quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A Salada


Existia um homem que cultivava tomates e outro que cultivava cebola. Um sabia do outro, pois seus sítios não eram tão longe assim. Mas havia alguma distância pouca. O dos tomates pensou que talvez tomate combinasse com cebolas. O outro, ao mesmo tempo, por coincidência pura, pensou que cebolas combinassem com tomates. Porém, a distância pouca entre eles era escarpada, e quando chovia ficava muito enlameada, e isso tornava tudo muito difícil. Então eles decidiram construir uma pequena estrada de pedrinhas e piche que garantiria um caminho seguro. E foi assim que a salada foi inventada.

Passou um tempo, e no ermo lugar onde habitavam o tomateiro e o ceboleiro, ficaram sabendo através do vento, que havia um terceiro produtor e que este produzia azeite. Ficaram muito felizes, mas logo viram que para chegar na fazenda do azeiteiro tinham que ultrapassar um morrinho chato pra burro de subir e descer. Então pensaram que podiam furar o morrinho e abrir uma passagem e um caminho até a fazenda deste. Assim o fizeram, e foi assim que foi inventada a salada com molho.

Passou-se um tempo e os três já trocavam produtos num intercâmbio muito proveitoso para todos, quando perceberam que muito longe, milhas de distância havia um senhor que morava numa floresta e fazia pão. Pão! E pensaram que pão combinaria perfeitamente com salada. Resolveram então contratar um menino que levaria uma mensagem a ele perguntando se interessaria comercializar seu pão em troca de cebola, tomate e azeite. O menino é claro que aceitou, mas o lugar era tão longe que ele levou dias para cumpri-lo, e isso preocupou os três primeiros produtores. E quando o menino voltou com a resposta afirmativa e uma cesta de pães, viram que os pães já haviam ficado borrachudos, tamanha a distância percorrida e o tempo gasto nela. Então pensaram em construir uma ferrovia, pois assim o pão poderia chegar rapidinho em suas casas, bem como o azeite, o tomate, e a cebola ao padeiro. E assim fizeram, e foi inventado então o hábito de passar o pão na salada. 

O comércio entre eles prosperou tanto que já havia caminhos melhorados entre eles, uma ferrovia, e até algumas pessoas que, sabendo do acontecimento, aproximaram suas casas para poder provar a tal salada. Mas essas pessoas não tinham o que dar em troca, e como a produção crescera a ponto de necessitar mais do que chuva para multiplicar, se fez necessário trazer água de algum lugar. Pois não é que existia um lago de água boa e nutritiva nas imediações do novo vilarejo que se formava! Então essas outras pessoas resolveram colher água e oferecê-la como troca pelo tomate, pela cebola, pelo azeite e pelo pão. E assim foi inventada a salada para todos.

Mas óbvio que fazer salada custava trabalho,e trabalho dá muito trabalho. Então um belo dia apareceu um homem que dizia ter meios de facilitar este trabalho, ou seja, ele melhoraria e aumentaria a infraestrutura para que a produção ficasse cada vez maior. Mas o preço seria uma porcentagem da salada. Ele ofereceu também segurança às linhas de transporte, iluminação das vias, etc. E disse que para isso teria que escrever leis de gestão para que a comunidade pudesse aproveitar a salada melhor. E assim foi inventada a constituição da salada geral.

A produção crescia tanto, mas tanto, e era tanta gente migrando para obter salada que um senhor teve a grande ideia de criar um estabelecimento público, porém privado, onde os quatro componentes, azeite, tomate, cebola e pão, pudessem ser combinados e vendidos aos interessados. E assim foi inventada a salada fast food.

Esse senhor ficou tão cheio de lastro, devido ao grande sucesso e facilidade de seu empreendimento, que um belo dia um outro senhor ofereceu-lhe guardar o seu lastro num cofre tão grande e tão forte que nenhuma outra pessoa poderia abrir. E assim foi inventado o banco do lastro da salada.

Todas essas novidades complicaram tanto a cabeça e o tempo e trabalho dos quatro produtores iniciais que um belo dia eles se cansaram de fazer e comer salada. Queriam outras coisas, comer carne por exemplo, ou fazer queijo, ou plantar milho e arroz e cachaça.

Então o "governo" disse a eles que isso não seria possível já que toda economia dependia da salada! Disse que a trama de pessoas já envolvidas com o feitio da salada significava um mercado impossível de se desmanchar de uma hora para a outra. Disse também que este mercado havia feito emergir gente de todos os cantos e que com o tamanho da demanda o preço da salada havia quintuplicado! Isso significava que muita gente não possuía lastro suficiente para comprar salada, e que para que o "governo" pudesse continuar seu trabalho de gestão teria que agradar a todos. E assim foi inventado o bolsa-salada.

Foi aí que os quatro produtores, de tomate, de azeite, de cebola e de pão se reuniram no Hotel Salada-Inn (surgido devido ao "boom" da salada) para discutir a situação que começava a lhes afetar. Afinal quem produziria a salada necessária para o bolsa-salada, e como seria produzido de graça, com que lastro eles poderiam fornecer algo gratuito, ou seja: quem pagaria a conta da salada? Levaram a questão ao governo que ordenou que o lastro sairia da própria salada. E assim foi inventada a inflação da salada.

E assim foi durante anos e anos a fio. Os produtores originais se foram...  e seus filhos que não entendiam muito bem o porquê da origem da salada (ou não davam muita importância), apenas do seu lastro, perceberam que estavam produzindo muito mais salada através de incentivo do governo, e que isso era muito cômodo, mas também muito difícil, pois não havia mais lastro real e sim uma bolha de salada prestes a estourar. E foi assim que inventaram a mentira-salada.

Foi uma grande ideia pois acalmava o povo comedor de salada, dono do lastro, e que sem se dar conta pagava a salada dos que não possuíam lastro para comprar salada. Os que se davam conta achavam que nada mais justo lastrear a salada dos menos favorecidos. Mas um dia viram-se sem a próprio lastro para suas próprias saladas, e isso afetou tudo que havia de relacionado à produção de salada. Os primeiros e antigos caminhos tiveram que ser fechados por falta de lastro, a ferrovia teve que ser interrompida, as remessas ficaram difíceis, a salada inflacionou e quem produzia a própria salada não pôde mais produzir a própria salada, nem para si, nem para o bolsa-salada. Inventava-se assim a salada sem salada.

Num quarto pequeno de um mísero hotel numa mísera e suja rua um dos herdeiros deslastreados de um dos primeiros produtores de insumo da salada sentava numa cadeira de madeira velha e carcomida, e se dava conta de como o mundo, antes liberal, havia sido muito mais natural, e como a salada havia sido um acontecimento bonito, livre de ordens e má gestão, e pensou assim que o lastro da salada estava na dificuldade de produzi-la e não na facilidade de recebê-la. Naquele momento inventava-se então a falência da salada.




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