terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Poema de Álbum

Da velha foto de família                                        
Num álbum velho encontrada
Numa página, por anos e anos
Totalmente esquecida
Os descaminhos e desenganos
De uma família amarelecida
Quantas lágrimas vertidas?
Águas tênues entre tapetes
Peças persas feitas cortinas
Penduradas no tempo destes
Que outrora me olhariam
Como filho pródigo e protegido
Dotado de seus restos de vida
A família foi represada
Suas margens proibidas
Por povos autoritários
Por olhos que chicoteavam
Seus olhos metralhados
Por mãos psicopatas
Pelo meio veio a guerra
A era dos seres coitados
Depois da hora dita certa
Mortos foram todos fuzilados
Assim como conto com referência
Por serem judeus infestados
Minha família pereceu nos muros
Ou nas covas dos enjeitados
Seus dedos de ouro
Foram todos decepados
Seus semblantes brancos e todos
Com o lodo misturados
Não há pior destino
Que a frieza da cova
Antes que surja a morte
Pagar o valor da cota
Eram brancos de neve
Ou de pavor ou de guerra
Eram brancos de humanos que eram
Como os "pródigos" pardieiros
Seus iguais da terra
Apenas sobrou meu bisavô
De olhos azuis e alma também
Que por ter lutado lutas inglórias
Sem ser escolhido por si
Mas por qualquer outro alguém
Fugiu depois de dez anos
Ter empunhado uma carabina vermelha
À terra dos mares além
À cidade das sereias
Rio de Janeiro, grato e brasileiro
Onde as luzes não eram bombardeiros
Mas sim batuques e candeias
Cidade de lua amarela que não cai na cabeça
Apenas traça uma reta
Num mar de maré cheia
Essa é a história correta
De minha doce família
Nem um pouco incerta nas dores
História de  amores e guerras
Navios e carabinas e símbolos vermelhos
História não escolhida, apenas aceita
Pelos que nascem com correntes no destino
Sorte dos que têm o direito
De traçar suas metas
E de preencher os seus álbuns cheios