quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Absintho

Acabou o carnaval. Então para comemorar abri uma garrafa de Absintho. Não essas merdas de anís, falsificadas pra enganar trouxas. Absintho mesmo, de verdade, da planta do Absintho, que uma amiga minha belga e beberrona convicta me explicou anos atrás. Sonita... ah Sonita!  Um jeito de marrenta e mais doce que licor,  mais ácida que Visna.

Um dia ela me apresentou uma cachaça de pêra. Fiquei com medo de beber. Não é a toa que esses europeus criaram e destruíram civilizações. Só um sujeito bêbado pisa no seu próprio pé com tamanha indignidade e aristocracia.

Pois então. Para comemorar o carnaval eis-me nadando em mares de Absintho psicológico. Onde o líquido nem tem mais importância. Seu ouro delicado já se transformou em chumbo há muito tempo. Ao contrário do que os alquimistas (que estão chegando, segundo J. Bem) desejavam.

Eis me aqui sentado num canto do quarto. Luzes azuis, finjo que sou o líder esganiçado de alguma banda de rock and roll básico. Sinto que multidões me seguem, e que como, uma vez por dia, groupies que nem sabem mais quem são de tanta asneira que falam.

E de repente abro a porta do meu estorvo social (sou agradecido por ele), e saio ao Sol. Sem nunca pregar os olhos castanhos que já devem estar verde-avermelhados, me dirijo ao primeiro quiosque que vou encontrar na praia de copacabana.

Sigo pela minha velha rua, Constante Ramos, berço de minha genialidade pagã, e segredado que fui, penso nas mudanças que sofreu esta rua tão outrora linda. Ruas são como rios. E de acordo com algum filosofo muito perspicaz, que esqueci o nome, são como rios, ou seja, nunca são as mesmas, estão em eterna mutação.

Ai, minha ruazinha amada... Nem o portão do meu antigo prédio se manteve, nem a fachada de mármore creme sobreviveu à ação de um síndico besta. Também, aquele prédio sempre teve síndicos bestas.... O Tempo é um síndico besta. Duvído que alguma vez eles tenham se afundado em absintho. Minha vizinha sim, se afundou em tudo. Como as bóias são importante, né?

E aqui sigo eu, trocando passos pós-carnaval. Pois acho que a melhor bebedeira é a pós-bebedeira. E suddenly o líquido mágico começa a realmente surtir efeito. Sinto isso quando vou atravessar a rua e vejo que um caminhão passa por cima de mim fora do sinal e eu não morro.

Não era um caminhão, era um pombo,  desses bem sujos, que se alimentam de mijo das ruas. Ele gruda na minha cabeça e de repente começo a voar, e tenho a sensação de que mil luzes me afetam, mas é só o Sol que queima minha pele faiscante e europeia.

Quando aterriso não vejo o chão. Tudo é de vidro, e resolvo descer por uma das escadinhas que leva ao banheiro praiano. Descubro que pra mijar preciso desembolsar quase 2 reais. Fico deprimido e faço xixi na senhora que me cobra. Mas na verdade não era mijo o que fiz, era cerveja.  Ela toca um alarme, e de repente somos inundados por uma imensa tsunami amarela. E eu, digo: "Oba! Mais absintho de gratis!" Encho a garrafa já vazia. Tomo todo e a alucinação fica pior ainda.

Ando quilômetros até a urca, a fim de suar e me livrar da toxina. Me deparo com a estátua de Chopin em plena praia vermelha. Me pergunto: "What the hell is Chopin doing in Brasil as a statue???" Or whatever he could be!!!" Ele me responde: "Estragaram minha vida. Olha onde fui parar, eu o REI do absintho, na terra da pior cerveja do mundo, e o pior é que nem deu pra comer umas índias, já haviam dizimado todas...."

Me deu uma garrada bem gelada do ouro francês, o qual viramos de uma vez, e assim nos tornamos melhores amigos e parceiros musicais. Fizemos uma música impossível de se lembrar tamanha o contexto sonhador em que ela foi concebida.

Lembro que deitava nas areias sujas da praia vermelha quando uma mulher simplesmente abocanhou meu queixo e mordeu com tanta força que eu ainda pensei que fosse carnaval. Embora nesse carnaval eu só havia sido abocanhado pela chatice, perguntei seu nome e ela disse de pronto: " Sou o que você não tem porque não vê." Entendi então nessa charada que a chatice era eu.

Neste momento passarinhos me levaram para copacabana e me deixaram num beco escuro, apesar do dia, onde uma lâmpada azul vagabunda, de filamento, me incitava a tocar uma música antiga. E eu a toquei, e chorei minhas mágoas de arlequim. E senti que meus dedos eram vinte e dois, e por isso eu tocava melhor. Dizem que o diabo tem onze dedos. Eu tinha 22 - ganhei!

Quando acordei estava na estação da central, vendando pirulito pra classe operária. Logo eu que vinha de algo um pouco melhor que isso. Acho que minha função real é mesmo a de vender pirulitos, ou goiabada, ou qualquer coisa que cure o álcool alucinógeno do absintho.

A vida é assim.


Um comentário:

Norton Daiello disse...

O Absinto que compro aqui em Portugal é da família desse seu...Só que é um pouco mais forte, compus algumas coisinhas com Bach depois... :)