quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Conto que reluz.

Na natureza há artifícios. Cores que nos enganam. Flores que nos enlevam. O céu hoje tomou a Terra de sobressalto, e os peixes ondularam com a maré azul. Não sei se flocos encadeados, ou linhas imperfeitas, ou firulas de partículas foram essas, mas com certeza a ondulação que geraram fora mais deslumbrante que nuvens de seda. Como se a natureza, qual cozinheira embriagada, preparasse ao Homem o prato gourmet mais cintilante já visto. O céu não se abrira, pelo contrário, se movimentava como serpentinas celenteradas, esfumaçadas, e em volta desta bruma grossa, existia algo, alguma coisa indefinida - Deus?

Ai, como é linda a terra do Arpoador, querida. Se eu pudesse eu me jogaria nesse céu, nesse mar, nesse sonho... É claro que você pode se jogar, amor, mas não se esqueça das pedras que virão antes. E daí? Depois é paz, e glória. Não... querido, a paz existe apenas numa música qualquer que um famoso compositor fez para isso tudo. Ok, beije-me então, e aprecie as ondulações da maré alta, o crispar das estrelas, a lâmina do luar, e as serpentinas das sedas.

Chegaram por fim a uma casa. Ela ficava por detrás de uma das moitas, ou pedras, ou moínhos imaginários da praia. Era uma casa de madeira, e seu fim era como seu começo: irretocável. Abriram a porta da pintura, e de dentro daquele quadro havia uma janela e o azul que se misturava com o branco sedoso e sinuoso era mais claro e seu lume maior que por fora.

Mas é claro, disse Paulo. Aqui dentro tem mais vida. Mas como tem mais vida se aqui é escuro? Bom... vai ver esta é a razão. Por ser escuro o brilho de fora é sempre mais grandioso. As coisas que a gente não tem são belas enquanto não as temos. Mas às vezes são belas também quando as adquirimos. Amor, lembre-se que não brigávamos antes de amar. É verdade, acho que o Paulo tem razão. Mas que és tu, Paulo?

A questão não é quem sou eu, mas sim quem são vocês! Eu já estava aqui, em minha casa, vocês que entraram! Mas a porta porta estava aberta, nada pudemos fazer. É claro que poderiam ter feito, ora! Bastava não entrar. Ok... acho que vamos sair, então. Podem até tentar, mas eu não sei mais onde está a chave da porta, e a janela é alta demais. Mas foi bom que vocês tenham chegado, pois minha liberdade reside na situação. Eu irei junto, se não se incomodam.

Num canto da mesa, sentado tomando um uísque se encontrava João, que falou: - Pois eu possuo a chave. Se vocês quiserem eu dou. Mas têm que fazer uma promessa a mim, de que o próximo casal que aqui neste recinto entrar será a minha vez.

Claro, João, pode passar a chave, o mundo é um destino e nada mais do que acontecimentos que vão acontecer. A mudança é a única certeza. João então deu-lhes a chave e ao abrirem a porta lançaram-se num mundo de céu e brisa e turbilhoes dadaístas de seda branca e creme envolvidos num pano bordado pela natureza, filha de Deus, que os levou ao lindo solo pedregoso do Arpoador.

Quanto tempo por isso você esperou, Paulo? A resposta foi "a eternidade". Mas um poeta um dia escreveu que esta dura apenas um momento . "Foi rápido,eu acho."

João espera, Que alguém abra a sua porta, que a feche e que lhe entregue a chave que a abrirá novamente. Um momento eterno é uma fração de segundo. E na tela de trabalho de seu computador o desenho de serpentinas de nuvens, ventos celenterados e muita certeza.





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