quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A Era da Solidão

Existe alguma coisa de inconstante nas pessoas de hoje. Algo de desnecessário. Algo que se esconde por trás de um veludo vermelho, cuja trama é de plástico. Algo de rua-de-metrópole-onde-as-pessoas-atravessam-sem-se-notar. Antigamente atravessar a Av. Rio Branco no centro do Rio era como enfrentar um exército inimigo vindo em sua direção. Hoje é como tentar não esbarrar em estátuas de sal.

Sodoma e Gomorra se realizam nesse espetáculo mundano onde as pessoas compram seus amores via celular, e se em algum momento, elas olham para trás, e reparam no próprio, e ridículo semblante, de sua própria era, tornam-se sal para sempre. Pessoas hoje são de sal. E quando eu atravesso aquela avenida, atravesso me desviando das estátuas que, se tocarem em mim, transformar-me-hão em estátua também.

Tenho medo de tocar em pessoas quando ando nas ruas de minha cidade. Minto! Medo não tenho, tenho um certo pudor, não, não seria bem esta palavra,... nojo. Sim, é nojo o que sinto, quando numa rua cheia, alguém encosta sem querer em mim. Não sou misantropo, nem preconceituoso. Mas tenho pré-conceito sim, quando já conheço a situação. E assumo mesmo. Não gosto que me toquem à toa. Não gosto que desconhecidos encostem seus ombros suados nos meus dentro de um ônibus, ou mesmo num esbarrão numa rua qualquer. Não aprecio gente. Acho que gente é que nem cobra. Só que a cobra coitada não pediu pra conhecer gente, e só quer se alimentar.




Nós também só queremos nos alimentar. Mas do quê? Fico pensando e divagando sobre isto. O que será que o ser humano realmente deseja? O que será que ele quer? Sei que não está num celular, sei que não é através de um computador, sei que não está nos jornais, nem na televisão. E chego a conclusão de que está no que é projetado nos filmes. Por isso amo Woody Allen. Pois ele faz sucesso porque busca alucinadamente, em seus roteiros, o mesmo porquê que eu busco neste momento: o que será que este ser humano de merda deseja realmente??

No final das contas acho que o que todos querem é Amor. Mas o que é o Amor? O Amor é o intangível, o inatingível, é uma correção de vôo, para que um ser não esbarre nos defeitos de um outro. (???)

Mas o Amor também é cooperação, e não existe cooperação sem toque, sem que um ombro esbarre no outro, uma mão puxe a outra, etc. Só que numa Babel superpopulada onde fez-se acreditar que o Amor está escondido num celular, (e na verdade pode até estar) ou numa TV ou num computador, as pessoas precisam  cada vez mais de dinheiro para amar, para viver, se alimentar bem, pois ninguém quer amar qualquer um. As pessoas procuram seus iguais (e não há nada de errado nisso). Mas existe mais beleza nas contradições, assim como nas diferenças de tonalidades das pinturas, nas progressões inexatas de um jazz, etc... O Sol é amarelo, o céu é azul, o mar é verde, a areia é branca, a montanha é cinza.... A beleza está nas diferenças. 

É claro que essas diferenças têm que  fazer bem simultaneamente. Porque ninguém quer sofrer. Porém, sinto uma letargia móvel nas pessoas. Sinto que elas em vez de irem direto ao ponto. Buscarem seus interesses diretamente, ("Amor"), elas buscam atalhos para assim atingir esta utopia comercial. 

Ganha-se muito mais dinheiro hoje com a solidão das pessoas do que com mísseis de curto alcance, ou drogas proibidas. O maior mercado do mundo é a solidão. É o que faz girar a Terra. Pois tudo que se constrói hoje em dia segue uma cadeia de supérfluos (ou não), que vão acabar numa palavra amedontradora Solidão.



Talvez por isso esta seja uma palavra inexistente em tantos idiomas mais práticos, geralmente pertencentes a países mais desenvolvidos, onde toda esse loucura começou. Construímos uma sociedade solitária. Onde as mulheres independentes não conseguem, ou não querem, casar. Onde homens de valor são desconsiderados pelas mulheres independentes que não conseguem casar, e vice-versa também. Já ouvi uma pessoa dizer para outra: "Se você está apaixonado por mim... então acho que isso dá muito trabalho..."  O mundo mudou e todo mundo quer um "diamante". E se esqueceram que o prazer que isso remete existe dentro da gente, num órgão que bate mais forte de acordo com nossas emoções, e numa palavra para a qual não se deveria possuir atalhos eletrônicos para ser atingida.

E cada dia que passa cada um de nós se afasta mais de cada um de nós, e com medo de não se contaminar, um com a solidão do outro, deixa de olhar para trás, pois existe sempre o risco de se transformar em estátua de sal. A Bíblia não condena esta proteção natural e individual do ser humano. Pelo contrário. Deus disse algo assim: "Não deveis olhar para trás!" A mulher de Lot olhou e virou estátua de sal. É cada um por si neste mundo mesmo. Mas como dizia o filósofo Roger Daltrey do "The Who": 1+1=1. E eu acredito nisso, mesmo sendo individualista e continuando a odiar as pessoas no metrô. 

Não sei se este texto faz algum sentido. Ou se é uma profunda contradição. E de alguma forma é, com certeza, pois não estou aqui sentado à toa, escrevendo para um bando de desconhecidos (outros não), usando um computador que foi comprado com o dinheiro sujo de um mundo podre, e sem ganhar como paga pelo texto, nem dinheiro, nem o Amor que eu mereço. Acho que é basicamente sobre este tema que escrevi quando compus a música "Amor Obsoleto"...

Será a solidão dos tempos, ou serão os tempos da solidão? A Era da Ingenuidade acabou-se. Estamos preparados para a  Era da Solidão?




Um comentário:

claudia cristina tonelli disse...

Eu não vou virar estátua de sal. Eu não vou olhar para trás...só para frente. E quanta coisa se (re) encontra pela frente...ou não.