável, e os cabelos dos músicos voavam maravilhosos com o vento que não existia lá dentro, e era tudo tão lindo e tão precioso que o tempo podia parar.

Havia um ajudante de palco, algo assim, que virava as folhas do pianista no segundo exato. Houve um momento então em que ele deu um passo à frente afim de virar mais uma página da partitura e por uma razão desconhecida de qualquer um, por ventura, seu sapato bem polido pisou em algum pontículo lustroso daquele palco imundo mundano e maravilhoso, e enfim o homem escorregou para trás não conseguindo sequer tocar o caderno com as notas da música. Caiu para trás e sua cabeça bateu na cadeira de ferro fundido e madeira indiana rebuscada de capilares esculpidos à mão. O sangue derramou de sua cabeça e escorreu pelo piso corrido, e o homem morreu no ato.

Os músicos continuaram a tocar efusivamente como sempre. Ninguém na platéia se mexeu. E assim acaba este conto.





3 comentários:

Rosa Rosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rosa Rosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alan Sommer disse...

Eu não sou o Selton Melo! Porra! Pare de me encher o saco e vá encher o Selton Melo de verdade! EU NÃO SOU O SELTON MELO! ENTENDEU?