sábado, 5 de dezembro de 2015

Acordar


Já pensei em escrever um romance. Não acho que valeria à pena. Poucos leriam, ou quem sabe, ninguém. O mundo está cada vez mais aberto e fechado ao mesmo tempo. É como uma síndrome fantástica; uma revolta dos tempos; uma desandada na massa do bolo. Num mundo onde o acesso à informação cultural é total, mesmo assim tenho a certeza de que muitos não escrevem romances pelo simples presságio de que não serão lidos, perdidos na multidão. Mas alguns os escrevem, apesar disso. Eu não.

Nessas horas penso numa palavra: o vocábulo "acordar". Acorda-se todos os dias até o último suspiro. E esse é o fato mais importante da vida, para os que creem nesta aqui e agora e pronto, acaba-se. Não sei se é meu caso, mas isso não importa agora.

Posso estar errado, mas a palavra acordar tem uma etimologia interessante. Existe uma história por trás de qualquer palavra - nada é em vão (olha aí outra!) Nossa linguagem é toda metafórica. O uso das palavras é belo no seu sentido escondido, poético. Perdido no tempo andamos sem pensar que as palavras também se perderam nesse mesmo tempo. Acordar me remete a uma preposição (a, para, etc.) e um substantivo (corda). Os dois transformados num verbo profundamente poético. (Aliás, acabar, escrita no parágrafo acima significa levar a cabo - que tem a ver com corda também, viu? )

Acordar é o que fazemos todos os dias. E todos os dias para acordarmos é preciso agarrar numa corda imaginária e levantar. Para a corda - acordar! Essa corda imaginária de todos os dias vale para todos os momentos, mesmo àqueles em que não estamos dormindo, assim a acepção do vocábulo levado à um nível poético mais avançado, e portanto mais  poético ainda. É a própria linguagem criando braços, se tornando humana, tentando escapulir da gente e se agarrar em sua própria corda num fenômeno linguístico lisérgico. A toda hora nos deparamos com vocábulos da mesma natureza. A palavra "agarrar" é a mesma coisa. Usamos nossas garras de milhões de anos de evolução para agarrar nossa corda diária.

É claro que nem todas são assim, embora eu acredite que são. Em algum túnel do tempo, fechadas nas raízes do passado extremo - aqueles que escondem catedrais metros e metros abaixo da Terra e que só alienígenas hão de escavar um dia na tentativa de nos acordar.

Eu poderia escrever uma tese sobre isso. Ou mesmo um romance preambulado desta forma, mas não. A mim só resta abrigar o que há em mim. Como quem briga e está "a brigar" por alguma coisa que só eu sei, só eu entendo, e que se chama Arte. Como o oxigênio a te inundar de vida: Ar-te.





-sexo- 



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