terça-feira, 28 de maio de 2013

O Soco

O soco saca-rolha? Sei não... O soco pode ser uma violência, mas também é um ato de amor. Ninguém soca alguém que não lhe é importante. Pense bem comigo: a parede não responde, porém quando a socamos socamos a nós mesmos. Sendo o amor e o ódio complementares, qual a diferença que faz nos socarmos ou socarmos os outros?

Há diversos tipos de soco. Porém só um realmente existe. A este eu chamo soco-palavra. Pois não é necessário usar as mãos para socar alguém. Sendo socos, chutes, tostões, lambadas, iguais. Na realidade uma boa cusparada na cara não passa de uma palavra física apenas mais nojenta. Ou não. Socar alguém com a língua pode ser igual a socar alguém com um punho cheio de merda. 

O soco é como dinheiro. Tem que ter lastro. Entenda-se lastro o seu peso em ouro. O soco não vale nada de for à toa. Só deve-se socar uma pessoa em duas situações: soco revolucionário. Este soco é o que exprime revolta sobre algo que foi roubado, tirado à força, como por exemplo nossa liberdade. E o soco em legítima defesa, é claro.

Mas nas histórias dos socos quem está certo? O socado ou o socante? Digo pois: se não for por ato de liberdade, de se arrebentar amarras físicas, e digo bem, físicas!, só há poesia no socado. Mas, pera aí: quem soca ama. Afinal iniciei o ensaio afirmando que o soco é um ato de amor, e um ato de amor é poético.... mas nem sempre! Bom, então minto. Há poesia nos dois, como há poesia em tudo que se faz. Ou não. Será? Há poesia num genocídio? Não!

Vamos pensar assim: você me xinga e eu te amo retribuindo com um soco. Porque a história da humanidade é assim. Nosso amor invertido aceita guerras contra flores. Guerreamos por terras, mas muito mais pela intimidade que nos falta e que nos dói como um soco na alma, e sendo assim nos preparamos em campo aberto, para nos socarmos até que nosso sangue respingado seja como um pacto de hombridade e união. O mundo soca porque espera um dia ter seu amor correspondido.

Mas nada disso legitima um soco. Porque soco machuca, mata, destrói a cara. É uma merda! Mas e o soco moral? Esse dói por dentro, não é? Pede ele uma resposta física de um soco geral? Não. Pra quê? Bom... mas existe a política, meus amigos.... E uma vez um soco bem proferido pode redimir uma pessoa de sua situação atual, ou de seu passado. Pode mostrar uma virilidade, que talvez nem exista, como dizem por aí. Mas com certeza cala as bocas. Neste caso socar não é necessário, é apenas uma "deixa" pra que o sujeito mostre ao mundo que com certeza irá se eleger de novo no mundo dos homens. E sendo assim o socante foi bem ingênuo. Ou também quis aparecer - diga-se: "esperto".

Soco: eclipse solar, palavra de som mudo, socado, cocada dura, amor e ódio. O soco é o inverso da questão. O soco é a forma mais expressiva de diálogo... É?? O xingamento não. Este denota um profundo interesse pela pessoa, enquanto o soco nem sempre representa interesse pela face do socado. Mesmo assim na Bíblia se ensina: "Olho por olho, dente por dente." No caso foi mais: "Palavra por olho e dente por palavra". O que eu não concordo. Bastava apenas um simples "vai tomar no cu e pronto". Mas há que se entender que às vezes não dá. E mesmo não sendo politicamente correto, mesmo os machos eleitos não se seguram sempre, né? E todo mundo sabe: gay é homem.

Eu bem que tentei colocar um pouco de poesia neste texto, mas não deu. Não consigo escrever coisas bonitas a partir de xingamentos e socos. Achei que pudesse, porém descobri que sou muito mais que isso. Entre um soco e um xingamento prefiro o xingamento, eu, passivo ou ativo. Porém, quando penso num hipopótamo morrendo na África, à beira de extinção, me dá vontade de transbordar essa história com risadas. Vejo a pequenez do ilustre socante e do nobre socado. E penso apenas uma coisa: que xingar alguém é tão infantil quanto derramar lágrimas. Nossos direitos são conquistados com elegância e inteligência. Pois sem elas podemos cair no lugar comum dos enjeitados, dos que não possuem clareza nas palavras, e ao mesmo tempo favorecer aqueles que não merecem nosso voto. E quanto ao soco? 

Foi oco.



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