terça-feira, 19 de novembro de 2013

Minha cidade preferida

Minha cidade preferida tem árvores impressionistas. Não tem asfalto, nem linhas de trânsito desenhadas nas avenidas. Minha cidade preferida é vesga. Nunca se sabe para que lado ir, nem de que lado ela te olha. Minha cidade preferida chove granizo todo dia, mas nada nos machuca, pois suas marquises são largas e inventaram alguma solução tecnológica para faciltar os cruzamentos nos sinais das ruas. Na minha cidade preferida ninguém sabe o que está acontecendo, mas todo mundo sente nas suas entranhas o futuro que parece se dissolver, mas que é duro como paralelepípedo. Na minha cidade preferida os paralelepípedos refletem o céu, e há casas de chá em cada esquina, que vendem pipoca caramelada e com sabor de curry. As pimenteiras crescem nas rachaduras dos antigos prédios, e os cavalos de alimentam delas para ficar mais vermelhos do que brancos. Na minha cidade preferida os moleques jogam bola com poesia, e a cada chute pensam em alexandrinos perfeitos. A música existe na minha cidade preferida. Ela é composta apenas pelo vento, e é tão linda que as pessoas apenas percebem a felicidade que as atinge, sem nem saber como ou porquê. Só existe um único músico na minha cidade, e ele toca oboé numa esquina, e possui uma tatuagem de uma lágrima só, como que escorresse de um olho, e a cada semana a "lágrima" mudaria de lado, e ninguém realmente saberia da veracidade desta tatuagem, sendo este o lastro de sua música melancólica e triste. Os meninos que não possuíssem bola jogariam um futebol imaginário, e os casais redundantes nunca se separariam, e suas mãos viveriam atadas pela cola do infinito, e o estádio municipal teria seu gramado coberto de espinhos que uma cabra viria comer todos os dias, sendo que eles cresceriam logo após fazendo com que esta belíssima e paciente cabra voltasse para cumprir seu trabalho a cada dia, numa missão digna apenas de um Sísifo. E embaixo das arquibancadas eu faria amor com "Joana". E as pessoas andariam apenas por seus sapatos serem bonitos, e a chuva quando caísse traria com ela papagaios e goiabadas que não durariam mais que sete dias. E o povo se refastelaria com divinos sucos, e enternecidos amores, e os opostos não encontrariam suas distinções, e as baratas não existiriam em lugar algum. E os meninos seriam homens, e as meninas mulheres, e as mulheres seriam meninas e os homens meninos, e existiria uma rua tão repleta de árvores que seria impossível enxergar o chão visto de cima, e que no inverno assumisse a brancura da neve que cairia solta vinda diretamente da alma de Deus, em preparação ao verão onde tudo mudaria de lugar - ruas, estradas, metrôs, pessoas, apartamentos - e todos enfim morariam em frente as areias de uma fabulosa praia cercada de orquídeas, com as quais os homens trepariam e sendo assim dariam a luz à maior maravilha de todas, ou seja, algo ainda não descoberto, porém inexplicado, longe da compreensão torpe do ser que não existiria nesta cidade preferida.




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