domingo, 26 de fevereiro de 2012

Desígnios de Uma Mente Urbana

Eu sou um beduíno do deserto da cidade. Um beduíno que anda de táxi. Atravesso o deserto da cidade. Ligo para um taxista amigo meu e lá vamos nós. Membros de uma cavalaria secreta, seguimos em nossa legião estrangeira. Passamos pela poeira das imaginações que povoam a mente caricata de estranhos animais urbanos.

Já dizia um amigo meu, americano por sinal: "It's a zoo, Alan, it's a zoo." Concordo, e apenas um olhar americano poderia, em sua linguagem fenomenalmente prática definir com tanto "bull's eyes" o que realmente existe nessa urbe desenfreada. 



Mas com tudo isso, não passa de um deserto, nos cascos do taxi de meu amigo taxista. E sempre alerta seguimos, baionetas empunhadas à frente. Sempre a espera do inevitável. Sempre pronta para adentrar algum universo humano que tente, de alguma forma, nos impedir.

Muitas vezes pensei: impedir de quê? Pergunta eficiente, de resposta inexistente. Não sei responder, e também não me atrevo a jogar tal dúvida na mente de outro membro da legião. Teria vergonha, depois de anos de busca, não ter a mínima idéia do que busco. Sinto-me um enviado à sibéria de meus país, aos enredos de meus antepassados, aos Atacamas de minha geração, à pressão alta dos desertos de areia de um Marrocos inventado.

Um dia um outro amigo me deu um presente emocionante. Areia engarrafada do deserto do Saara, da parte do Marrocos. Guardei aquilo por anos, como ouro em pó. Mas era só areia. Não qualquer areia. Traços indefiníveis de um mundo extremamente pisado por camelos e seres marcianos orientais. Rastros de, quem sabe, alguma origem minha, devassada pelo tempo. Aquela areia era a areia mais antiga do mundo, era o próprio Tempo.

Depois sumiu. Não sei mais onde está. Agradeço a esse amigo espanhol, porém acredito que certas coisas sempre dão um jeito de voltar à sua terra natal. E disso não sabemos como. Penso nisso enquanto rodo pelas estradas do nada, como num conto do Tcheckov, onde um prisioneiro segue, escoltado por dois soldados, por uma trilha sem fim, em meio a uma bruma mitológica. E conversam, conversam e ele pede a liberdade. Mas para quê a liberdade se tudo o que lhe resta é esse caminho que dará no nada, e uma bruma que não te deixa ver?, responde por fim um dos soldados. E assim, cabeças baixas, eles seguem. O conto é, resumindo, algo assim.

De repente o táxi desaparece, e nada mais há. Apenas meus sapatos e meus pés, que me guiam por ruas desertas de almas, cobertas por marcianos, membros de um zoológico mitológico, que imagino eu, deve ter ultrapassado nossa atmosfera e se criado. Sou um deles. Devo ser. Pois quem seria eu pior que os outros? Meus passos me levam, e nos confins da minha mente imagino flores e amigos, cavernas e futuros, invernos ásperos, e a primavera mágica de Vivaldi.


Um comentário:

claudia cristina tonelli disse...

Materialize seus sonhos como materializa seu livre pensar...e suas asas hão de nascer, ainda que à beira do abismo. Teremos então o primeiro "Leão Voador".

Deixo aqui meu beijo e meu atemporal Amor.