domingo, 28 de abril de 2013

Stonehenge

Num belo dia de verão, quando o solstício passava pela fresta exata de  uma das pedras recém erguidas de Stonehenge, o povo se aglomerava e juntos deslizavam alegremente pelo piso do que viria a ser no futuro, uma das maiores interrogações da história desses mesmos seres humanos.

Cinco mil anos se passaram, e enquanto um louco escreve textos que um dia hão de se perder nas abotoaduras do tempo, carros cruzam uma grande avenida, ao lado de uma lagoa, de uma cidade litorânea que também se perderá em futuras inundações - isso de acordo com um grande poeta e músico que não sou eu.

Na ciranda do mundo o tempo parece mais fluido do que realmente é. E se Aristóteles estiver certo vivemos um sempiterno rodamoinho de fatos, que acumulam as areias dos acontecimentos, porém se repetem de forma causticante e inteligente. Quem poderá olhar diretamente aos olhos do tempo sem que sua cabeça exploda? Se Huxley estiver certo as informações podem realmente matar-nos. Basta olhar fixamente para o azul da cadeira que existe no seu quarto, e verá que somos feitos do pó mais granulado da estrela mais assombrosa que um dia explodiu, e vagou sem direção nem tempo. Tempo é movimento. E acontecimentos são fatos decorrentes de um rio que nunca é o mesmo, e a humanidade se perde dentro desse "quem conta um conto aumenta um ponto".

Não é por acaso que uma velhinha recolhia o cocô do seu poodlezinho nas areias da lagoa Rodrigo de Freitas, perto da Praia do Pinto, que não existe mais. Nem é por acaso que o porteiro do prédio do meu pai  esperava com frescor o leite que seria depositado em sua porta, dentro de uma garrafa de vidro há tempos atrás. Nem é por acaso que um menino anda de skate e bate na árvore ao atender seu celular de última geração com canetinha eletrônica e sensor led especial para tirar fotos profissionais.

Ao som do Led Zeppelin eu cresci e um dia morri. E eis que o mundo girou, girou, girou. E de acordo com Aristóteles, tudo mudou, embora tudo seja ainda igual. A chapa do molde do qual somos feitos, e tudo..., é o monolito que vimos subir aos céus, atirado pelo grande macaco, na brilhante cena revelada pelos insanos olhos de Kubrick. E assim, cientistas hoje vasculham e adivinham os restos do que um dia foi o inescrutável Stonehenge, na Inglaterra de hoje. O que terá sido tamanha obra? Um templo? Um enorme calendário solar? E apesar de dezenas de documentários encomendados para a programação televisiva, a conclusão nunca existirá. Mesmo que reste geneticamente dentro de nós, como parte integrante de nosso folículo mais importante, e que Freud pensou ser, a memória inconsciente.

O tempo passou, e agora eu estou morto mesmo. Meus amigos também, assim como meu carro, minha bicicleta, minha casa, os Futuros Amantes, e todas as árvores centenárias do leblon. Muito tempo se passou e o planeta teve que mudar; o universo teve que andar para a frente algum centímetro a mais de Deus. E a Terra não é mais a mesma, após milênios, desde que a última pedra do calçamento de copacabana existiu. Novas flores cresceram e tomaram o planeta, novas montanhas surgiram de colapsos tectônicos, novos seres prosperaram, enfim a vida tomou seu rumo sempre diferente e inovador, mas eu não sei qual é, pois eu estou morto. Mas meus restos evoluíram.

No colapso que houve dessa civilização, quase tudo desapareceu. As provas se mantiveram incólumes em fósseis e digitais protegidas por âmbar. E realmente muito pouca coisa restou que olhos conhecedores pudessem  identificar.

Porém em meio à catástrofe sobraram as ruínas do que um dia foi uma pista perfeitamente redonda, construída com cimento armado antiquíssimo. Rodeada por uma armação de pilastras de concreto que se ligavam perfeitamente formando, como dizer... uma espécie de proteção a essa "pista", que existia bem no centro. Sendo que as pilastras, hoje cobertas de nenhuma vegetação, talvez um dia sustentassem flores, e plantas exóticas, acredita-se... Esse suposto "muro" de pilastras deixava uma abertura como que uma entrada para a magnífica pista, que apesar de sedimentada pela erosão não parecia ser completamente reta, mas sim formada por um centro perfeitamente medido em seu diâmetro, e possuindo um ângulo descendente de uns 10 graus. Seres remanescentes e evoluídos ainda vasculham este enigma, em profusão. E cobram entrada dos visitantes - é claro.

Aqui vai o mais recente diálogo revelado por fontes discretas sobre esta última descoberta do templo há milênios identificado, e que pouco pôde revelar da sua real função original:

- Professor, encontramos algo escondido há uns quatro metros de profundidade bem nas cercanias do templo!
- Mesmo? Deixe analisá-lo...
- Sim, mas cuidado, o material é grande, está fossilizado, porém é frágil.
- Sempre tratamos com cuidado, deixe ver melhor...
- Aqui está!
- Hummm,  é uma grande descoberta... com certeza algum artefato de guerra, ou de característica religiosa, possivelmente utilizado em sacrifícios humanos dos antigos...
- É... mas o que mais me intriga, professor... é essa palavra totalmente desconhecida aqui no canto. Consegue ver?
- Sim! Provavelmente o nome de um deus: Skate!










Um comentário:

Isabela Candeloro Campoi, disse...

Eu sempre penso que se esses arqueólogos do futuro encontrarem sapatos femininos de salto alto, desse atuais e horríveis, vão concluir que foram verdadeitos instrumentos de tortura...rss