domingo, 8 de setembro de 2013

Continho

- Doutor! Eu não sou craqueiro não! Eu até que gosto de uma pingazinha, mas não tomo droga, juro! Esses macacos (ele também era negro) ficam querendo tomar o meu lugar, mas o doutor sabe que eu cuido bem do carro. Não deixa eles estacionarem pro doutor não, por favor.

Ele não era doutor. Sua profissão não vem ao caso. Na verdade...pra falar a verdade, com muita sinceridade, ele vendia crack. Ó, ironia do destino, das coisas. Ele estava cagando se esse guardador de carro, sujo e imundo, tomasse alguma coisa forte. Deu dez reais na mão dele, tomando o cuidado de não encostar na sua pele curtida das caracas de quem nunca tomava banho.

Também estacionava naquela ruazinha de copacabana uma mulher, nos seus vinte e cinco anos, sempre carregando com dificuldade seu violoncelo. Ela tocava na orquestra de algum lugar, estudava com um professor particular, já era profissional, mas quase não dava pra pagar o aluguel, portanto fugia do senhorio dormindo várias vezes por semana na casa do namorado que morava naquela rua. Almejava um dia, quem sabe, ir estudar na Áustria, mas quem sabe...

Um dia o "doutor" traficante apareceu morto junto ao seu carro. Provavelmente coisa do crack. Foi descoberto primeiramente pelo guardador que obviamente não chamou a polícia, embora não tivesse nada  a ver com o assassinato, mas como cautela e canja de galinha não fazem mal, o bom instinto malandro (e isso ele era mesmo) não o deixou querer se envolver.

A polícia logo bateu lá na rua, não se preocupou em isolar o lugar (como nos filmes americanos), e foi interrogar o jornaleiro que possuía a banca bem próxima ao acontecimento. O jornaleiro era um italiano de bigodões que raspava as próprias raspadinhas, que vendia na esperança de algum dia ganhar uma bolada e vender a banca. Gostava de mulher e guardava sempre uma grapa atrás do balção. Seu nariz era circunflexo e vermelho.

Disse à polícia que na verdade não sabia o que havia acontecido ( é claro que ele sabia, jornaleiros sabem de tudo!). Disse que o morto era um sujeito distinto, que namorava uma menina que vivia carregando um instrumento grande e pomposo, bonita e calada. E revelou que ele a traia com o travesti que morava na esquina e batia ponto em frente a portaria de seu prédio, que ficava em frente à banca de jornal. Mas que isso ninguém sabia!

A polícia investigou uma possível tentativa bem sucedida de suicídio, mas no fim das contas acabou dando uma coça no guardador (que nada tina de culpa, mas fedia muito). Bateram tanto no coitado, que ele acabou morrendo. A polícia tratou de depositá-lo numa vala.

Passaram-se uns meses e um inspetor de polícia reapareceu na rua do crime, e investigando melhor os fatos concluíu, através de uma perícia técnica em laboratório, que o morto havia sido assassinado por conjunção de droga misturada com duas sementes de noz-moscada (que dá barato e é perigosa). Pareceu-lhe que sua vida desregrada e seus casos amorosos eram tantos, que o crime acabou arquivado sob a explicação simplória de ter havido vingança de alguma prostituta qualquer, possivelmente o travesti. Este foi autuado e liberado após mostrar o bumbum pro delegado.

Sabe-se que os gatos são felinos muito dados às artes e à música, embora calados e misteriosos. A mitologia que se criou deles é ímpar. Acredita-se que conseguem enxergar o invisível aos seres humanos, e que sua aura traz sorte ou azar, além de possuírem várias vidas - simbolizam os artistas vãos e pobres.

Às vezes, sempre a noite, pode-se confundir o som de alguma gata no cio, num intervalo de oitava musical, em perfeita consonância com a doce e triste fricção de um violoncelo. Dos telhados da rua, misturando-se à maresia que corta o frio de copacabana, alguém resta vivo.



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