sábado, 3 de março de 2012

POESIA DE ISRAEL

Há algum considerável tempo atrás, eu encontrei num sebo, um livro que pra mim é uma relíquia. É um livro de poemas de autores judeus, a maioria do início do século XX até seus meados. Por isso mesmo sobreviventes de uma época dramática para o mundo, mas especialmente para eles, sobreviventes da primeira guerra, dos pogrons, e alguns da mais que terrível segunda guerra mundial, e suas perseguições. 

São poemas pungentes de dor, na sua maioria.  Porém contendo a antiga sabedoria que os judeus possuem. Por ainda existirem e sobreviverem como um só povo, é uma sabedoria que traz a amargura de tempos inexplicáveis, atrocidades, amores antigos, fantasias reais, mãos que acariciam, e olhos que pedem em meio à escuridão. Porém é sabedoria de tocar à frente e sobrepujar as mazelas. De se saber sofredor, mas não sê-lo. De nunca aceitar o mal...

E, com certeza, menos valeria este livro se a tradução do mesmo não fosse da grande Cecília Meireles, que soube como ninguém adentrar, e retirar dos versos, a dor e a poesia tão penetrantes, às vezes como faca na alma. Sinto o quanto ela deve ter sofrido ao traduzi-lo. E ainda, de brinde, possui desenhos de Portinari. 

O livro é grande, portanto fiz uma seleção dos poemas que eu mais gosto aqui, e os estou publicando, dando os devidos créditos.

Nunca publico nada que não seja meu neste blog, porém é um livro raro que vale a pena ser lido, nem que apenas um pedaço.

* * *



O MURO DAS LAMENTAÇÕES

Na alta colina há um velho muro de pé,
todo cheio de fendas, de onde sai a erva grossa.
Mas sua força está íntegra,
no coração forte das pedras.


Diante desse velho muro há velhinhos curvados:
inclinam-se rezam, choram;
contam seus lutos e redizem às pedras
seu sofrimento ainda recente e vinte vezes secular.


E da extrema altura, sobre o muro arruinado
nascem raios de sol dourados de piedade;
e o Deus que desce aonde descem essas luzes
consola ao mesmo tempo os velhinhos e as pedras.


Cohen, Iacov (1881 - 1961)


* * *


COMO MATAR?

Eu, criança sensível
que abria a janela diante de uma mosca transida de frio,
que ajudava a formiga em seu trabalho,

suprimir uma vida?
erguer um sabre?
Meu Deus, meu Deus,
e que faria do judeu que há em mim?
Meu Deus, meu Deus,
talvez te hajas emganado.
Estarás enganado. talvez.

Exterminarei para sempre
as preces de desespero,
matarei as profecias da morte.

E pela minha vida santificarei
o Nome de Nosso Senhor;
não pela minha morte.

Hameiri, Avigdor (1886)

* * *

NEM TUDO É TÃO SIMPLES

Nem tudo é tão simples, pelo pátio das casas.
As janelas encaram, dentro do acontecido.
Nas frias construções, no árido pavimento,
cada hora está gravada: cada hora que passa.

Nem tudo é tão simples, entre as quatro paredes:
há qualquer coisa na atitude das estantes,
e a pesada cortina, e o leito que se arruma
curvam-se a um jugo, a um peso de conhecimento.

E em toda a casa são as escadas sombrias.
Por elas descem de manhã, sobem à noite
criaturas caladas, que fecham suas portas.
Minha alma por elas sofre, minha alma por elas reza.

Chalom Chin (1905)

* * * 

DOS CANTOS DO RIO
(O rio canta para a pedra.)

Beijei a pedra em seu sonho gelado,
porque eu sou o cântico e ela, o silêncio,
porque ela é o enigma e eu quem o propõe,
porque ambos fomos talhados da mesma eternidade.

Beijei a pedra, sua carne solitária,
ela é jura de fidelidade e eu o infiel.
Eu sou o efêmero e ela o permanente,
ela, o segredo da criação, - eu, sua revelação.

E eu vi que tocava no coração do mistério:
eu sou o poeta e ela é o universo.

Goldberg, Lea (1911)

* * * 


NA ESCURIDÃO

Se me mostram um seixo e eu digo seixo eles dizem seixo
se me mostram uma árvore e eu digo árvore eles dizem árvore
mas se me mostram sangue e eu digo sangue eles dizem cor.
SE ME MOSTRAM SANGUE E EU DIGO SANGUE ELES DIZEM COR.


O DIA INTEIRO

Meu Senhor,
caminhei o dia inteiro para ver a tua face.
Os ventos fortes cortaram-me o rosto e os joelhos
os fortes ventos combateram meus passos
os ventos fortes apagaram as luzes dos meus olhos.

Meu Senhor,
caminhei o dia inteiro para ver a tua face.
Por tua força caminhei:
a cada passo pensava em teu nome.
A cada passo afogava teu nome
nos rochedos, na lama, na areia.
De caule em caule.
De poste em poste.
Eu sabia que te veria vivo,
pois não morrerás nunca
não morrerás
não!
Pois tu és o supremo Senhor da tribo.

Meu Senhor,
caminhei o dia inteiro para ver a dua face,
e encontrei-te escravo.

Guilboa, Amir (1917)

* * * 

SEPARAÇÃO

Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.

Zangwill, Israel (1864 - 1929)

* * *


DE TODOS OS VAZIOS . . .

De todos os vazios entre os tempos,
de todas as distâncias entre as filas de soldados,
das brechas do tapume,
das portas que fechamos mal,
das mãos que não juntamos bem,
do vazio entre os nossos corpos que não apertamos um contra o outro --
nasce uma extensão vasta que se desdobra,
uma planície, um deserto,
por onde nossa alma irá sem esperança, depois da morte.


Amikhai, Iehuda (1924)

* * *

OÁSIS

Como uma pluma de fumaça
repousando em meus lábios

como à flor d'água
sobre os peixes dos meus olhos

lavarei meus cabelos na noite
e meu corpo na auréola da lua

descerei do meu deserto
para o oásis das tuas mãos

Chani, Rina (1937)





2 comentários:

Oi Reticências disse...

Este livro é de fato uma relíquia, Allan! Estou conferindo os poemas que separaste..

claudia cristina tonelli disse...

Legal, bacana.