segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pássaros

Li uma vez, quando morei na Inglaterra,  um conto lindo lindíssimo do grande escritor Roald Dahl sobre um menino que sofria muito bullying. Um dia ele foi perseguido pelos outros meninos, e correndo, adentrou uma floresta, onde num determinado instante, se viu encurralado entre uma enorme árvore e os meninos que corriam em sua direção.


Em seu desespero, de não saber o que fazer, ou pra onde ir, ele subiu na árvore. Sendo seguido pelos meninos que rugiam atrás dele. Em determinado momento não havia o que fazer. Ele ia ser pego...e aí... ele voou!


É mais ou menos assim. Faz tempo que li este livro, no original em inglês, nos meus tempos de London Town. Já perdi o livro. Na verdade era de uma biblioteca, e eu o devolvi. Nunca mais encontrei esse conto em alguma compilação, ou em qualquer original. Mas nunca saiu da minha cabeça a metáfora, até certo ponto surrealista, da obra do grande autor. Só sei que não há conto mais lindo e verdadeiro, que possa expressar, e consiga demonstrar a fúria do medo,  e a capacidade que cada um de nós tem de esvair-se, ou superar-se às linhas limítrofes do que aflige a alma ou o corpo.

E neste domingo (pra mim ainda é domingo apesar da hora) de sol e chuva, em que não saí de casa, e já acordei me sentindo fisicamente mal. Penso nas experiências da minha vida. Eu que tenho apenas quarenta anos, e sinto que tudo já vi, cada vez vejo mais e enxergo menos. 

Sinto que minha vida, bem como a vida de toda a gente, é como esta metáfora do Dahl. Nós nascemos e começamos a correr. Correr de algo que não sabemos bem o que é, e que vamos nos dando conta, ou não, durante o percurso, que fica cada vez mais intenso. E em determinado momento é preciso voar para não sucumbir.

Outras vezes penso que a metáfora do conto simboliza a morte, o fim, o momento de libertação da alma. Onde nossos algozes são vistos de cima, e criamos asas, e simplesmente nossos músculos apenas tensionam leveza e suavidade, leves, flutuando por aí, livres de todo o mal do mundo.


Mas no fundo acho que este conto nada tem a ver com a morte. Tem a ver com o ápice do sofrimento e com a própria redenção da alma através da nossa força, proveniente do nosso instinto de sobrevivência. Há um momento em que nossa necessidade é tão grande, nosso fundo de poço tão profundo, nossa perseguição tão perto do fim trágico, e a árvore tão alta, e o medo de ser pego, capturado, trucidado pelas "coisas"... que simplesmente abrimos asas e alçamos vôo. Libertários e livres!

O fundo do poço, como o topo da árvore em perseguição, são reais. E necessários há todos que possuem sangue nas veias, que tanto nos faz sofrer. E àqueles que simplesmente não têm chances, ou que por algum motivo, (que já não conhecem mais, ou nunca conheceram), chegam à beira do abismo, e precisam de alguma forma voar para não cair.

E nesse momento voam... e se transformam em pássaros.



Roald Dahl

3 comentários:

claudia cristina tonelli disse...

Li em algum lugar que sempre nos nascem asas à beira de um abismo...

Bjs e meu atemporal amor,

Claudita.

In retratos da alma disse...

Maravilhoso conto meu querido! muito bom. beijos Gi

claudia cristina tonelli disse...

Ah, meu amor...vc já tem material para um livro!