quinta-feira, 26 de abril de 2012

Justiça

Entro num ônibus para Ipanema e pago para o motorista. Alguns ônibus desta cidade não possuem mais o bom, velho e mau-educado trocador. Que pena. Essas empresas precisam economizar mais, não é? Sempre me perguntei: como é que um sujeito pode passar horas do seu dia cantando e chupando cana ao mesmo tempo sem virar um completo revoltado? Foi isso que pensei da última vez que o meu ônibus não parou no ponto e depois de uma boa corrida fui reclamar com o motorista, e depois de ser ignorado,  perguntei se ele era surdo ou idiota. Não adianta nem reclamar com ninguém. O mundo é um dominó. Reações geram reações, e o cara que trabalha sem condições, ou pelo menos no meio do furacão, não pode vir a ser uma boa pessoa. E isso, ao mesmo tempo que não lhe dá o direito de ser uma má pessoa, acaba corrompendo o senso de justiça que há dentro de si. Injustiça social tornado-se injustiça humana - talvez nunca o contrário.



Entro num ônibus para Ipanema e dou de cara, imediatamente, com o Lampião. Sim, o Virgulino, o próprio. Demorei uma fração de segundo pra identificar bem, se era uma miragem ou o próprio. Nunca saberei, pois nunca saberei nada nesta vida. Mas o sujeito trajava as roupas do ícone do latrocínio brasileiro, incluindo chapéu a rigor, e o mais impressionante - os óculos. Nossos olhos se chocaram e eu senti que seria melhor desviar o olhar. Penso que peixeira é só pra peixe mesmo. Sentei em meu lugarzinho, isolado do mundo, "and somebody spoke and I went into a dream..."

Fiquei pensando em justiça. O que será justiça? Eu acredito que sei o que é. Mas é justo eu achar que sei? Porque justiça é uma das palavras mais capciosas que há. É claro que para Hitler a justiça era matar todo mundo (na minha concepção ele ia acabar matando até os próprios "arianos" em algum momento). É claro que Hitler foi injusto. Mas tem gente que acha que foi o contrário. Justiça é algo como "crime hediondo", que está em nossa inteligentíssima e aplicada constituição (quá!), ou seja: algo difícil de definir, pois é controverso.

Virgulino, passados os anos, se tornou um personagem. Um ícone de quadrinhos. Um aventureiro, corajoso e viril. Convenhamos é bem mais fácil ser corajoso com um revolver na mão e dez homens dando cobertura. Mas no imaginário brasileiro ele se encontra em alto grau de, sei lá, "compaixão". (?) Admiração, deve ser a palavra certa. Será que compaixão leva à admiração, quando em doses altas? Olho para trás, me escondendo, e Virgulino havia se ido, como chegara - teria sido uma visão?



Tantos personagem hoje edificados não foram tão edificantes assim, na verdade. Por exemplo: o rei David. Personagem imaculado pela Bíblia judaica. Quem sou eu para dizer-lhe santo ou não. Daí a tal da justiça, tão complicada de se estabelecer. Pois o menino que viraria rei dos Hebreus, na verdade não virou logo após ter feito sua maior proeza contra o gigante inimigo filisteu, atirando-lhe uma pedra no meio da testa. Para falar a verdade sua maior e principal tarefa, e proeza, foi unificar um povo que era dividido em doze tribos que não se entendiam e viviam em constante combate, matanças, sangue, etc. E por isso a importância de David. Porém, David, foi um conquistador sanguinário. A unificação do povo foi na base do chicote e da espada mesmo. Formou um exército e foi à luta. Tivesse perdido a guerra a Bíblia seria outro livro. Até alianças com os "gigantes" filisteus ele fez para poder vencer e se sagrar o rei unificador, o mais importante de Israel. Não estou aqui para falar mal, ou mesmo julgar. Pois quem julga sabe. E eu só sei que nada sei. Mas me recuso a tomar a cicuta. Como dizia Francisco, não o santo (louco): "Eu vou até o fim!" 

Saltei do ônibus, fiz o que tinha que fazer, voltei pra Copacabana. Quase chegando no meu ponto entra uma antiga professora da academia de ginástica onde eu malho. Ela era, e continua sendo a mais linda, gostosa e besta, agora de alguma outra academia. Mas quem sou eu para julgar? Talvez se eu tivesse um metro e setenta e cinco, corpo melhor que o da Luana Piovani, olhos azuis, cabelos louros, com certeza eu seria diferente. Mas a menina sentou no banco ao lado do meu, e estava chorando cântaros. Mandei um suave "psiu". Ela olhou sem graça, porém sorrindo. Quem pode julgar alguém que sorri para outra pessoa durante o auge de sua própria dor? Mas...porque sorrir? Julgo, eu. Vergonha, é claro. Mas é injusto consigo mesmo sorrir falsamente quando a coisa dói. Seria muito mais natural, e poético, dizer um simples "oi" meio retardado, e soltar um lindo soluço de dor. Entretanto, me deu um olhar de revista Caras - onde às pessoas pagam para mentir suas dores. Dei outro "psiu", e perguntei, humanamente, porque é que ela estava tão mal assim; se ela precisava de ajuda, sei lá... Resposta singela: "Não obrigada... problemas." Rindo.

Saí do ônibus pois era chegado o meu ponto. Atravessei a rua e um táxi passando pela minha frente "pisou" em cima de um frasco vazio de plástico de shampoo, ou algo que o valha, que explodiu e acertou em cheio o meu saco. Julgamento: alguma mulher idiota, ignorando a lata de lixo que ficava há dez metros, simplesmente resolveu sujar um pouco mais essa cidade imunda, e jogou no chão o que havia passado na sua cabeça uns minutos antes. O taxista imbecil, correndo pra avançar o sinal vermelho à sua frente (como se não fosse avançar de qualquer maneira) passou pelo frasco como teria passado por mim sem o menor remorso. Ouviu-se a explosão do ar sendo expelido, arremessando-o diretamente no meu saco, que não tinha nada a ver com o taxista nem com a madame, nem com a rua imunda de Copacabana. Mas isso é um julgamento, então não vale. O motorista podia estar correndo para salvar a sua mãe, e o frasco, quem sabe, não caiu de um avião? Ops! Julgamento de novo. Que merda. É possível o ser humano ser zen e "pensar" ao mesmo tempo?

Esse texto surgiu dentro do ônibus. Eu pensava em justiça, e natureza, e vida, e filosofava minhas amarguras sem meu Ipod pra ajudar. E me veio à mente um velho mito, ou não, cabalístico, judaico, inteligente, que diz que a civilização se encontra sustentada por dez sábios, justos. Que são os pilares do Homem. E que enquanto existirem dez justos o ser-humano existirá. Sempre achei isso fascinante. Até porque ser justo é talvez a coisa mais difícil que há. Há quem ache que é justo o sujeito do jogo do bicho desaparecer caso não pague o prêmio de um apostador. Há quem ache que é justo o presidente e um país ter benefícios de rei, sendo ele apenas um gestor dotado de um cargo público. Há quem ache justo haver reis que não contribuem em nada para a sociedade, apenas com um título, enquanto pessoas morrem de fome na África. Reis africanos inclusive! Porém, há gente que sabe que não é justa, que não é correta, que erra, mas que não sai por aí atropelando pessoas ou matando por qualquer razão "justa".




Então me veio na mente que essa passagem oral cabalística judaica, que fala sobre os dez supremos sábios, pilares do Homem, pode ser uma metáfora. Pois o judaísmo é sempre cheio delas. Talvez esses dez justos não sejam humanos, visto que até o rei dos reis cometeu lá suas gafes. Talvez sejam plantas, talvez sejam florestas. Pois sem elas não é possível a nossa civilização, e nada mais naturalmente justo do que uma floresta. Pois nela reside a calma devastadora do universo, sem dois pesos e duas medidas, sem julgamento de qualquer espécie. Uma planta apenas existe, e só. (Embora existam árvores injustas sim, mas aí complica a conversa...) Talvez os sábios sejam dez florestas ainda naturalmente conservadas.

Independente dos sábios existirem ou não, acho que quando não houver mais dez florestas no mundo, assim perecerá o homem da face da Terra. Sei que não sou um deles. É uma pena e peço perdão. Mas faço minhas músicas, e em minha abstração inconsciente, acho que por alguns segundos consigo enxergar além do simples. Mesmo assim, de que valho eu? 

Ajeitei meu saco, andei em direção ao meu prédio, o porteiro, que vive estudando para tentar algum dia não ser mais porteiro (e isso é justo demais), abriu o portão, e assim encerro este texto. Com a vida continuando a passar.