quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sabedoria

Houve uma época em minha vida em que tentei plantar flores. Minha mãe dizia: "Não é fácil assim, menino. Tem que saber...tem que saber..." Eu resmungava e retrucava dizendo que na natureza tudo dava. E na minha ingenuidade bastava revolver a terra e jogar sementes. Mas ela estava certa. Comprei saquinhos de várias qualidades, inúmeras flores. Não me liguei em suas características individuais. Se gostavam de frio, se gostavam de pouca água, ou muita, de sol, de vento, de sombra, etc. Achava que com carinho qualquer flor nasceria. Mas minha mãe estava certa. De nada adiantava eu reclamar e até diminuir a sua sapiência. Ela sabia que flores não brotam à toa. Pelo menos pelas mãos do homem.




Eu cheguei até a plantar umas sementes de macieira nuns copinhos de plástico. E ao ver que algo verdinho havia brotado corri feliz da vida, achando que havia conseguido o primeiro sinal fundamental de uma imensa árvore. Pois sim! Minha mãe riu de mim, e disse que possivelmente não era uma macieira, o que havia brotado, e sim uma erva qualquer, de alguma semente já contida naquela terra, comprada e adubada, e vendida num supermercado. Eu, de novo, retruquei, pois é claro que na minha esperança aquilo era uma macieira. Pois digo: nem trevo aquilo era.

Hoje lembro de uma música da Joni Mitchell, que também é sábia como mães. "Clouds". Música de melodia triste e perfeita. Instrumento bonito, madeira velha que não tem mais, bem tocado, de afinação aberta que torna tudo etéreo como deve ser. Nesta música, cercada de anjos, existem flores regadas e plantadas, e que por alguma razão do desconhecido não brotaram. A música fala disso, de amores vãos, de amizades crescidas e esquecidas nos confrontos da lida. Fala de experiência, e de aprendizado, que só o tempo-movimento pode nos trazer. Não há escola que substitua uma mãe. Não há esperança que saiba mais que a idade. A experiência é a verdadeira "Clair de Lune". E essa música é a "Clair de Lune" do estilo folk, de uma época onde se sentava num mustang e se atirava do penhasco da vida, sorrindo.

Hoje a vida nos atira em mustangs que não existem mais. Nos promete que rosas podem crescer à toa, e que "Clouds", ou que "Clair de Lune", podem ser compostas no vácuo. Lá em sua caminha, minha mãe resplandece em seus sonhos de circos e mágicos, e quando acorda, com certeza luta contra si mesma. Todo santo dia de labuta. Eu aqui, daqui a pouco vou sonhar com luas e nuvens, e vou esperar que em meus dias flores brotem da ciência da natureza. Porque tudo que brota à toa pelas mãos do Homem, com certeza, não deve valer à pena.

E vou cantar os cisnes, e vou ouvir os tiros de canhões de alguma grande sinfonia erudita, e vou me sentir célula de algo. Pois é preciso se sentir parte de si mesmo. É preciso saber entender as cores das bromélias, e o perfume dos jasmins, das rosas, dos laranjais. É preciso entender que não nos pertencem. Nós é que pertencemos a eles. Neste universo tão florido de astros e movimento há em algum lugar a explicação da aguinha que vai alimentar o raminho de bambu.

Vou dormir pensando que a Joni me ouve sem ouvir, que Debussy ainda existirá, que a felicidade é um acorde de dó maior em tríade, e que vou acordar no meio de um redemoinho literário de Edgar Allen Poe. Mas que no momento derradeiro vou pular. Vou pular tão alto, e que as nuvens serão de fibra de vidro. E que quando eu cair, vestido num paraquedas de guarda-chuva, minha mãe há de me dizer de novo: "Calma, menino. Não é assim..."

4 comentários:

Anônimo disse...

Freud puro, maneiro. Freud explica.

Elizabeth disse...

Todas as sementes são divinas, até as que, por alguma razão, sobreviveram só das chuvas e do sol. Essas mais especiais ainda, cheias de incrível capacidade de superação às intempéries. Conheço sementes que não tiveram "mamas" por perto, e hoje caminham para a plena inteireza. Mesmo que doa mais. Cada vez que fazemos chorar uma semente "frágil", dessas que mal sabemos o nome, ela se faz mais forte...ou sucumbe. Normalmente, ela fica mais forte.

Danny Reis disse...

Belo, Alan! Muito belo.
Tenho lido textos fantásticos aqui. Parabéns!
Também tenho um blog. Se um dia você quiser visitá-lo, o endereço é revisandoomundo.blogspot.com.
Beijo!

Alan Sommer disse...

Lerei sim, Danny!