quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Tempo e Sonho


Quando Jonas teve sua primeira alucinação foi assim: duas doses bem servidas de uísque com gelo e uma bolinha de noz moscada suavemente ralada e colocada dentro da bebida. Foi um estouro. Havia lido sobre as propriedades alucinogênicas do tempero, e como era uma pessoa de oitos ou oitentas resolveu botar pra foder. Foi realmente um estouro. E como dizem que as alucinações sempre são algo como uma mistura mística do Universo e nosso inconsciente, a primeira sensação que teve foi a de se transformar num mosquito. Escorregou pelas paredes de cristal do lindo, e trabalhado copo de uísque, inexoravelmente até o líquido amarelo, agora meio escuro devido à influência da noz. Se lembrava de  tentar se agarrar num iceberg de gelo, sem conseguir, e ao mesmo tempo que deslizava ao líquido, o copo fazia movimentos circulares como se alguém tentasse misturar a mistura e sorvê-la. E de repente, quando suas asas também já se empapuçavam de álcool sentia o copo tremular e inclinar como um avião que fizesse uma curva, e num momento rápido vislumbrou de cara o vermelho de uma boca e um bigode esbranquiçado, e quando viu melhor notou que era ele mesmo quem próprio começava  a virar o copo para dentro da boca vermelha,. A língua pastosa e branca do álcool... Era ele mesmo que se auto-ingeria. Começou a gritar, e viu que isso não era possível, pois mosquitos não gritam, e de repente acordou quinze horas mais tarde na banheira de seu apartamento na praia do flamengo. Uma banheira imensa do melhor granito que havia no mercado. Acordou quase afogado e com uma imensa dor de cabeça, sem saber direito como foi parar lá.


Levantou trôpego, se enxugou na toalha, deu uma breve olhada no espelho e constatou olheiras cadavéricas azuis - a onda não devia ainda ter passado completamente, assumiu. Mas a razão já havia voltado e dentro dela ele pensou o quanto talvez estivesse indo longe demais em suas experiências. Até porque eram solitárias como ele sempre fora. Apenas cercado de pacientes que precisava atender de qualquer maneira, pois pagavam muito, e muito bem mesmo, por quarenta e cinco minutos de seu tempo e suas palavras. Olhando em seu Rolex jogado no mármore perto do espelho confirmou que possuía apenas dez minutos para escovar os dentes e se preparar para o paciente do dia. Aquele era um dia morno, calmo, perfeito para experiências de noites anteriores.

Foi se vestir, e no momento em que se vestia a campainha deu quatro toques simultâneos e rápidos. Devia ser aquela velha de bosta, viciada em cricket, e que sonhava todas as noites com um avestruz a perseguindo sexualmente. Lembrou-se que a louca chegava todas as vezes antes da hora, e que isso o incomodava plenamente. Pois era oito ou oitenta, mas não suportava isso em outras pessoas que não ele. Ele era o médico, então, caralho!, ele marcava a hora e gostava que atrasassem, porém que nunca chegassem antes. Se vestiu rapidamente, suas olheiras ainda estavam azuis (para ele) e foi ao encontro da porta pelo imenso corredor repleto de tapetes persas já carcomidos, porém de valor inestimável. Girou a chave e abriu a porta.

(Fim do primeiro capítulo)

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