quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Pescaria

Saiu para pescar com a família. Eram cinco apenas: seu irmão, sua mulher, seus dois filhos e ele. Ah, claro! Tinha também o cachorro que se chamava Bumerangue e sempre os acompanhava. Marcaram todos de se levantar às cinco da matina, pois peixe fresco se pega cedinho, com o Sol raiando. O despertador tocou e foram todos acordando e lavando o sono de suas faces, cada um de cada vez. Vestiram-se cada um de cada vez, e tomaram o café da manhã, cada um de cada vez. A casa era pequena e o pouco espaço na cozinha apenas permitia que se cortasse o pão e o queijo cada um de cada vez. 

O irmão não participou desse ritual, embora fosse o mais ritualista de todos. Sozinho na vida desde moleque, chegou sozinho, e bateu sozinho na porta feita de compensado antigo e manchado por mãos e dedos e cabeças. Esse irmão era misterioso e acreditava em muitas coisas diferentes e incógnitas, que ele escondia por trás de um sorriso mudo e inescrutável. Diziam dele que a Lua o seguia, e que o Sol não o batia, e que os peixes o amavam. Vai ver por isso ele pescava tanto, sempre sozinho. Entendia tudo de linha, de chumbo, de carretéis e anzóis encastoados. Por isso só se alimentava de peixinhos. Era esquisito e nunca agarrava os grandes, pois dizia que peixe grande dava varizes nas articulações, além de estragar os molinetes. Mas era tido como pessoa boa, sem maldade, e que cria na alma dos grandes bagres. Muitas vezes havia sumido mar adentro com sua canoa de madeira  boa. E em noites de tempestade quando já era dado como morto aparecia com algum peixe na mão, porta adentro quase arrancada por um chute seu, o sorriso alegre o entregava, apesar de ser um sorriso mudo.

Carregando uma grande caixa de isopôr e uma pequena caixa de pesca, entraram todos no pequeno carrinho azul que os levaria ao pontal de uma praia vazia e limpa. A viagem se deu em duas horas e quando ali chegaram foi realmente um alívio para as crianças e para Bumerangue. Este era malhado, completamente cinza com manchas amareladas. Parecia até pele de peixe, já que pêlo não tinha muito. cachorro velho e experiente sabia o segredo da vida e por isso dormia pouco, por incrível que isso possa parecer. 

Dos filhos e seus pais, especialmente dele, que foi mentor e idealizador desta pescaria, nada se tem a conversar, pois que eram apenas figuras normais e simples, que não acrescentariam nada a uma festa, por exemplo. Seu grande movimento havia apenas acontecido naquele dia.

Varas prontas, íscas preparadas, cada um lançou ao mar, do pier onde estavam, o seu montante de sardinha no anzol. E esperaram. Horas se passaram e nada de algum peixe morder alguma isca. Nem mesmo o irmão conseguira algo, porém seu sorriso nunca desaparecia, pálido e escovado. Seus olhos pareciam brindar.

O primeiro a sumir foi Bumerangue. Mas isso ninguém notou. O segundo a sumir foi uma das crianças, logo seguida pela outra. E já subia a Lua ao céu quando a mulher também sumiu. Logo começou uma chuva fina, e o dono da pescaria, de repente, não se via mais lá. Quando a chuva apertou a maré subiu até o seu ponto culminante. Mas nesse momento o irmão também já havia sumido. Os apetrechos de pesca se encontravam delicadamente bem guardados na caixa de pesca. O carro continuava parado onde havia sido estacionado, como se nada houvesse realmente mudado no mundo, ou na vida da nova manhã que chegava. Se alguém pudesse passar por aquele lugar no determinado momento notaria cinco novos peixes singrando afoitos à direção do horizonte.




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