sexta-feira, 22 de março de 2013

Costas

Porque será que a linha do mar é chamada de "costa"? Será que é porque os portugueses quando partiram vendo sua terra para trás a nomearam de acordo? Ou será que desprezaram terras além ao deixá-las cada vez mais longe da saudade de suas próprias?

Porque será que uma praia é vista como a parte de trás de alguma coisa? Porque não a parte da frente? Não seria mais normal, já que é esta a parte que recebe o visitante? E que também se despede de frente, não é?

Talvez para esses o oceano fosse realmente sua casa. Pois que a certeza da volta era quase que nula. E o mar... ah, o mar! É como o espaço. Indefinido, incompreendido, desconhecido. Alvo de metas e poemas, um desafio da física e da nossa história espacial. Afinal a Terra é bem menos que o Mar, que ocupa grande parte, e que se deixarmos tudo há de ocupar.

Mas também, que afronta foi essa desses homens burros ao considerar o que tinham de palpável de "costas". Parte traseira que não se olha muito, apenas de deixa. Como se deixa uma velha mãe que não serve mais para nada... Deixa-se e nem se olha para trás. 

Se o mar fosse realmente lágrimas de Portugal, o que seria a Terra?

Às vezes minhas costas doem quando eu durmo muito e acordo tonto. Minha cama é dura como a Terra. Nossas costas sempre melhoram quando imersas no mar. O empuxo nos liberta de nosso próprio pesar, não é isso mesmo? Sou péssimo em física, mas se fosse o primeiro marinheiro a avançar em terras de além-mar eu dificilmente as chamaria de "costa". Porque não "linha fronteira"?

O mar sempre me libertou. Uma cidade sem mar é como uma prisão. Há uma redenção em simplesmente encontrar o fim de alguma coisa. É o lugar para onde a vista de esvai. 

Há areia no seu olhar, porque seu olhar é linha fronteira do que virá. Seus cílios devem ser guarda-sóis, e sua pele areia. A neblina, que existe quando olha, com certeza é feita de maresia, e a retina, ah....a retina! por onde navios chegam trazidos por nuvens.  Acredito que alguém venda Mate Leão em sua brancura, porém acho que você gosta mais do velho Dragão Chinês. 

Mas o mais importante, o que mais cativa, são as brumas. Dizem que elas vêm do mar. Mentira. Brumas sempre vão, e só vão quando há maré. Nelas eu monto minha jangada, e me arrebento em suas costas. 



Um comentário:

Daniella Caruso Gandra disse...

Muito bom, Alan! Você escreve muito bem, parabéns pelo belo texto.