sexta-feira, 21 de junho de 2013

Sobre as Revoltas 2

Acabei de chegar em casa, e ao entrar no prédio encontrei uma vizinha minha. Uma menina linda demais, nos seus 20 aninhos, universitária, voltando da passeata, que por sinal está pegando fogo neste momento em que escrevo. Conversamos um pouquinho, e ela me disse (rostinho pintado de verde amarelo) que estava na passeata no centro da cidade, até que começaram a cair bombas de gás lacrimogênio e ela e as amigas ficaram preocupadas e decidiram voltar para casa. Fizeram bem.

O brasileiro é um povo de boa índole, positivo, e ingênuo, o que lhe dá forças para aguentar as mazelas dos governos precários. Porém, nunca teve a força, que outros povos tiveram de se rebelar, em massa, contra o poder vigente, e por isso mesmo não sabe fazê-lo, não entende como é isso, e na maioria das vezes é enganado facilmente.

Ao tentar enxergar o momento com um olhar mais crítico e ao mesmo tempo puro, por ser um escritor comum desvinculado de redes que me sustentam, eu consigo achar em tudo o que está acontecendo algo muito estranho e suspeito, embora eu possa estar enganado. Tomara.

Vou dividir este texto em tópicos então:


Revolta


Qual é a diferença entre passeata e revolta? Está no Aurélio!

Passeata:

s.f. Pequeno passeio. / Bras. Marcha coletiva realizada como manifestação pública de alegria ou de reivindicação cívica ou classista.


Revolta:

s.f. Ato ou efeito de revoltar ou revoltar-se, de provocar grande perturbação, de agitar; sedição, sublevação, motim, levante, rebelião: revolta de camponeses contra o sistema feudal. / Rebeldia, insubmissão: todos os seus atos eram marcados por permanente revolta. / Alvoroço, tumulto, desordem. / Perturbação moral, indignação, repulsa, náusea.


Para quem sabe entender português as duas coisas são bem diferentes, embora possam caminhar juntas. Eu leio na internet, ouço de amigos, e vejo pela televisão que o motivo dessas passeatas estão muito mais relacionados com Revolta do que qualquer outra coisa. Afinal, não estamos apenas reivindicando um ajuste de valores dos ônibus, estamos lutando pelos nossos direitos totais, de cidadão, contra uma espécie de governo que peca em tudo desde sempre. Nesta "passeata" há manifestações de todos os tipos e calibres, e confrontos também. O povo exige uma mudança total sem perceber ainda, que uma mudança total significa uma revolução. Grande ou pequena, isso não existe: revolução é revolução, desde que história é história. E essa passeata parece ser muito mais pelo que não usufruímos, desde o início de nossos tempos como nação, do que apenas contra um governo mal-parado.

E no meio desta confusão há quem apoie uma "passeata" pacífica sem saber o real significado do vocábulo; e há quem apoie uma "revolta" quebrando tudo que aparece pela frente. Me parece que os únicos coerentes, para com a idéia de Revolução, são os que tentam invadir instituições públicas. Porém, estes o fazem sem qualquer liderança, quase de forma individual mesmo que em grupo. Então chego ao próximo tema:


Quem e Porquê:


Há, obviamente, algo ou alguém que gerou esta revolta. E isso no momento só pode ter acontecido de duas formas: Internet simples e pura; ou manipulação política, seja ela popular ou não. Se foi apenas pela Internet, ótimo, maravilhoso!, estamos vivendo no Brasil uma revolução ainda maior, com muito mais importância até do que nossa própria carência como povo brasileiro. Estamos vivendo um fenômeno de massa, nunca d'antes acontecido, por ser simples e puramente pela Internet. Abriremos uma nova página na História social do planeta, e seremos os primeiros a derrubar um regime sem que precisemos de partidos, apenas nossa pura vontade e conexão "virtual".  Isso me parece muito louco e improvável - há sempre uma boca por trás de um beijo.

Caso essa primeira hipótese realmente não tenha acontecido, a outra é a de que alguém manipulou ou gerou essa mixórdia toda. Este, ainda manipulando, gerando, ou não, apenas deu o "start".

Nesse caso me pergunto: quem?

As pessoas são muito ingênuas nesse país. Em terras mais antigas, como França, EUA, Inglaterra, Turquia, o povo vai para a rua sob a liderança de alguém. Foco e liderança são duas coisas que faltam nesta situação brasileira. Quando derrubaram o muro de Berlim houve foco. Tanto a revolução francesa quanto a russa, ou até mesmo a guerra civil americana foram eventos de opostos, todos com algum foco. Que o foco do governo brasileiro é roubar a gente sabe. Mas nessa multidão toda há pouco foco. Então eu me pergunto sobre alguns fatos esquisitos que percebi.

Onde estão os ativistas de extrema esquerda? Onde estão os comunistas de plantão?  E os artistas famosos, muitos deles, sabe-se bem, adoram fumar um charuto cubano, onde estão? Nenhum se pronuncia. Há no meio da "passeata" um silêncio tal, que automaticamente a transforma de passeata em baderna. Pois que não há voz falante, portanto não há direção. Onde estão os partidos políticos e suas bandeiras levantadas em riste à multidão? É no mínimo muito estranho uma manifestação política sem partidos! Sinto que o povo enxerga esse fenômeno como algo virtuoso, uma nova realidade onde não precisamos, nem queremos partidos envolvidos. Leio no Facebook pessoas comemorando a sua alienação aos partidos. Concordo em parte. Não existe como numa manifestação monumental como esta a possibilidade de não haver nenhum partido se engajando, tirando proveito ou não. Isso simplesmente não existe! E se está existindo, então estamos ou entrando numa espécie de anarquia, ou inaugurando um novo modelo. Acho difícil! Cadê personalidades como por exemplo o Gilberto Gil, que foi ministro? (bom, aí eu até entendo o rabo...). Mas... cadê o Chico Buarque???? - velho de guerra! Cadê o Gabeira? O PV! Ninguém se pronuncia?


Perigo


Possuo experiência pessoal neste assunto. Muitas vezes pensamos que vamos nos dar bem, que a oportunidade surgiu, mas quem surgiu mesmo foi o oportunista. E geralmente ele não é a gente.

Que a internet é realmente uma caixa de ressonância sem fim é verdade. Mas a partida deste veículo ainda é de muito duvidosa, pois que não acredito em fenômenos completamente expontâneos na internet. Esta é apenas um grande veículo de comunicação, porém há que se dar o velho "empurrãozinho", se não não pega mesmo. É claro que existem exceções onde fenômenos expontâneos acontecem, mas não são de cunho social, e não levam multidões às ruas derrubar um governo sem nem saber que está fazendo isso.

Porque é exatamente isto que vai acontecer. E chegamos ao ponto em que se não acontecer pode ser uma derrota enorme para a democracia e o povo de uma nação. É impossível imaginar mais uma semana de tormentas, simplesmente porque é preciso trabalhar! Um país não pode viver um mês de "passeatas" sem uma resolução completamente pragmática de um dos lados. Se é que há lados! Não sabemos.


Momento e Perigo


Pense bem. Se você tivesse o poder de deferir um tiro deste calibre no governo qual seria a melhor época para fazê-lo? Não seria durante a Copa do Mundo, nem as Olimpíadas, muito menos num momento de felicidade plena de um povo, mesmo que ilusória. Ao meu ver, se eu fosse um rico revolucionário querendo "embadernar" o país este seria o melhor momento: a associação da Copa das Confederações o aumento progressivo da inflação, e a crise mundial nos afetando.

Não chego a conclusão alguma. Porém, sei que os meus amigos neste momento estão tomados pela euforia da reviravolta geral, e com certeza todos, incluindo a mim, estamos cegos pela "luz" da democracia que nos invade e explode, e não vemos quem possa lucrar com isso às nossas custas.


Governo


O próprio governo pode armar um negócio desse. É simples: agitadores "desconhecidos" espetam o povo, a internet e seu poder imenso de comunicação abrem a caixa de Pandora, e o povo vai à rua sem uma ideologia forte e unificada, leva apenas idéias individuais que juntas formam um todo nublado e disperso, porém verdadeiro e sincero. O governo espera o momento em que as revoltas atingem um grau significativo, como por exemplo: a tomada do congresso ou de uma prefeitura qualquer por populares, confusos.  Pronto, decreta-se estado de calamidade nacional, coloca-se os tanques nas ruas e acabou a  festa, amigão. Com tanque na rua não há passseata nem revolta. Talvez na Rússia, ou na França, ou Romênia, mas aqui sabe-se bem que não há. Pois um povo pouco belicoso como o nosso, que se veste de branco e confunde pedir com exigir...não vai para guerra fácil não. E com tanque na rua e um estado de calamidade decretado pelo governo, este mesmo derruba o congresso e institui uma nova ditadura militar. Retrocede-se absurdamente!

Outra possibilidade é a de partidos políticos desconhecidos terem insuflado o povo, na maciota, para derrubar em algum momento a "rainha". Usando o povo, assumem o governo na hora propícia, ou nas próximas eleições sem muito trabalho. O povo perde, porque um governo assim não vai governar bem (se é que existe partido no Brasil que tenha a vontade de governar bem, o que eu também acho que não existe...).


Conclusão


Muitas outras coisas podem ser. Na verdade tudo pode ser. Pode até ser coisa boa. Mas hoje em dia só acredito vendo, e neste caso a gente vai descobrir só no final. E isso, não há que se negar, representa um imenso perigo, pois se a coisa já não é boa, não se esqueça que pode ser pior. Ou não, tomara!

Mas com certeza o que parece que é muitas vezes não é. É preciso muito cuidado nesta hora, e muito ceticismo, e muita reflexão, pois que manifestações não são passeios pela Disneylandia. E uma revolução requer braços fortes, e riscos de se perder tudo que se tem, mesmo se o que se tem já é uma merda. Muitas vezes achamos que já estamos no fundo do poço e o poço é mais fundo. Não sou pessimista, nem cético demais. Acredito em amor à primeira vista. Mas não acredito em vestir o primeiro amor que aparece.

2 comentários:

Ana Murgel disse...

Gostei do seu txt! Tks!

Ana Murgel disse...

Gostei do seu txt!