quinta-feira, 21 de junho de 2012

All You Need Is Love

Um homem grisalho de uns cinquenta anos de idade saiu de casa na direção de um compromisso de trabalho no centro da cidade do Rio de Janeiro. Morava em Botafogo, perto da estação, e seguia tranquilamente à estação do magnífico trem subterrâneo. Parou numa banca de jornal, comprou um amendoim, parou num boteco onde comprou um cigarro, e desceu as escadarias em direção ao guichê. Totalmente tranquilo e sem pressa era essa homem. E de acordo com o que era assim ele seguia.

Esperou o metrô pacientemente durante os 20 minutos que este demorara para chegar. Na parede uma propaganda avisava sobre as inovações da firma concedida pelo Estado - a Metrô Rio. Enquanto isso o povo ia se aprumando ansiosamente ao seu lado. Todos esperando o trem que os levaria a destinos traçados na parede da estação , embora tão únicos e diferentes.

Finalmente o trem chegou, abriu as portas, e foi logo preenchido pelo povo, que quanto mais trabalhador, mais dependente era. Mesmo assim, houve um espaço de uns 5 minutos até que as portas se fechassem e o trem desse início à curtíssima viagem ao próximo ponto, e assim em diante. A turba claustrofóbica se aliviou quando finalmente o trem começou a avançar.

Mas nosso amigo estava tranquilo. Seu dia começara bem, as coisas prosperavam, e seu amor era seu. O dia era de Sol, e a Lua havia de comprar-lhe um vinho mais tarde. Tudo, portanto, andava dentro dos conformes em sua vida de bem estar, boas finanças e poucos queixumes. Sua mulher não reclamava, e não lhe pedia mais do que beijos, reais ou irreais. Na altura de sua vida, de quê isso lhe interessava mesmo? Era um mundo de vídeo-games mesmo!, pensava, enquanto o trem já ultrapassava sua terceira estação em direção ao centro da cidade.

Quando o trem abriu as portas na estação da cinelândia (ele ia para a Carioca), de repente o seu celular começara a vibrar no bolso de seu paletó. Pasmem! Ele não podia acreditar. Era a sua prima dizendo que estava acompanhada de seu irmão, dentro de um carro, engarrafados perto da estação da Carioca, e que seu irmão estava se sentindo mal, e que seria provavelmente devido a um ataque cardíaco, pois ele sofria dessa doença. Ela desesperada dizia não saber o que fazer... que ele por favor chegasse logo acompanhado de alguma ajuda, porque ela atônita, se encontrava paralisada, e que ninguém parecia querer ajudar.

Foi nesse momento que P. percebeu que o trem já se encontrava parado há mais de 5 minutos na estação, na esperança de que mais "clientes" descessem e rendessem mais lucro ao governo. P. então começou a suar, sua pressão começou a subir. Ele que não era cardíaco, mas amava seu irmão, saiu completamente de sua tranquilidade, e apenas podia esperar que o trem andasse logo, pois faltavam apenas duas estações até a Carioca. 

Finalmente o trem fechou as portas e seguiu à próxima. E nesse instante P. notou o quão vagaroso o trem fazia seu trajeto. E finalmente quando o trem chegou a penúltima estação, P. achou que conseguiria chegar a tempo. Mas foi aí que P. sentiu de novo que o trem abrira as portas apenas para embarcar alguns poucos passageiros, e que não as fechava, visando esperar mais! "clientes". Isso começou a demorar DEMAIS!

Nesse momento o seu celular toca de novo, e é confirmado o ataque cardíaco de seu irmão. Fez-se uma multidão em volta do corpo, que lutava por oxigênio, enquanto policiais, calmos, e meio que alheios à situação, tentavam entrar em contato com algum corpo de bombeiros.

 E o vagão ainda não se mexera... E dentro desta situação limite, onde o pensamento invoca apenas a revolução e nada mais, P., cansado de esperar, e totalmente furioso com o transporte "mais rápido da cidade", não se conteve um minuto. Começou a bater na lataria do veículo, que ainda mantinha suas portas abertas, e gritando feito um louco, vislumbrou ao longe um rosto , refletido no espelho do maquinista. Eram olhos embaçados. Sem entendimento, sem compaixão, sem informação, sem profissionalismo, olhos humanos. 

P. então saiu correndo do trem em direção à cabine de comando, pensando implorar que o trem (pela-mor-de-Deus!!!!) andasse pois seu irmão estava morrendo!!!

Pois foi no meio de sua correria, quase chegando ao primeiro vagão, perto da onde o maquinista ficava, que as portas finalmente se cerraram, e o trem partiu, deixando P. para trás.

Então P., seguindo o vagão com seus olhos de aflição e descrença,  andou calmamente até a máquina de coca-cola que havia perto de uma das escadas, sentou-se no chão como um mendigo, cansado de tanto carregar papelão, quando de si deslizou uma lágrima de sal. E já no chão, seu telefone sem mais tocar, brotou em sua cabeça uma música antiga demais.




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