quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Vou te contar...

O adolescente é um sujeito confuso, até porque ainda não é um sujeito formado. Mas é um ser-humano. Hoje passou em minha memória um halo de nuvens, que me embriagaram a alma, e trouxeram da lama recordações de situações percebidas nos meus tempos. E é justo perceber que lama não é um anagrama de alma à toa.

Lembro de um menino que um dia, pegando um ônibus circular, indo para sua escola no bairro de botafogo, encontrou no meio daquela multidão assardinhada do ônibus, maioria composta de moleques travessos e barulhentos, o grande amor de sua vida. Estava ele a apenas uns dois metros da  menina mais linda que havia visto em sua vida em recém desenvolvimento. Trocaram olhares, e no final um sorriso de pena, pois não saiu de seu coração a coragem necessária para vencer sua timidez e mostrar ao mundo, de um ônibus, que amava aquela menina, com toda a força de que possuía - sua alma ainda virgem . E sendo assim, teve que vê-la saltar do ônibus decepcionada. Uns dois meses se passaram e, na mesma linha, a encontrou. Teve coragem, desta vez, saltou do ônibus num ato digno de um Perseu, mas ela já não se lembrava dele. 

Como é injusta a memória das crianças. Como é fútil e rápida a psiqué de quem ainda se encontra em ignorância vital. Ao contrário, como envelhecemos e nossas lembranças são capazes de puxar remanescências tão longínquas como a deste menino. 

De que vale a melhor fase da vida, se o menino não soube aproveitá-la. Por isso mesmo, eu digo que um dia terei noventa anos e me divertirei distribuindo gestos obscenos às garotinhas de 15 anos do metrô. Hoje nós somos este menino.

A alma continua seus devaneios, e as nuvens que me surgem , parece, surgem de Plutão, de Vênus, de "fogs" ingleses, onde continuo vendo esse pobre menino a vagar por praças empoeiradas de véu frio e quimérico. Vejo então esse menino vagar a cidade toda, sem o medo natural dos velhos e precavidos, por uma Londres escura e medievalesca,  a procurar aquilo que não se deve procurar, apenas nos livros e poesias.

E vejo esse menino ser ludibriado por taxista inglês, e cair de bobeira numa boate, entrar na boate, e no meio de imensidão das diversas nacionalidades estudantis, se deparar com outra menina mais linda que a primeira. Cabelos negros, olhos da cor da purpurina mais azul e brilhante, vir em sua direção, quase encostar a boca em sua boca, esticar um braço, uma mão em sua direção, e em questão  de segundos, sumir quase como um sonho, ou seja: foi um sonho.



E ainda vejo esse menino vagar pela garoa da cidade mágica, entrar numa casa de shows eróticos e dar de cara com uma prostituta adornada por um colar de sua religião, que revelaria apenas através de formas e brilho, toda a sua história de vida, jogar o cordão para trás do lindo pescoço, e simplesmente enrubescer ante uma pergunta adolescentemente mal feita.

O adolescente cresce e tudo o que ele vê são dívidas e sonhos despedaçados. Na estrada da vida, nossa alma ao mesmo tempo que vai crescendo, vai desintegrando pela estrada, pedaços importantes de nossa história que não importam tanto mais. E ela vai diminuindo ao mesmo tempo que cresce. E vai assentando, seja com remédios, ou com filosofia. Mas aprendemos muito mais a ser macacos do que homens. Mais simples. Mais árvores, mais "zen". É importante que as coisas cheguem à gente, e que nosso poder uma vez limitado pela timidez, parte a ser limitado pela experiência adquirida de esperar o momento certo. 

Nada funciona no momento errado. E existe ciência em Las Vegas, quando você joga um par de dados e ganha - pode ter certeza. O destino é apenas o nada conspirando pelo tudo. E quanto antes aquele menino aprender que a oportunidade está no calor de suas mãos, ou invés da purpurina da menina, mais ele será sábio e controlador de seus atos. E que vamos findar, mas a linha 511, que vai para a Urca, vai continuar passando, e passando e passando, inexoravelmente até o fim dos dias...

E que esse menino um dia sonhou um sonho inesquecível. E que dentro deste sonho havia a mulher de sua vida. Com toda sua descrição física, psicológica.. E que durante anos e mais anos, como um ônibus da cidade, traçou linhas em seus penamentos, e não se sabe se ela foi a "vontade" ou foi a "razão". Nem se sabe se ela existiu. Mas com certeza existiu. Assim como tudo que nos move e nos influencia existe.  E que talvez, inevitavelmente ele nunca a encontre, embora ela esteja lá, em algum lugar de seu universo platônico e poético. Esperando por um dia em que sonhará de novo a razão da sua alma purpurinada.

Vou lhes contar uma história, uma história para se lembrarem...

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