terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Muro

Olhava para o céu estrelado e pensava: quantas estrelas olham para mim? Olhava para o Sol e sua pele ardia e pensava: é preciso arder para viver? Olhava para o chão e perguntava: quantas milhas hão de comer meus sapatos? Olhava para seu reflexo no espelho e não via nada demais, e se perguntava: porquê?

De repente o prédio ao lado desmoronou. Sim! Caiu do nada, sem aviso prévio, sem porquê. Apenas desmoronou, e matou umas dezenas de pessoas. Saiu correndo pelas ruas aturdido e pensando em fugir da poeira e do caos que se formara, e correu muito até chegar numa pedra que ficava num cais cheio de barcos ancorados à espera, precavidos contra a tempestade que um dia poderia atacar. 

Não. De que me valem âncoras se posso afundar a qualquer momento? De que valem as estrelas do céu se existem nuvens que podem tapá-las. Assim nunca chegarei ao meu Eldorado. Nunca vou saber o além Finistère, onde possivelmente terei paz de espírito, sozinho, livre das prisões, solto às marés da lua.

Um dedo cutucou-lhe o ombro dolorido. Era um mendigo. Fumava um cigarro idiota, e baforava ao vento círculos como planetas redondos. Disse: - A paz não existe, amigo, ela está no sofrimento dos outros. Veja bem, você é infeliz, mas é feliz por não ter morrido dentro daquele prédio que caiu, e por isso tem paz. A paz não existe, ela só existe aos olhos de quem sobrevive às quedas da vida.

E o amor? - perguntou ao mendigo. O amor? Seguiu-se uma risada cheia de pigarro e com cheiro de atum. O amor é um senhor de idade. O amor não existe, o que existe é a compaixão que sentimos um pelo outro. Só sentimos amor quando nos relacionamos, e nossa relação está inevitavelmente ligada a empatia que sentimos diante do sofrimento do outro. Então só há o amor quando não há paz? Sim! - disse o velho lobo do mar. Você só sentirá amor pelos que morreram no prédio à medida que há a chance de você estar suscetível a que o seu prédio caia também. Mas meu prédio é novo, de última geração, não pode cair, aquele era um prédio velho, sem nem uma reforma. Então disse o velho: - Nunca se sabe...Nunca se sabe... E riu sua risada de mar.

Seguiu pela rua costeira como quem seguia a lua. Há que haver um amor puro! Há que haver o amor sem contágio, sem troca, incondicional! Pensei então no amor filial, e isso me deu felicidade. Esse amor só se tem uma vez na vida, e mesmo assim, nem sempre. Mas há, e redime tudo. Velho bobão, deve ter sido gerado no cais do porto!

Foi cutucado de novo, nas costas. E quando se virou viu que era uma folha que caíra de uma árvore ao vento. É... o amor existe, pois quando meus pensamentos afloram negativamente há uma folha que me acaricia os ombros, e isso me tira todos os pensamentos ruins. 

Neste momento ouviu uma risada. E sentada num meio fio uma velha senhora maltrapilha e louca lhe dizia: - O amor, meu rapaz, é cego. Não há pensamento nele, há apenas a inquietude, e um cordão umbilical. Veja bem: uma mãe sofre tanto para dar a luz que não há outra maneira de amar o filho sem que haja este sofrimento inicial. Só quem sofre ama. Só quem sente na pele a mesma coisa que o ser amado pode sentir amor. É a necessidade de proteção que gera o amor, e essa necessidade vem da compaixão, e compaixão nada mais é do que a empatia entre sofrimentos e pessoas sofridas. Você pode ser amado por um bosta apenas pelo fato dele ter sofrido algo semelhante a ti, assim como pode ser amado por uma mãe bondosa e carinhosa. Perguntou então o homem: - Mas há mães que deram a luz e mesmo assim renegaram seus filhos à sarjeta. E recebeu, de bate pronto a resposta vulgar: - Essas são como eu, amigo. Só lhes resta o meio fio, e sendo essa nossa referência será o que dedicaremos aos nossos próprios, uma compaixão errada, maltrapilha, sujismunda, esgotada no esgoto da cidade. E disse-lhe mais: - Não parece ser seu caso. Procure uma esquina, elas sempre funcionam.

O homem então virou uma esquina e deu de cara com um antigo amigo seu. E depois de muita conversa viu que eram compatíveis pois que este possuía o que ele não tinha, e vice-versa. E seguiram andando em direção do Sol, que alguma hora se revelaria ao horizonte. Deve haver amor nas amizades. Porém não há salvação. Pois o que é o amor sem doação, visto que é fome? E às vezes é preciso mais que palavras, mas o mundo é assim mesmo, pensou. O que se há de fazer...

Se separaram e o nosso protagonista andou, andou e andou até que chegou num muro que determinava o final da linha. Parou, coçou a cabeça e pensou. Pensou tanto que quase voltou atrás a refazer seu caminho de ida. Foi quando viu uma enchada bem grande e forte. Pegou-a e derrubou o muro. Cansado, dormiu. Ao acordar se deparou com mais um caminho a frente a seguir. Seguiu, e já era Sol. 







Um comentário:

Anônimo disse...

Caera el muro de su rencor...si vc lo deja caer...entonces y solo entonces encontrara la paz que busca..