sexta-feira, 8 de junho de 2012

Bomba Atômica

Tem vezes que a gente se sente como um pára-brisas de carro, no meio da chuva branca. O vidro sujo, esquecido de ser lavado, acumula a incapacidade de visão. Tem vezes que a gente se sente uma bola de futebol, sem trave nem gol, nem chute, nem couro, de plástico, numa gôndola de um super super mercado, esperando...

Tem vezes que a gente é um sonho, e nossa vida é barata demais, e nossos caminhos impossíveis de serem explicados dentro de uma concepção humana. E as personagens que nos cercam são mutáveis, hora uns , hora outros, e tudo faz sentido, mas quando acordamos nos esquecemos de tudo.

Ontem ouvi um barulho fosco, mas incisivo e rápido vindo de dentro do armário, e na minha cabeça, cheia de arquivos, a primeira coisa que pensei foi "terremoto"? Reminiscências de Los Angeles, onde minhas paredes estalavam com motivo. Mas desta vez foi apenas o meu violão estourando uma corda à toa. E me pergunto, sempre que isso, raramente acontece: haverá algo de místico nisso? Será que meu violão, profundo conhecedor de mim, tenta me avisar de algo que nunca saberei o que é?

Acho que ele apenas me lembra que sou como uma corda de violão pronto a estourar a qualquer minuto. E eu me sinto como uma palheta no fundo do "case", esperando um uso, tendo seu dono um sujeito que não é guitarrista, e ela fadada a nada.

As vezes sinto que sou os livros de poemas de meus amigos, cúmplices. Sempre que abro um me dá vontade de fazer uma música pra eles. Sou minha música, que é alguma coisa, embora nunca ouvida. Sou um ouvido surdo. Uma palavra não conjugada. Sou o esperanto.. Às vezes sou a puta que pariu. Sou a gravidade dos erros, e dos acertos. Me atraio por bobeiras e por validades, porém mais por esperanças.

Nosso tempo é tão funesto que sou uma borboleta numa crônica do Rubem Braga, vagando pela cidade, e tendo apenas um dia para aproveitar a existência.

Tem vezes que sou aquilo que quis ter e não tive. Não somos isso, todos nós? Sou uma poesia levitando no piche. Um dia uma bomba atômica invertida há de me resgatar.


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