quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sou uma pedra

Sou uma pedra. Nada mais que uma pedra. Sou uma pedra vulcânica. Apagada há milhões de anos espero o momento certo de ressurgir, de requeimar. Dependo de uma erupção que não é minha, mas da qual faço parte peremptoriamente. Minha tristeza: não escorro mais. Meu calor esfriou com meus curtos séculos. agora sou um aglomerado de pó. Um dia, fui lava quente, derretendo os outros, criando sulcos, cânions, países, alpes e montanhas. Influenciei a geografia da Terra, a geografia de mim mesmo. Destruí cidades, possibilitei férteis plantações. Fui uma mistura de morte e vida. Virei granito. Não sirvo nem para estátua. Talvez sirva pra uma pia de cozinha. Barata. Não me moldo mais a nada. Estou velho. Não participo mais do Tempo. Sou um velho e tristonho e frio cometa preso ao chão.

Ai quem me dera a circunferência de minha montanha explodisse de novo. Depois de milênios povos olhariam para mim com assombro, protegeriam suas faces e seus narizes, mas eu, transformado em gás venenoso os mataria sem piedade. Eu, escorregaria como criança num escorrega de magma. Brilhando, e tracejando a noite com o meu caminho de fúria. Explodiria usinas consideradas intransponíveis, queimaria florestas seculares, reduziria cidades a pó. Ao pó que sou hoje. E sem vingança. Eu seria a reciclagem de algo. A esperança de vida ardente. De que o planeta ainda não acabou. Que existe vida embaixo de nós. Fogo. Radiação. Hecatombe. Até que um dia eu esfriaria de novo, incólume.




Sou uma pedra. Nada mais que uma pedra. Às vezes me chutam de brincadeira. Às vezes tropeçam em mim, e caem. Não posso rir. Não me foi concedido este favor. Mas não se engane. Sou parte de um todo universal. Só o poro mais que microscópio da mitocôndria do ser mais mínimo que há. Sou o pó do cocô do cavalo do bandido. Mas sou algo. Desta vez ínfimo, mas sou importante. O Universo depende de mim tanto quanto de um elefante ou de uma super estrela solar. No dia em que eu desaparecer nada mais restará. Sou o elo perdido. Sou o amor que se perdeu. Aliás, este amor não é conhecido no meu universo. Sou a solidão dos astros em explosão. Sou a cadela que devora o filhote que nasceu com algum "defeito" congênito. Sou apenas arenito selvagem. Não conheço o amor. Ele existe mesmo? Não ouvi dizer, pedras não ouvem. Mas sentem. Sentem os batimentos do solo e o momento da nova erupção. Apenas.

Ai... se em algum momento me fosse concedido o direito de amar.... pois amar é ser amado, não? Com certeza não seria um amor de pedra, e talvez minha alma de granito fosse presenteada com alguma elevação espiritual, e talvez, apenas talvez, então, eu pudesse ser humano.

Sou uma pedra....

4 comentários:

Anônimo disse...

Sei como vc se sente. Eu tambem sou uma pedra.

Anônimo disse...

Amar não é ser amado. Amar é doação. se houver retorno desse amor, é um sinal de que a sua mensagem de amor foi recebida, mas se não, talvez o problema esteja no receptor.

Ou talvez na sua própria carência desenfreda.

vide o exemplo do amor de mãe. é o amor mais próximo do puro neste mundo.

:)

Alan Sommer disse...

Amigo, o amor só existe com retribuição. Amar sem ser amado não é amor. Amor é dar E receber.

Amor de mãe é incondicional e isso é OUTRA coisa. Não tem nada a ver com o amor sexual.

Vai ler Freud.

Alan Sommer disse...

E Anônimo, revele-se, porque da mesma forma que a gente quer saber quer ama de verdade, a gente quer saber quem escreve aqui. ;)

Abraços

Alan