terça-feira, 24 de julho de 2012

O Tiro de Carlos

Carlos trabalhou o dia inteiro no seu projeto. Por ser um projeto apenas seu, Carlos passava muito tempo sozinho. Em sua solidão havia poucos dias em que realmente encontrava alguém. Tinha alguns amigos bons, mas todos trabalhavam em projetos solitários e sofriam do mesmo mal. Era um mundo sozinho e vazio aquele.

Mas de vez em quando Carlos se encontrava com alguns de seus amigos pra bater papo, jogar um poquerzinho, beber, falar de mulher, e sair de sua solidão. Neste dia Carlos se divertiu até umas três horas da madrugada, bebeu pouco, o suficiente para relaxar e entender melhor a vida. Depois despediu-se de uns e outros e pegou um taxi acompanhado de alguns amigos. Iam estes para a zona sul, e Carlos morava no catete, e como era caminho dos três, rachavam o taxímetro, e assim saía mais barato e confortável para todos. Carlos era sempre o último a saltar.

Pegaram um taxista meio rabugento, meio fortão, desses que parecem lutar jui-jitsu nos fins de semana, e acompanhar lutas pela TV, e bater na mulher. Seguiram os amigos no taxi (mais o motorista rabugento), e um a um foram ficando em seus devidos endereços. Sobrou Carlos, que ia para o catete.

Carlos pensando no tipo de pessoa que talvez fosse o motorista, tentou puxar uma conversinha besta com ele, só por curiosidade. Como um bronco reagiria a uma pergunta insignificante, como por exemplo: "esse sinal tem pardal, ou os outros também?". É claro que o motorista respondeu, com o seu jeito ríspido e rude de quem na verdade preferia estar levando travestis no banco traseiro ao invés de um "nerd" como Carlos.

Finalmente chegaram ao seu endereço no catete, onde Carlos deixou um real a mais de gorjeta ao taxista, não se sabe se por pena de sua condição, ou se por síndrome de Estocolmo. Saíu do taxi, e foi embora, andando na direção de seu prédio onde esqueceria toda aquela noite num sono profundo.

A verdade é que o fim da história não se deu bem desta maneira, não. No meio do trajeto, Carlos fez uma pergunta retórica e pueril ao taxista, que não perdeu a oportunidade de ser áspero e curto em sua resposta. Era a tal pergunta sobre os pardais da cidade.

Porém, numa curva final, alguns quilômetos antes do taxi chegar ao seu destino, Carlos mirando o corpanzil sarado e superficial do motorista, abriu a boca e fez a ele uma singela pergunta: "Amigo, estou vendo que você é forte e saudável. Quem sabe, se você não estiver afim poderíamos estacionar o taxi em algum lugar. Você topa?"

O motorista ficou meio embatucado de primeira, mas logo depois fez brotar um sorriso em seu rosto, e respondeu: "Quer dizer que o magricela gosta de se divertir com taxistas? Interessante... porque não? Estou bem precisando de uma 'mulherzinha' mesmo."

O tom sarcástico da resposta soou engraçado a Carlos, que apenas respondeu com um "sim" audível e assertivo. Finalmente o taxi pegou um atalho mais escuro, e parou numa ruazinha de paralelepípedos do catete. Saíram os dois do carro, e na hora em que o taxista começou a abaixar o zíper da calça, Carlos puxou um revólver 38 e encheu o cara de balas. Descarregou o revolver todo no pau do sujeito, que gritou, caiu, e agonizou por apenas uns dez minutos antes de morrer.

Carlos então guardou o revólver no meio da calça jeans apertada, cuspiu no sujeito, e foi andando calmamente em direção ao ponto de ônibus. Será que às três e meia da manhã haveria algum ônibus para algum lugar?


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