segunda-feira, 4 de junho de 2012

A carta do baralho

Era uma estrada. Não podia-se dizer se era de pedra, de piche ou de terra. Era escura e sem iluminação alguma, como o vento que nos leva e nos traz. Essa estrada levava e trazia os incautos errantes, séculos após séculos, não possuía serventia, pois de lugar algum chegava, e para lugar algum levava. 

Não havia paradas. Nem restaurantes de beira, nem bombas de gasolinas abandonadas, nem casas, nem rasteiras, nem árvores, nem postes, nem cidades. Havia neblina. Uma neblina grossa que vagava pela frente, pelos lados, e pela retaguarda de quem seguia. Não era uma neblina normal. Era uma neblina que não invadia a pele, apenas à visão de quem olhasse, a um metro do olho.

Vaguei muito por essa estrada. Caminhei a vida por estas andanças. Em alguns momentos pensei pisar em cascalhos. Em outros momentos tive a impressão de que me atiraria de um penhasco. Porém, nada acontecia, realmente. A estrada parecia me encaminhar. E embora meus pés cansados andassem, pareciam não avançar, e minhas pernas pareciam não existir mais, e meus olhos não ter função. Eu vislumbrava o sonho, apenas o sonho, e a única coisa que me mantinha era meu cérebro (que era imaginação) e um velho lampião que eu carregava há anos numa mão sempre levantada, na esperança de que pudesse de cima iluminar a  vastidão do meu "nada" obscuro - a fibra da neblina de uma noite sempiterna.

De repente não pude acreditar em meus próprios olhos possuídos pela catarata do vento: uma luz! Uma minúscula, mas real luzinha brilhava como uma estrela no fim (???) da estrada. Via que ela piscava amarela, como a minha devia piscar a alguém que estivesse vindo em minha direção. E foi isso que percebi à medida que me dirigia à luz. Minha história já não pertencia à estrada, e sim à luz. Que luz! Que luz seria aquela, e de quem, ou do quê? 

Um medo tomou conta de mim o quanto eu me aproximava da luz. E quanto mais ela crescia mais eu tinha a certeza de que era outro. E quando enfim depois de meia hora de caminhada, já não mais solitário, eu pude fincar pé a uns três metros da outra luz, foi como me ver num espelho. A pessoa carregava um lampião exatamente como o meu, e cobria-se de uma grossa malha amarronzada pela cor e pelo pó do caminho, e o mesmo capuz caía-lhe por cima da cabeça cobrindo parte dos olhos. Éramos como monges sem visão, numa religião que dava voltas e não atingia lugar.

Por minutos, que me valeram como horas, nós dois paramos em frente um do outro... pela primeira vez em nossa jornada, acredito eu. Nosso cumprimento foi nosso reflexo, pois éramos iguais, irmãos de sina, carregando nossos lampiões com os mesmos cacoetes, mesmos trejeitos, mesma força inabalável, embora nossas pernas tremessem de cansaço, iguais.

Ao mesmo tempo, por algum instinto mental inexplicável, nós dois olhamos para baixo, e encontramos em nossa frente, no chão, um baralho. Nós dois descemos o braço ao mesmo tempo, de forma igual, e seguramos, os dois, o baralho em nossas mãos. Lia-se nesse baralho serem cartas de Tarô.

Ao mesmo tempo, com gestos impressionantemente iguais, como um espelho, sentamos no solo do caminho, e retiramos uma carta do baralho, a qual demos um ao outro, num gesto amigável e sabe-se lá o porquê!

Incrivelmente as cartas que saíram para cada um eram exatamente a mesma carta do Tarô. Era a carta que representa o Ermitão. E essa carta era desenhada com a figura de uma pessoa completamente vestida de trapos marrons, como um sobretudo velho, monástico, e sua face era coberta por um capuz sujo, e enquanto um dos braços carregava uma bengala de madeira, o outro erguia-se segurando um lampião exatamente como o nosso.




Mas meu cérebro, neste momento, sentiu a falta do cajado de madeira, que incrivelmente eu não possuía. Nem eu, nem a pessoa, exatamente igual a mim, sentada à minha frente. Foi quando de repente senti a mão do outro segurar com firmeza, não força, mas firmeza, o meu pulso dolorido. E nesse momento, como por instinto maternal, que não era o meu, segurei também, com o outro braço,  o pulso da pessoa à minha frente. 

Foi quando entendi que para esta pessoa eu era o cajado, e que para ele o cajado era eu. E foi então, tocando-lhe a pele macia de sua mão, que percebi que o outro era uma mulher.



5 comentários:

Carol disse...

Ahhh o Ermitão! Surpreendente o final! :)

Anna Jô disse...

Queria eu ser essa pele de mulher...

Oi Reticências disse...

Muito Bom!!!!!

Unknown disse...

Gostei do final...........

Anônimo disse...

Lindo!!!!! Como seus textos mostram quem você , fico impressionada como você consegue transpor isso...um beijo no seu coração...