sábado, 16 de março de 2013

Turbilhão

Eu sou uma tecla de piano. Eu torço para que, durante o imenso conserto da existência, as mãos da vida me  teclem pelo menos uma vez a cada compasso. Mas... sabendo que isso não é possível, eu espero que pelo menos me percutam algumas vezes durante a música. Se puder ser no adágio, melhor. Adoro adágios.

Eu sou uma pedra no meio do caminho. Na verdade...(ai que vergonha) na lateral de um parque. Quase saindo da grama mesmo, tocando o barro. Uma pedra sem valor. A única graça é me sentir bem quando alguém tropeça em mim. Mas isso é raro devido à minha localização tão periférica. Mesmo assim uns padres desavisados de vez em quando vão de cara ao chão por minha causa. Demora para aparecer alguém, mas quando aparece eu me aprumo! Dou logo uma banda de ladinho. O tombo é quase certo. Isso porque eu sou pequeno, imagine se fosse um paralelepípedo pontudo? Aí eu me fazia!

Comecei como uma tecla bem aguda, lá no cantinho do piano...era um Ré. Nunca era tocado. Minhas chances de evoluir mais ao centro do piano, região nobre, eram poucas. Minha alma parecia estagnada naquele som que mal durava uns três segundos. Já não cultivava esperanças...quando de repente um negro sentou naquele piano de armário e tocou um Blues! E eu lá sabia o que era um blues? Ninguém sabia o que era um Blues! Só os cristais de algodão, só as fagulhas da noite, o cheiro do fumo mal fumado, e as encruzilhadas. Mesmo assim, ninguém havia tirado um Blues no piano ainda. No violão de aço, velho e pobre, sim. No piano não. E aí veio aquele negro e ficou uns dez minutos fazendo uns solos percutidos no canto onde eu estava. Você tinha que ver! Os brancos nem acreditavam que ele conseguia tocar sem ler. Tocar sem ler? Era quase uma afronta para a época! Era revolucionário. Algo como andar sem rumo certo, sem certeza, abraçando o risco, podendo errar, e daí inventar, improvisar, solar! Era como se atirar de uma falésia. E assim fui sendo mais solicitado e acabei no centro do piano. Minha alma evoluiu por obra do acaso. Se aquele negro não tivesse decidido tocar qualquer coisa naquele piano velho da plantation home, eu ainda seria um marfinzinho de nada na periferia do móvel.

Um dia um menino passou por mim e resolveu me chutar. Porra! Eu que chutava, né? Agora vem um carinha e me chuta! Fiquei puto... Mas aí eu vi que ele me chutou com intenção, não foi à toa. E eu me deixei rolar, e fui rolando e aí apareceu outro pé, e quando eu percebi tava no ar, indo de pé em pé, como num parque de diversões. Eu passei a ser diversão, entretenimento. Inventaram um jogo de mim. Fiquei famoso por acaso. Como é a vida hein? Não sou mais pedra, agora sou ar, vento revestido de uma couraça, de uma pele forte. Não vivo mais parado na periferia, ao contrário, me botam sempre no meio do jardim. Como são  erradas as oportunidades, hein? 

Eu sou forte. Ninguém me atinge. Me transformo no que eu quiser. Eu fiz um pacto com Deus de nunca fazer pactos. Eu sou claustrofóbico, amigo. E não tenho sangue de barata. Minha mão é de pedra, e minha voz é de música. Sou o som infinito de uma ária. Eu te prendo em minha teia e sugo o seu olhar. Minha poesia é forte. Minhas palavras são de verão. Sai fogo do meu nariz, mundos dos meus dedos. O meu violão é um furacão.

O turbilhão 
O turbilhão deu
O turbilhão deu a mão
O turbilhão deu a mão e anotou
O turbilhão deu a mão e anotou seu telefone
O turbilhão deu a mão e anotou seu telefone e desenhou
O turbilhão deu a mão e anotou seu telefone e desenhou uma escada
O turbilhão deu a mão e anotou seu telefone e desenhou uma escada levando
O turbilhão deu a mão e anotou seu telefone e desenhou uma escada levando ao turbilhão.

Entendeu a brincadeira? Vai subindo as frases... legal né?

Eu era uma letra. Não servia para nada. Um dia uma criança me pegou e me ajuntou com outra letra. E depois que acabou, me ajuntou com outra. E depois que essa criança compreendeu tudo, me ajuntou com nada. Me repartiu todo e me devolveu a ser uma letra solitária. E aí eu vi que havia ocorrido uma mudança em mim. Eu me transformei numa palavra. A palavra mais simples que há - um artigo. A criança então levantou e foi brincar com suas peças de montar. Sem saber que havia me gerado. Pois que hoje eu sou poesia. E assim começou o turbilhão do mundo.



9 comentários:

lolo diaz diaz disse...
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lolo diaz diaz disse...
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lolo diaz diaz disse...
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lolo diaz diaz disse...
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lolo diaz diaz disse...
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lolo diaz diaz disse...

Se enreda en cosas banales...

june maria disse...

Que baixaria é essa?

lolo diaz diaz disse...

Seguiremos denunciando....june maria utilice solo su imagen...la de su hijo es bastante grave q la utilice..

june maria disse...

Até aqui a pastora querendo me dar lição de moral? Hei, coisinha! Não me sugiras nada... Mesmo porque não escutas o que te peço, não é mesmo? Não falei para ires cuidar da sua vida e parar de borrar a existência alheia? E porque eu seguiria seus conselhos se ages com tanto dolo? Realmente não consigo imaginar mell sell na sua cola como queres nos fazer acreditar. O que estou vendo é uma vagal irritada por não ter sido correspondida. E ainda confundes esse poeta do povo com Selton Mello? És muito doida mesmo!!! Achas que é Selton o cantor solitário que quer ser abusado por uma linda mulher? Quem dera...