sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Os últimos momentos de um homem caindo de para-quedas

Enrolou seu para-quedas com a perícia de sempre. Tinha cinquenta anos de idade e vinte e cinco de queda. Sabia melhor que ninguém que a experiência fazia o tombo suave. Naquele dia lindo de sol deixou  a família em casa e foi se divertir com um grupo de amigos para-quedistas. Depois todos tomariam cerveja. Era o seu programa relaxante da semana.

Fez todos os procedimentos de segurança e subiu no aviãozinho como era de costume. Subiram há uma altitude de uns sete mil pés. Bem alto, quase um Jumbo, dava para se divertir bastante assim. O visual era lindo. O horizonte o chamava. Logo iria se sentir um pássaro.

Fez os últimos ajustes, se segurou nos cantos da saída e enfim pulou no vazio. A queda foi perfeita. O frio na barriga uma delícia. O vento na cara era como se atingisse o paraíso. Levantou as mãos e sentiu o vento ultrapassar cem quilômetros por hora. Como a vida era boa! Contou uns vinte segundos, pois gostava demais da sensação da queda, onde podia fazer suas cambalhotas e malabarismos, e finalmente acionou o "cordão".

Não abriu! Puxou o segundo mecanismo - o de segurança. Não abriu também! 

Desesperado começou a futucar o para-quedas na esperança de alguma coisa que o salvasse - quem sabe um terceiro cordão de salvamento - embora soubesse que não havia. Seu cérebro quis acreditar nisso. Esse procedimento demorou apenas segundos. Quando passou ele olhou para os lados na busca de algum companheiro que talvez ainda pudesse não ter aberto o seu para-quedas, e assim ancorá-lo. Nada! 

Enfim olhou para baixo, e pela primeira vez em vinte e cinco anos teve a impressão de que a queda era mais rápida do que o usual. Seu impulso foi o de rezar, então se lembrou de que era ateu. Olhou então em volta e viu montanhas que pareciam paralisadas no firmamento, porém, o tempo, sentia o tempo entrar pelas fibras de sua pele como o vento que cada vez aumentava de velocidade machucando-o de frio. Seu estômago parou, suas mãos suadas congelaram dentro das luvas, e deu-se conta do quão inútil seria o capacete que havia lhe custado cinco mil reais e era lindo.

De repente avistou um para-quedas de um companheiro há uns trezentos metros de distância do seu. Tentou gritar. Foi inútil, e sabia que seria. Tentou direcionar seu corpo na direção do companheiro, utilizando o vento como propulsor, e as manobras bem conhecidas pelos para-quedistas experientes e que comumente chamavam de "vôo". Não deu certo. Passou por ele como uma pedra há uns cem metro de distância. Foi aí que notou o quão rápido era o vôo ao chão. Apenas pôde notar a mãozinha do companheiro agitando...

E naquele momento, em que mais nada poderia ser feito, sentiu uma calma inóspita. Uma calma à qual poderia chamar de paz. E pensou que nunca sentira tanta paz na vida. E pensou na ironia que é  sentir paz na hora derradeira. E isso o remeteu ao interior de São Paulo, onde havia nascido... a fazenda... E sua infância passou pelas suas bochechas junto com o vento que subia. Começou involuntariamente a se lembrar de coisas que há muito havia esquecido. A pamonha fresca! Ah... como era tão boa! Lembrou-se do dia em que correu dos feirantes depois de roubar melancias que espertamente escondia debaixo do caminhão. Lembrou da surra que seu pai lhe deu, e do carinho de sua tia. Que tia gostosa era aquela! Puta-que-pariu! Foi realmente a melhor foda da sua vida. A iniciação pode ser boa ou péssima e a sua havia sido maravilhosa. Sua tia tinha seios frutados. Escondidos perto dos cavalos ele aproveitara o que a maioria dos meninos do interior fazia com galinhas. 

Lembrou-se da Juliana, que depois de dois anos se mudou para a França com sua vontade de ser atriz e um produtor mentiroso que também a fez cair em queda livre. Como sofreu! Mas naquele momento isso lhe deu vontade de rir. Uma felicidade inexplicável. Percebia aos poucos que sua mente - talvez por causa da velocidade misturada com a endorfina, adrenalina, e todos as outras "inas" inerentes à sua situação - ia aos poucos saíndo da realidade e entrando num sonho. Percebeu que a concepção das coisas naturais ia mudando, e que o universo ia se abrindo à sua mente, da mesma forma que um dia lera num livro de Huxley. Era um estágio de meditação forçada. Um estágio de inoperância, onde nada lhe restava, e seu controle das coisas havia sido reduzido a zero. Pensou ironicamente que a vida no fundo é assim. E isso o deseperou por um instante, pois nada mais seria diferente de uma simples queda livre de um avião onde o para-quedas não funcionava. Tentou agarrar o Sol, mas este apenas o queimava o rosto.

Pensou nos seus sonhos que não realizaria, e de repente notou o quão pequenos eram eles . Pensou nas mulheres que não comeria mais, engraçadamente pensou em sua mãe, e pensou que um dia apanhou por ter se atirado do telhado apenas com um guarda-chuva de proteção. Como havia apanhado àquele dia..... Pensou que a surra de nada havia valido a pena, pois fora o começo de sua corrida para os céus. Pensou na morte, mas não conseguia pensar nela, embora tentasse muito, pois era evidente e inevitável. A vida havia lhe sobre-tomado. Talvez fosse o excesso de oxigênio invadindo suas narinas. Sentía-se um passarínho como antes.

Pensou na Michelle, e no erro que foi não pedi-la em casamento. Deixá-la escapar como uma mineirinha envergonhada e carente foi um erro! Pensou: ai se eu pudesse mudar a vida... e pensou que talvez não conseguisse. 

Olhou de novo para baixo e viu a terra amarela e algumas copas de árvores, fechou os olhos e não viu mais nada.




(Inspirado em Victou Hugo.)

2 comentários:

Anônimo disse...

Habla mucho de vida y de muerte....demasiado.

Anônimo disse...

Habla mucho en sus últimos escritos de muerte,y siempre ha hablado de falesia...Los precipicios.las caídas....tiene que ver con su bipolaridad.....no se puede culpar la ignorancia y sí la estupidez y la traición....la culpa es una terrible carga....No la intente aligerar culpando a las victimas....no le servira de nada.