terça-feira, 17 de julho de 2012

Mosquitos

Toda a vez que eu mato um mosquito, e o jogo no vaso sanitário, nunca mijo em cima dele - sempre dou descarga antes. Mato o mosquito, mas não o humilho. Sei que ele já está morto, boiando sobre a água clara, e acho que isso basta. Ao fazer alguma necessidade em cima dele sinto que o estou aviltando. Sinto que ele, não podendo reagir, cabe a mim dar um fim digno ao seu destino de mosquito insalubre.

O Rio de Janeiro está infestado de dengue, e de mosquitos. O mosquito não tem culpa da dengue. Se pensarmos bem, ele nem sabe que pode carregar dentro de si um vírus maligno ao ser humano. A função natural dele é picar, e picar pra se alimentar e sobreviver. Coisa mais natural que esta não há. Porém o vírus age da mesma forma. Nenhum ser se alimenta de forma bonita. Temos sempre que matar algum ser para sobrevivermos. Seja uma cenoura ou um boi. Claro que dói mais matar um boi, pois o boi é quase humano, e muitas vezes melhor, até. Já uma cenoura, acredito eu, pensa junto com o universo, mas não tem a consciência disso.

Nem a cenoura, nem o boi fazem mal a mim. Na verdade, sou eu que faço mal a eles. Mas os mosquitos que me picam fazem mal a mim, e vivo em guerra contra eles. Até já desenvolvi uma arte-marcial para vencê-los na luta. Não, não é brincadeira, nem sou doido. Talvez só um pouquinho. Eu uso um livro fino e largo como uma revista. Os "Asterix" são os melhores. E desenvolvi uma técnica de chapar o mosquito em qualquer lugar onde ele possa estar. Se estiver no teto me olhando e rindo de mim, eu arremesso o livro e chapo o bicho lá mesmo. Minha mira e precisão estão evoluindo com a prática. Meu grau de acerto é de 90%. Sou bom em chapar mosquitos. Os mosquitos que não me picam, que apenas passeiam por aí, eu os deixo em paz - não me interessam. Agora...os que querem meu sanguinho eu não perdoo.




Já o governo do Brasil pensa diferente de mim. Me parece que este governo ao invés de matar o seu povo, apenas faz xixi em cima dele. Na hora da descarga apenas joga uma aguinha pra dar uma afogadinha de leve, e aí mija mais ainda na cabeça do povo. Não nos matam, porque não interessa (votos! votos! votos!). Isso é óbvio em qualquer lugar. Governo sem povo não subsiste.  A questão é que governo não foi feito para subsistir, governo foi feito para governar. E nós não deveríamos ser mosquitos. Quem nos suga é o governo-mosquitão.

A presidente vai à televisão dizer que o que importa é a educação e o conhecimento, e não o PIB. Então me expliquem... Para quê o governo possui uma super reserva de dólares acumulada, que não se usa para nada a não ser "ajeitar" o seu câmbio de acordo com os interesses dos exportadores, e manipular uma inflação baixa e falsa às custas da pobreza do povo (quem entende de juros sabe do que estou falando)? Claro que exportações são importantes sim. Temos que exportar. Mas o salário dos professores continua o pior, a educação nas escolas é péssima, as universidades formam idiotas em vez de elites diversificadas. A violência urbana - traço indiscutível da falta de educação arraigada num povo ignorante - é imensa neste país. Não apenas em áreas urbanas, mas em todo lugar. O norte/nordeste do país vive ainda o faroeste americano. E tudo nunca esteve tão caro quanto agora.

Eu saio às ruas e só vejo mediocridade a se espalhar por nós. Enquanto isso o governo segura o povo com bolsa-família e mentirinhas populistas. A verdade é que o mundo está mudando rapidamente e quem não mudar com ele tenderá a afundar. Ao nos enganar com retóricas que formam uma opinião errada sobre as coisas, estão na verdade mijando em cima de nós - pobres seres humanos do tamanho de mosquitinhos. Apenas carregamos o vírus da sorte na barriga, e mais nada.

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